Economia e Negócios

Amazônia Real está entre as 100 startups de notícias digitais estudadas na América Latina

21/08/2017 17:00

As pesquisas apontam que o novo jornalismo é mais independente, tecnológico e liderado por mulheres (Foto: Alberto César Araújo/Amazônia Real)

 

A agência de jornalismo independente e investigativo Amazônia Real foi tema de dois estudos voltados para a comunicação e publicados no primeiro semestre deste ano, são eles: “Ponto de Inflexão – Impacto, Ameaças e Sustentabilidade: Um Estudo dos Empreendedores Digitais Latino-Americanos”, da organização espanhola SembraMedia, que contou com o apoio da Fundação Omidyar Network; e “Comunicação no Centro da Mudança de autoria da agência Juntos e Approach Comunicação, com sede no Rio de Janeiro.

As duas pesquisas analisaram as transformações por que passam os meios de comunicação no Brasil e na América Latina, provocada pela quebra do monopólio na produção e distribuição de conteúdo jornalístico pelos meios tradicionais. 

Desde seu surgimento, em 2013, a Amazônia Real é pesquisada por acadêmicos de jornalismo e por agências de várias partes do país, bem como do exterior, por seu pioneirismo em garantir visibilidade aos temas amazônicos que ficam de fora da pauta da grande mídia.

Dirigidas pelas jornalistas Kátia Brasil e Elaíze Farias, a agência tem sede em Manaus, no Amazonas, e mantém uma rede de colaboradores (repórteres e fotógrafos) nos estados do Acre, Mato Grosso, Maranhão, Rondônia, Roraima e Pará.

No site da Amazônia Real são publicadas reportagens exclusivas e artigos de especialistas sobre temas prioritários da cobertura da agência: Meio Ambiente, Povos Indígenas, Questão Agrária, Economia & Negócios, Política e Cultura. Com repercussão regional e nacional, o conteúdo do site é lido atualmente em mais de 170 países.

“As pesquisas contribuem para dar visibilidade ao trabalho desenvolvido pela agência Amazônia Real, além de servir de ponte para transferir saberes e experiências para novas gerações de diferentes partes do país e do mundo. Essas pesquisas valorizam o jornalismo sobre a Amazônia e produzido na Amazônia e, ao mesmo tempo, ajuda a compreender o contexto social e histórico da região através da informação”, diz Elaíze Farias, editora de Conteúdo.

 

Mídia independente

Mapa da SembraMedia

“Ponto de Inflexão – Impacto, Ameaças e Sustentabilidade: Um Estudo dos Empreendedores Digitais Latino-americanos” foi a pesquisa desenvolvida pela SembraMedia, organização latino-americana sem fins lucrativos que tem como objetivo fortalecer projetos de mídias independentes nos países do continente, com apoio da Fundação Omidyar Network.

A publicação contou com um grupo de pesquisadores para analisar 100 startups de notícias digitais, entre elas a Amazônia Real, Agência Pública (de São Paulo), Distintas Latitudes (México), Chequeado (Argentina) e Connectas (Colômbia), e traz o atual cenário da mídia independente nos quatro países com destaque para seus impactos e a sustentação financeira. 

Já o estudo “Comunicação no Centro da Mudança” , de autoria da Juntos/Approach Comunicação, com sede no Rio de Janeiro, foi publicado em um trendbook,. Ele mostra “as seis tendências que estão mudando o jornalismo” e as transformações pelas quais o processo de produção e difusão da informação passou na última década, destacando exemplos deste novo modelo de negócio, além dos desafios de se manter financeiramente num mercado concorrido.

De concentração da notícia nos grandes meios de comunicação que prevaleceu até a primeira década deste século, o estudo diz que desde 2013 os jornalistas se organizam de forma empreendedora para produzir e “vender” suas reportagens.

A crise que faz empresas do setor a demitir seus funcionários levou profissionais que até então estavam acostumados apenas com o cotidiano da redação, a se engajar no empreendedorismo, buscando uma nova forma de se comunicar.

Este foi o caso da Amazônia Real, que surgiu em meio à crise das demissões em massa, chamadas de “passaralhos” pelos jornalistas. “A demissão me proporcionou estudar e empreender em um novo modelo de negócio no jornalismo. É um modelo desafiador, pois temos que dividir, ao mesmo tempo, as tarefas das reportagens e cuidar da contabilidade, do orçamento, projetos, prestar contas e demais tarefas que uma empresa exige”, afirma a jornalista Kátia Brasil, editora-executiva da agência.

 

Jornalismo aprofundado

Cobertura no sul do Amazonas mostrou como vivem os Juma(Foto: Odair Lima/Amazônia Real)

Ao invés de noticiar todos os temas já comuns num noticiário tradicional (política, internacional, esporte, economia), agora há uma segmentação da notícia oferecida, o que proporciona uma cobertura de maior qualidade e apuração. É o que relata a pesquisa “Ponto de Inflexão” desenvolvida pela SembraMedia, que incluiu no estudo 25 empresas de mídia digitais do Brasil, entre elas, AzMina, Voz Da Comunidade, Brio Hunter, InfoAmazônia e Aos Fatos. Veja mais startups aqui.

