Meio Ambiente

Seca no Acre: em bairro de Rio Branco moradores ficam sem água nos poços artesianos

08/08/2016 12:05

Famílias dizem que a água ficou salobra depois que o nível do rio Acre baixou. (Foto: Odair Leal/Amazônia Real)  

 

Freud Antunes, especial para a Amazônia Real

Rio Branco (AC) – Os moradores do bairro Residencial Praia do Amapá, que fica no segundo distrito de Rio Branco, estão sem água potável nas casas. Os poços artesianos secaram por causa da seca do rio Acre. As famílias estão comprando água de caminhões-pipa para o próprio abastecimento.  A associação de moradores diz que 548 famílias (ou 2.740 pessoas) vivem no bairro.

Quem não tem recurso para comprar água tratada aguarda a ajuda do poder público. Segundo o presidente da associação de moradores, Carlos Nascimento Barbosa, o Departamento de Pavimentação e Saneamento (Depasa), do governo estadual, está enviando um caminhão-pipa com um reservatório de 40 mil litros por semana. “É liberado até 500 litros por casa, mas a água abastece todo o bairro”, disse Barbosa.

A abertura de poços artesianos foi uma alternativa dos moradores para a falta de abastecimento da rede pública. O bairro Residencial Praia do Amapá nasceu após a venda de lotes de terra pela empresa Ipê Empreendimentos Imobiliários e de ações de reintegração de posse na Justiça.

Para regularizar a situação do loteamento particular, em 2008 a Justiça estadual determinou que a Secretaria de Desenvolvimento Urbano e Obras Públicas do Município executasse as obras de implantação de rede de esgotamento sanitário e do abastecimento de água potável no conjunto habitacional, surgindo assim o bairro. Em contrapartida, exigiu que a construtora vendesse os lotes de terra abaixo do custo e parcelasse as dívidas para não prejudicar os compradores dos terrenos, que chegou a ser chamado de “clandestino” e teve parte dos lotes invadidos por populares.

Passados oito anos da decisão judicial, segundo os moradores, as torneiras das casas continuam sem pingar uma gota de água.

A moradora Maria Izelda da Silva paga para encher a caixa d´água (Foto: Odair Leal/Amazônia Real)

A moradora Maria Izelda da Silva paga para encher a caixa d´água (Fotos: Odair Leal/Amazônia Real)

 

SECA RIO BRANCO-PERSONAGENS_ Maria Izelda da Silva-61 anos_FOTO ODAIR LEALO bairro Residencial Praia do Amapá é vizinho, a 500 metros de distância, das Estações de Tratamento de Água de Rio Branco (ETA 1 e 2), e está localizado na margem direita do rio Acre. As estações são administradas pelo Depasa. Com a seca, a captação de água foi comprometida. Dos 370.550 habitantes da capital, 241 mil podem enfrentar o racionamento no abastecimento de água.

A reportagem da Amazônia Real esteve no sábado, dia 30 de julho, no Loteamento Praia do Amapá. Lá, os moradores não encontram mais água potável dentro dos poços artesiano desde o início do mês de junho. A primeira moradora vista nas ruas foi a dona Zilda de Souza, de 88 anos. Ela caminhava com pressa. Nas mãos levava uma garrafa pet vazia. “Estou buscando água do vizinho para beber. Está difícil”, disse ela ao parar para falar sobre a crise da seca.

Em uma casa do Loteamento Praia do Amapá, a comerciante Maria Izeuda da Silva, 60 anos, estava aflita. Ele disse que mora há seis meses no conjunto. Há dois, o poço artesiano não fornece água suficiente para a família, diz.

“A água foi ficando salobra [salgada]. Às vezes, vejo um pouquinho de água no fundo e eu ligo a bomba que dá só para encher um camburão. Dá só para lavar as coisas, daí tenho que comprar água para as outras coisas”, explicou Maria Izeuda, que disse gastar, em média, de R$ 35 a R$ 40 por semana para encher a caixa d´água com caminhão-pipa.

Há cinco anos vivendo no Loteamento Praia do Amapá, a dona de casa Maria do Socorro Oliveira da Cunha, 28 anos, disse à reportagem que sem a água do poço artesiano da casa tem dificuldades para manter a higiene das duas filhas: uma de dois anos e um bebê recém-nascido.

“O bebê vai fazer um mês. Como não tenho água, vou lavar a roupa no rio [Acre]. A minha bebê não teve problema de pele porque compro água de litro para dar banho”, disse Maria do Socorro.

