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Sustentabilidade para Além das Olimpíadas Rio 2016

Povos indígenas na abertura das Olimpiadas Rio 2106 (Fotospúblicas/Beth Santos/PCRJ)
21/08/2016 13:21

CARLOS DURIGAN

A mensagem da  propagada cerimônia de  abertura das Olimpíadas Rio 2016  nos levou a refletir que vivemos em um mundo em transformação contínua e de que nestas mudanças há elementos positivos e negativos que contribuem para a evolução de nossa sociedade.

Sabemos o quão doloroso e triste foi e é o processo de construção do Brasil, mas apesar disso podemos nos orgulhar da riqueza e complexidade de nossa cultura, abordada de uma forma interessante no evento.

Saltou aos olhos a quase unanimidade no compartilhamento das preocupações em relação ao meio ambiente e à mudança climática em curso em nosso planeta e o quão um gesto simples de se plantar uma ou muitas árvores pode ser nobre e ao mesmo tempo contagiante. No entanto, infelizmente só este gesto ou ainda somente achar tudo aquilo bonito e emocionante não é nem de longe suficiente.

Desde a escolha do Brasil como sede das Olimpíadas de 2016 ouvimos inúmeros discursos sobre o  potencial legado do evento e seus investimentos relacionados e de quanto estes poderiam extrapolar os cenários das disputas esportivas, espraiando-se pelo Rio de Janeiro e outras regiões do país, num ciclo virtuoso de melhorias socioambientais desejadas e necessárias.

O que vimos mais uma vez foram práticas divergentes dos discursos propagados. Multiplicaram nos últimos meses notícias sobre irregularidades nas obras olímpicas e os impactos socioambientais que causaram.  Queríamos ver a Baía da Guanabara despoluída, os projetos sociais e ambientais engrenados em todo o Brasil, mas o que foi feito se restringiu ao Parque Olímpico e a ações cosméticas e efêmeras.

No entanto, temos a meu ver uma oportunidade baseada no sentimento gerado na sociedade nacional pela abertura dos jogos. Este sentimento que deve sair do Maracanã e se desdobrar em ações práticas em nosso dia-a-dia, ainda mais se considerarmos as questões que, não por acaso, são colocadas no debate em torno do desenvolvimento global por cientistas e socioambientalistas há tanto tempo.

O Congresso da União Internacional para  a Conservação da Natureza – UICN que acontecerá em setembro no Havaí traz justamente  o tema “O Planeta na Encruzilhada”. A UICN existe há 68 anos e conta com 1300 instituições-membro e o Brasil tem sua representação neste importante coletivo apenas com 21 heroicas instituições e delas apenas 3 governamentais. Deste evento saem a cada quatro anos, diretrizes e moções importantes que devem ser veiculadas e defendidas por seus membros e executivos nas esferas de tomada de decisão global, regionais e nacionais. Acompanhar o que se discute no congresso, apoiar seus membros em boas decisões e repercutir seus resultados é uma boa forma de agir por ações concretas em prol de nosso Planeta.

Seca mostra a poluição no Rio Acre (Foto: Odair Leal/Amazônia Real)

Seca mostra a poluição no Rio Acre (Foto: Odair Leal/Amazônia Real)

Em bairro de Rio Branco, no Acre, todos se mobilizam em busca de água (Foto: Odair Leal/Amazônia Real)

Em bairro de Rio Branco, no Acre, todos se mobilizam em busca de água (Foto: Odair Leal/Amazônia Real)

 

A fumaça das queimadas encobre a cidade de Rio Branco (Foto: Odair Leal/Amazônia Real)

A fumaça das queimadas encobre a cidade de Rio Branco (Foto: Odair Leal/Amazônia Real)

O dia 08 de agosto foi instituído como o Dia da Sobrecarga da Terra, instituído pela   Global Footprint Network (EFN) como forma de alertar as pessoas de que a cada ano consumimos mais recursos naturais do que a Terra é capaz de produzir, como nos conta bem Michel Santos em seu artigo em O ECO. Assim, não basta nos emocionarmos com a abertura dos Jogos Olímpicos do Rio e comentar com um suspiro: “é verdade”. Precisamos nos mover já, com ações simples do dia-a-dia, consumindo o necessário e evitando desperdícios.

Ainda assim e a partir destas ações iniciais precisamos mudar hábitos. Sofremos em 2015 grandes perdas com o inacreditável e alarmante número de focos de queimadas na Amazônia. Mas não aprendemos com isso, 2016 chegou e mesmo com ações de prevenção em curso o número de queimadas aumenta, como mostra a Amazônia Real. Ainda tem gente que ignora nossas súplicas e lamentações e continua criminosamente ateando fogo por aí e uma dificuldade estrutural enorme enfrentada pelas instituições competentes pela falta de dotação orçamentária condizente com o tamanho de suas missões.

Ao menos dez militares faziam a segurança da onça-pintada Juma, mas a corrente soltou (Foto: Jair Araújo/D24)

Ao menos dez militares faziam a segurança da onça-pintada Juma, mas a corrente soltou (Foto: Jair Araújo/D24)

A morte da onça-pintada Juma comoveu e revoltou muita gente. Mas animais continuam sendo mortos e comercializados de forma inescrupulosa em proporções amazônicas. Diariamente os CETAS (Centros de Triagem de Animais Silvestres) recebem dezenas de animais feridos, resgatados do tráfico e vitimados da degradação ambiental regional e que extrapolam suas capacidades operacionais. Situação grave que não vemos diminuir, apesar do senso comum que leva as pessoas a se emocionarem com mensagens de conservação.

Por fim, ainda em agosto vimos passar o Dia Internacional dos Povos Indígenas com muito a lamentarmos pela violência e ineficiência nas políticas públicas no atendimento às tantas reivindicações históricas e justas dos povos indígenas do Brasil.

Importante assim que, todo cidadão e cidadã com algum resquício daquela emoção ao ouvir Fernanda Montenegro declamar “A Flor e a Náusea”, de Carlos Drummond de Andrade, desperte para o momento que vivemos e que tomados por esta emoção enfim possamos agir frontalmente em defesa da Natureza. Fazendo isso, estaremos lutando por nós mesmos.

Enterro de Clodiodi de Souza, na Fazenda Yvu, em Caarapó (Foto: Ana Mendes/CIMI)

Enterro de Clodiodi de Souza, na Fazenda Yvu, em Caarapó (Foto: Ana Mendes/CIMI)

 

Povos indígenas na abertura das Olimpiadas Rio 2106 (Fotospúblicas/Beth Santos/PCRJ)

Povos indígenas na abertura das Olimpiadas Rio 2106 (Fotospúblicas/Beth Santos/PCRJ)

 

Carlos Durigan é geógrafo, mestre em Ecologia, vive e atua na Amazônia há 20 anos. Participa de pesquisas multidisciplinares envolvendo estudos e trabalhos de campo em biodiversidade e sociodiversidade para subsidiar ações em Unidades de Conservação e Terras Indígenas. Atualmente é Diretor da WCS Brasil (Associação Conservação da Vida Silvestre). 

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