02/03/2016 17:54

Para o tuxaua Arão Almeida da Conceição, a seca em sua comunidade não é proveniente do fenômeno climatológico El Nino, como dizem os cientistas. (Foto: Jorge Macêdo/AmReal) 

 

Por Antônio Bentes, especial para Amazônia Real

De Boa Vista (RR) – Localizada na região do rio Murupu, município de Boa Vista, a Comunidade Indígena do Anzol, recém reconhecida pela Fundação Nacional do Índio (Funai), mas não demarcada por uma questão fundiária, vem sofrendo com a estiagem que assola o Estado de Roraima. A reportagem da Amazônia Real visitou a comunidade no dia 16 de fevereiro.

Para o tuxaua Arão Almeida da Conceição, a seca em sua comunidade não é proveniente do fenômeno climatológico El Nino, como dizem os cientistas, mas do impacto causado pelo plantio da espécie Acácia mangium na produção madeireira. A árvore não é da Amazônia, tem origem no Nordeste da Austrália, Novo Guiné e na Indonésia.

 “Nossa comunidade sofre com a escassez de água. As crianças estão constantemente doentes e com diarreia. Os adultos com infecção urinária. A grande responsável pela falta de água em nossa comunidade é empresa FIT – Manejo Florestal. Com a exploração da espécie florestal Acácia mangius secou o igarapé Anzol. Desde 2008 a água, que era abundante e de boa qualidade, ficou poluída com uma mancha rosa e rareou”, afirma o tuxaua Arão Almeida da Conceição.

Embora estejam a quatro quilômetros do rio Uraricoera, os indígenas da comunidade do Anzol não podem utilizar as margens do rio para amenizar a falta de água. “A FIT não permite que tenhamos acesso ao Uraricoera sob a alegação que é uma área de preservação ambiental do projeto de florestamento da Acácia e com isso ficamos dependendo da cacimba que não fornece agua de boa qualidade”, denuncia o tuxaua Arão, como é mais conhecido.

Ele disse que a comunidade formulou denúncias no Ministério Público Federal, Funai, Secretaria Estadual do Índio e na Assembleia Legislativa de Roraima. “Só temos encontrado apoio no MPF e no Conselho Indígena de Roraima (CIR). Nosso problema só será resolvido quando a demarcação vier de rio a rio em terra continua” disse o tuxaua Arão.

Indígenas cavaram um poço em busca de água. (Foto: Jorge Macêdo/AmReal)

Indígenas cavaram um poço em busca de água. (Foto: Jorge Macêdo/AmReal)

Na Comunidade Indígena do Anzol vivem 14 famílias (cerca de 52 pessoas). Elas são formadas por índios das etnias Macuxi e Wapichana. O tuxaua Arão, como é conhecido, é da etnia Guajajara do Maranhão. Ele se casou com uma indígena Macuxi e constituiu família. O casal mora na comunidade há oito anos, sendo três anos liderados por Arão.

As famílias se alimentam da produção de criação de porcos, galinhas e de uma pequena horta, com plantação de milho, macaxeira e feijão. “Vivemos em uma área de 2.000 metros quadrados em uma região que não tem lagos, rios e igarapés próximos com água potável. Somos abastecidos uma vez por semana com 10.000 litros d’agua fornecidos pela Casai (Casa do Índio), e utilizamos uma cacimba existente no leito do Igarapé Anzol”, disse o tuxaua Arão.

O tuxaua Arão Almeida da Conceição foi reconhecido coo líder pela Funai. (Foto: Jorge Macêdo/AmReal)

O tuxaua Arão Almeida da Conceição foi reconhecido como líder pela Funai. (Foto: Jorge Macêdo/AmReal)

A grande queixa da comunidade é de terem ficado fora da demarcação da Terra Indígena Serra da Moça, em 1991. “Quando a Funai demarcou a Serra da Moça e incluiu nela as comunidades do Morcego e Truaru, deveria ter incluído o Anzol na mesma área, criando uma grande Terra Indígena. Agora não podemos ter energia do Luz para Todos [programa do Ministério de Minas e Energia], poço artesiano e outras benfeitorias, pois a Funai não demarcou a área” diz o tuxaua Arão Almeida da Conceição.

A reportagem da Amazônia Real procurou a empresa FIT Manejo Florestal do Brasil Ltda., em Boa Vista (RR). A empresa é integrante do grupo FIT Timber Growth Fund Ltd, um fundo internacional de investimentos com sede do conselho nos Estados Unidos. Produz madeira da espécie Acácia mangium em áreas de savana dos municípios de Alto Alegre, Boa Vista, Bonfim e Cantá. Segundo o diretor Joel Carlos Alípio, a empresa não é a responsável pela falta d´água na Comunidade Indígena do Anzol, como disse o tuxaua Arão Almeida da Conceição.