Sebastiana Rodrigues está sem água em casa (Foto: Odair Leal/Amazônia Real)

Sebastiana Rodrigues está sem água em casa (Foto: Odair Leal/Amazônia Real)

A dona de casa contou que está assustada com a seca do rio Acre. “A água sempre baixou no verão, baixava devagar, mas este ano está pior. Antes secava em setembro e, neste ano, o poço secou no início do verão. Demorava pouco tempo sem água. Meu poço está tão seco que está rachado”, disse ela.

Sebastiana Profilio Rodrigues, 54 anos, mora há 10 anos no Loteamento Praia do Amapá. Ele reclamou que a pouca água encontrada no poço artesiano que tem em sua casa está com gosto de ferrugem. “Pegava água suja [do poço] e colocava cloro, quando dava de pegar. A gente pega [cloro] no posto de saúde ou as agentes vêm entregando”, disse.

Morando há oito anos no Loteamento Praia do Amapá, a dona de casa Regina Pereira da Silva, 37 anos, disse que a contaminação pelo esgoto inutilizou o poço artesiano de sua casa. “Na minha casa o esgoto estourou e caiu dentro do poço, ficando mais de um palmo de água suja no terreno, contaminando tudo”, afirmou.

Adriana Rodrigues, 22 anos, mora com a mãe, Sebastiana Rodrigues, no loteamento. Ele disse que reside no lugar há pouco mais de um ano. Ela morava no bairro Taquari, mas a casa foi inundada quando o rio Acre transbordou na enchente de 2015. O loteamento Praia do Amapá também foi atingido pela cheia e ficou, assim como o Taquari, sob o decreto de calamidade pública.

“Agora estou sofrendo com a seca. Tenho dificuldade de ter água para dar banho no meu bebê. A água que temos não é boa, estou com micose por causa dessa água. Já fui ao médico, mas não sara porque uso sempre a mesma água”, disse Adriana Rodrigues.SECA RIO BRANCO-PERSONAGENS_Sebastiana Profire Rodrigues 54 anos_FOTO ODAIR LEAL AMAZONIA REAL (1)

Francisca Adriano Torres enfrenta dificuldade para ter água em casa (Foto: Odair Leal/Amazônia Real)

Adriana Rodrigues tem dificuldade para ter água em casa (Fotos:Odair Leal/Amazônia Real)

Carlos Nascimento Barbosa, presidente da Associação de Moradores do Residencial Praia do Amapá, diz que o Depasa fez a ligação da água pelo bairro Taquari, que também fica na margem direita do rio Acre. “O sistema não atendeu a demanda”, disse.

Barbosa contou que o Depasa apresentou outra solução para o abastecimento do bairro. “O projeto é para levar água pela Via Verde (a BR-364), mas a autarquia diz que não possui orçamento para bancar os R$ 220 mil necessários para o saneamento”, afirmou.

O líder comunitário disse que tem esperança de que a obra de ligação da rede de abastecimento saia, mas com a ajuda do governo federal.

Nesta quinta-feira (4), o Ministério da Integração Nacional reconheceu a situação de emergência em Rio Branco, mas ainda não anunciou o valor dos recursos que repassará ao estado para as ações humanitárias pelos danos causados pela estiagem.

“O decreto da situação de emergência é a nossa esperança que essa obra saia com o dinheiro liberado pelo governo federal, mas apenas em 2017”, disse Carlos Barbosa.

A reportagem da Amazônia Real procurou o Departamento de Pavimentação e Saneamento (Depasa) do governo estadual para saber se as famílias do Residencial Praia do Amapá serão atendidas no problema da falta d´água no curto prazo. Segundo a autarquia, o governo construiu a rede para a distribuição de água potável no loteamento.

De acordo com o departamento, a última fase da obra é a ligação da rede a uma nova adutora, pois a anterior não tinha capacidade de suportar a demanda do bairro. Para essa mudança, diz o Depasa, serão necessários mais 1.200 metros de tubulação para interligar a rede do loteamento a uma nova rede de distribuição. “A previsão é que as obras comecem ainda neste período de estiagem”, disse o diretor-presidente do Depasa, Edvaldo Magalhães.

Zilda de Souza, 84 anos, moradora do bairro Residencial Praia do Amapá (Foto Odair Leal Amazônia Real)

Zilda de Souza, 84 anos, moradora do bairro Residencial Praia do Amapá (Foto Odair Leal Amazônia Real)

 

No bairro todos se mobilizam em busca de água (Foto: Odair Leal/Amazônia Real)

No bairro todos se mobilizam em busca de água (Foto: Odair Leal/Amazônia Real)

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