Política

Vila do Curiaú guarda a memória da história dos quilombolas, no Amapá

13/09/2017 20:19

Na comunidade vivem  489 famílias remanescentes de escravos que preservam as festas religiosas e as músicas do marabaixo (Foto: Maria Fernanda Ribeiro/Amazônia Real)

 

Maria Fernanda Ribeiro, especial para a Amazônia Real

A Vila do Curiaú é uma comunidade quilombola localizada a oito quilômetros da cidade de Macapá, a capital do Amapá, onde 489 famílias remanescentes de escravos ainda guardam na memória a história dos seus antepassados, seja por meio dos relatos bem contados pelos antigos moradores, pelas festas religiosas ou pelo som do batuque dos tambores do marabaixo, o ritmo usado pelos escravos para amenizar o sofrimento nos porões dos navios negreiros e considerado a maior expressão cultural amapaense.

O local é considerado um sítio histórico e ecológico, cuja população é constituída de negros que descendem de um povo escravizado e que formaram um quilombo ao fugirem dos maus tratos a quais eram submetidos durante a construção da Fortaleza de São José de Macapá. Em 3 de novembro de 1999, a Fundação Palmares, órgão ligado ao Ministério da Cultura, emitiu o Título de Reconhecimento de Domínio das terras do Quilombo do Curiaú. Foi o primeiro título de quilombo no estado do Amapá e o segundo no país.

Atualmente sua população corresponde ao dobro de quando foi criado, mas todo mundo é parente de todo mundo. Seus moradores são negros por excelência e a comunidade é predominantemente católica, mas com o sincretismo religioso de quem ainda procura as benzedeiras tradicionais antes de ir ao médico para ter certeza que não se trata de uma doença espiritual. 

Entre os moradores dessa comunidade, caminha pelas ruas asfaltadas e quentes do quilombo uma figura que se destaca na luta pela igualdade e educação de suas mulheres. Isis Tatiane Santos, 36 anos, é a presidente da Associação Mãe Venina, que desde 1997 trabalha com as mulheres da comunidade para o devido “empoderamento de nossas pretas.”

Isis Tatiane Santos, presidente da Associação Mãe Venina (Fotos: Maria Fernanda Ribeiro/Amazônia Real)

Solteira, sem filhos, Isis Tatiane foi criada sob os cuidados do pai depois que a mãe morreu no parto da irmã mais nova. Cresceu ouvindo da avó que as mulheres da comunidade deveriam se casar com homens brancos com o objetivo de afinar os traços.  Formada em História pela Unifap (Universidade Federal do Amapá), ficou entre os oito primeiros colocados quando o sistema de cotas pela Instituição ainda não estava em vigência. Começou aos 16 anos no movimento Eclesiastes de base. Como presidente da Associação Mãe Venina – nome da avó materna – desenvolve a conscientização das mulheres por meio de rodas de conversas cujo tema é o acesso a meios para a busca de uma vida melhor em meio a tanto preconceito e discriminação.

“Não admito ser chamada de morena, moreninha. Sou negra. Sou preta”, diz a confiante Isis Tatiane, que faz questão de ensinar as sobrinhas que elas não são “moreninhas”, que seus cabelos são lindos e que alisar os cachos é imposição de uma sociedade branca.

“Cabelo fuá, cabelo black power. Precisamos assumir nossa ancestralidade e empoderar essas meninas aqui para não sofrerem lá fora.”

 

Confira aqui os principais trechos da entrevista onde Isis Tatiane Santos fala sobre o preconceito, como é ser mulher negra no Brasil, o trabalho na associação, os avanços, políticas públicas, luta e resistência.

 

Sem esmorecer a batalha

Mulheres quilombolas do Curiaú (Foto: Maria Fernanda Ribeiro/Amazônia Real)

“Ser negro no Brasil é bem difícil, pois ainda enfrentamos uma luta diária contra o preconceito e o racismo em todo o seus âmbitos. Mesmo com tanta luta dos movimento sociais pela igualdade étnica dos povos que povoaram esse país ainda estamos muito longe de avançar nesse aspecto.

Ser mulher e negra é enfrentar um grande desafio, pois somos vítimas do preconceito de sermos o tal sexo frágil e também do racismo por ser negra, mas o movimento de mulheres negras feministas a qual milito está aí para o devido empoderamento e para não esmoreceremos nessa batalha diária.

Dentro da comunidade ainda nos deparamos com preconceito machistas de alguns homens acharem que existem lugares e profissões específicas pra cada gênero e quando ousamos galgar espaços ditos para homens somos criticadas. Para os primeiros namoricos servimos, mas pra casar constituir família preferem as de fora da comunidade.

Ainda me lembro muito de como no passado a minha avó, com aquele jeitinho dela em nos falar que tínhamos que casar com homens brancos para afinar os traços (nariz, cabelos, clarear a pele). Ela pensava assim por não ter tido tanto estudo e conhecimento e convivia com um comportamento imposto por uma sociedade racista e preconceituosa de achar que o negro é feio e seus aspectos destoam dos padrões impostos pela mesma. Pra que possamos superar essa carga negativa forçada aos nossos antepassados devemos buscar o empoderamento, que é a base para a argumentação e para suprimir velhos conceitos e ideologias.”