“A alegação do Sr. Arão não foi acompanhada de qualquer estudo prévio, mas simplesmente baseada em sua própria opinião, e contraria os estudos de especialistas, no sentido de que a cultura vegetal presente na região não causa o esgotamento dos recursos hídricos locais”, afirmou Joel Carlos Alípio.

O diretor da FIT Manejo Florestal negou também que a empresa impede o acesso dos indígenas da comunidade do Anzol ao rio Uraricoera, como afirmou o tuxaua Arão.

“Vemos em verdade novo equívoco por parte do Sr. Arão, uma vez que o acesso ao rio Uraricoera almejado pelo mesmo, só seria possível por entre propriedade de terceiros, conforme mapas fornecidos em anexo, não tendo a empresa qualquer responsabilidade pelo que ocorre ou deixa de ocorrer no trajeto até o rio”, disse Alípio.

Ele destacou, no que diz respeito a área de preservação permanente e reserva legal, “não é do conhecimento da empresa FIT se o caminho até o rio Uraricoera está situado em tais condições”, como diz o tuxaua Arão Conceição.   

“É sabido que o próprio local da invasão, onde se encontram instaladas as famílias da Comunidade do Anzol, e é objeto de ação de reintegração de posse, é que seria área de preservação permanente e reserva legal, sofrendo constantemente com desmatamentos ilegais e irracionais, além de outras formas degradantes, as quais já foram comunicadas às autoridades competentes”, afirmou o diretor da FIT, Joel Carlos Alípio.

 

A Amazônia Real procurou em Boa Vista o coordenador regional da Funai, Riley Barbosa Mendes, para falar sobre a situação fundiária da Comunidade Indígena. Ele disse que a Funai reconheceu a comunidade do Anzol e o tuxaua Arão Almeida da Conceição como líder indígena. A demarcação, segundo ele, “depende de estudos e recursos financeiros, indisponíveis no momento”, disse.

“Nós reconhecemos a Comunidade do Anzol, só não demarcamos, pois são necessários estudos técnicos mais aprofundados que foram solicitados a Brasília no ano passado. A interlocução e demanda por parte deles só surgiu há um ano e meio” informou o coordenador Riley Barbosa Mendes.

Em outra entrevista à reportagem, Riley Mendes disse que a Comunidade do Anzol ainda não foi demarcada pela Funai, pois existe uma questão judicial que envolve uma empresa e fazendeiros. “Os indígenas entraram com um pedido de desapropriação o qual já foi encaminhado para Brasília”, afirmou.

Questionado sobre como a Funai vai minimizar o problema da seca na comunidade, Riley disse que “existe um setor chamado Questão Social. É através dele que a Funai faz um levantamento sobre os impactos da seca nas terras indígenas”.

Conforme Riley, foram enviadas à Brasília as reivindicações dos indígenas, dentre elas, a construção de poços artesianos. “Estamos esperando uma resposta. Nosso papel é pedir apoio para que se resolva a situação o mais rápido possível”, afirmou o coordenador da Funai em Roraima.

A árvore Acácia mangium é uma espécie que vem sendo usada no reflorestamento e recuperação de solo em algumas regiões do Brasil como é o caso da Amazônia. Segundo estudos do grupo de pesquisa Nova Cartografia Social da Amazônia, da Universidade Federal do Amazonas, a espécie foi introduzida em Roraima na década de 90, pelo empresário suíço Valter Vogel. “São roças invadidas por acácia, exames de abelhas, água avermelhada como ferrugem, ameaça a indígenas, proibição de caçar e pescar, menos liberdade”, diz trecho de um estudo publicado pela Nova Cartografia Social da Amazônia. Leia aqui. 

Veja fotos da Comunidade Indígena do Anzol do repórter-fotógrafo Jorge Macêdo:

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Leia as outras reportagens da série:

El Niño Godzilla: Fogo invade terras indígenas em Roraima

El Niño “Godzilla” afeta norte da Amazônia com seca prolongada

El Niño Godzilla: O rumo da seca no lago de Balbina (AM)

 

Esta reportagem especial faz parte da segunda fase do projeto “Amazônia Real – promovendo a democratização e liberdade de expressão na região amazônica” e recebe financiamento da Fundação Ford, por meio do programa “Promovendo Direitos e Acesso à Mídia”.

 

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