 

Conquistas e resistência

“Pouca coisa mudou. Vivemos em um mundo de poucas oportunidades para a população negra, mas o movimento social negro vem lutando para que possamos adentrar qualquer espaço de formação e poder. Mas ainda é preciso conquistar muita coisa. A transformação virá através da educação e assim alcançaremos lugares melhores e ocuparemos os espaços que desejamos. Pra combater temos que lutar para a efetivação das políticas públicas voltadas para o combate do racismo e do preconceito.

Nós não vivemos com o preconceito e sim lutamos contra ele todos os dias desde que os nossos antepassados chegaram nesse país de meu Deus, sendo tratados como coisas, dando o sangue e a vida por está terra.

Mas há conquistas. As cotas, por exemplo, vieram através de muita briga do movimento social.”

 

Associação Mãe Venina

Vila do Curiaú fica a oito quilômetros da cidade de Macapá (Foto: Maria Fernanda Ribeiro/Amazônia Real)

“A associação foi criada em 20 de julho de 1997. Foi uma grande sacada das fundadoras e talvez nem elas soubessem naquele momento a importância desse marco, pois necessitamos estar organizadas para termos maior visibilidade e fortalecimento e conseguirmos recursos para nós mesmas. A mensagem que passo é de que podemos sim vencer as barreiras do preconceito do racismo. Que é válido ser politizada e avançar nos estudos.

Nos reunimos geralmente no espaço da escola da igreja da comunidade e nas casas das mulheres mesmo. Atualmente somos em 142 associadas, mas nem todas estão devidamente preparadas para o embate, de discussão sobre o preconceito e o racismo sobre o que fazer quando nos são negados nossos direitos.

Os homens da comunidade nem sempre nos apoiam. Eles ainda não entenderam que somos capazes de ocupar qualquer espaço e fazer com perfeição o que eles fazem. Eles só vão nos ver com outros olhos quando saírem das suas limitações e verem que o mundo também e feito das conquistas femininas.

Um legado que quero deixar para a minha comunidade é algo visível e que seja referência para a próxima presidenta e para nossas mulheres, para que elas possam se basear e ir atrás de seus direitos.”

 

Políticas públicas e futuro

“As políticas públicas voltadas para os negros no Brasil são impulsionadas pela luta do movimento social, mas dificilmente são efetivadas de verdade. Ainda vamos lutar muito para o devido reconhecimento da contribuição que temos na construção desse país. Eu sinceramente desejo para o meu quilombo um ar de tranquilidade para a nossa vivência em comunidade, que possamos nos fortalecer como coletivo e buscar melhoria de vida, mas nunca abrindo mão da nossa essência e dos nossos costumes. Para as mulheres do meu Brasil almejo a ocupação dos espaços de poderes seja qual for e que possamos definitivamente nos libertar dos grilhões do patriarcado, do racismo e do preconceito e que haja a sonhada igualdade étnica e de gênero.”   

Crianças da Comunidade Vila do Curiaú (Foto: Maria Fernanda Ribeiro/Amazônia Real)

 

 

Leia as reportagens da série Mulheres Líderes da Amazônia:

 Mulheres indígenas se unem para ter voz e participação em Rondônia

Irmãs lutam pelo resgate do povo Shanenawa, no Acre

 

 

 

Se a leitora ou o leitor quiserem sugerir lideranças femininas indígena, ribeirinha ou quilombola da Amazônia para fazer parte da série Mulheres Líderes, podem escrever para o nosso endereço: redacao@amazoniareal.com.br   

 

 

Maria Fernanda Ribeiro  é jornalista, nascida em Bauru (SP), tendo trabalhado em redações de jornais, sites e revistas. Formada pela Universidade Metodista de Piracicaba, ela trabalha entre São Paulo e a Amazônia. Conhecer essa região única do mundo a partir de 2016 a fez entrevistar e compartilhar as histórias dos povos tradicionais que nela vivem. Viajou pelos estados do Acre, Amazonas, Rondônia, Roraima e Pará, onde conheceu aldeias indígenas, comunidades ribeirinhas e quilombolas. Os textos produzidos durante essa jornada foram publicados no blog Eu na Floresta, do jornal “O Estado de S. Paulo”. 

 

Os textos, fotos e vídeos publicados na Amazônia Real estão licenciados com uma Licença Creative Commons – Atribuição 4.0 Internacional e podem ser republicados na mídia com os créditos dos autores e do site. 

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Comentários

  1. joao ataide disse:

    Achei a reportagem muito impontante para nossa visibilidade, há de corrigir apenas algumas questões que ainda nos oportuna: Não somos descendentes de escravos, REMANESCENTES DE ESCRAVOS”
    As pessoas não nasceram ESCRAVAS!, quanto a cultura exitem duas questões – marabaixo é marabaixo, no marabaixo as musicas são chamadas de ladroes de marabaixo e batuque é batuque as rítmicas são chamadas de bandaias. São duas coisas diferentes.

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