“Há uma preocupação grande de boa parte desses veículos de fazer a cobertura de determinados nichos, um jornalismo mais segmentado. Então, se é um jornalismo mais segmentado, ele fala com um público mais experiente naquele assunto e ele tende a ser mais abrangente e também ser mais aprofundado”, diz o jornalista e professor Sérgio Lüdtke, pesquisador do estudo da SembraMedia.

“Este novo jornalismo do século 21, mais independente e tecnológico, está não só oferecendo uma outra maneira para as pessoas se informarem, como está fazendo a própria mídia tradicional ter que se repensar”, completa Marcelo Vieira, jornalista e especialista em Comunicação para a Sustentabilidade e Narrativa, atuando na área de Conteúdo da Approach Comunicação.   

Um destes exemplos, explica Sérgio Lüdtke, é a agência Amazônia Real, cujo foco está nas questões amazônicas como meio ambiente, populações indígenas, ribeirinhos, quilombolas e extrativistas, além dos problemas urbanos que afetam a vida de quem está nas cidades.

Na pesquisa da SembraMedia, a Amazônia Real é classificada como um site de notícia hiperlocal que informa comunidades desprivilegiadas.

“Organizações de notícias hiperlocais fornecem informação que não está disponível em nenhum outro lugar, o que torna sua contribuição para o ecossistema de mídia especialmente valiosa”, diz a SembraMedia.

“Recusando o papel de organização ativista, a Amazônia Real é definida como uma iniciativa de jornalismo independente, sem gerência de grupos políticos e econômicos, com atividades voltadas à democratização e o acesso à comunicação na Amazônia, especialmente com a valorização de histórias de grupos sociais que estão na invisibilidade ou de temas poucos explorados na mídia nacional”, diz o estudo da Approach no trecho do capítulo “Tendência 5: Fazendo a Fronteira Avançar.” 

“Nós fizemos questão de escolher a Amazônia Real pelo papel e importância que ela tem de ser, efetivamente, um veículo de comunicação que não só é produzido na Amazônia, como de fato busca possibilitar uma visão da Amazônia a partir de um jornalismo plural, independente e focado nas grandes questões das populações amazônicas, a questão indígena, o desmatamento, a economia sustentável”, acrescenta Marcelo Vieira.

 

Empreendendo na América Latina

A Amazônia Real produz debate sobre os temas da Amazônia. (Foto: Alberto César Araújol)

“Nosso objetivo ao realizar o estudo é estimular e fortalecer todo o ecossistema de mídia digital na América Latina e contribuir para que estes empreendedores tenham a atenção e crédito que eles merecem”, introduz a pesquisa “Ponto de Inflexão” da SembraMedia.

De acordo com os autores, o objetivo da análise é servir como ferramenta para auxiliar os jornalistas empreendedores “para melhor entender as tendências, ameaças e melhores práticas que os afetam”.

Um dos principais desafios para estes veículos independentes é a sua sustentabilidade financeira, capaz de assegurar a renda dos profissionais envolvidos e arcar com os custos para a produção de boas reportagens.

A pesquisa “Ponto de Inflexão” diz que das 100 startups de mídia digital analisadas na América Latina, 65 relataram que estavam gerando receita de pelos menos três maneiras. “Embora a publicidade seja a principal fonte de receita para esses veículos nativos digitais, surge uma crescente lista de mais de 15 oportunidades de receita, incluindo treinamento, consultoria, subsídios, eventos e crowdfunding.”

A agência Amazônia Real, por exemplo, é financiada por doações dos leitores, eventos e pela Fundação Ford através do projeto “Promovendo Direitos e Acesso à Mídia.  “Com os recursos das doações mantemos a estrutura da agência e o trabalho remunerado dos jornalistas, fotógrafos e demais profissionais que atuam na produção do conteúdo”, diz Kátia Brasil.  

Para o estudo “Ponto de Inflexão” os jornalistas empreendedores estão transformando profundamente o modo como o jornalismo é exercido e consumido na América Latina.

Apesar de ainda atender a um público segmentado, sem alcançar a “grande massa”, o crescimento da mídia independente é cada vez mais evidente. Muitas de suas histórias publicadas viram pautas na mídia tradicional e passam a ser de conhecimento de um número maior de pessoas.

“Esses meios já conseguem uma repercussão bastante grande, há veículos com audiência bastante relevante. Eles conseguem pautar a mídia tradicional. Eles produzem impacto em suas comunidades”, comenta Sérgio Lüdtke, que é também diretor da Interatores, empresa de consultoria em comunicação digital em São Paulo.

A ascensão destes veículos se explica, em partes, pelo momento de crise por que passa a grande mídia. Para Marcelo Vieira, não só a tecnologia proporcionada pela internet como um modelo ultrapassado de monopólio da produção de notícias leva os meios já consolidados a essa fase de readaptação.

“O modelo da mídia tradicional está em crise pela tecnologia e pelo próprio modelo mesmo. Um modelo extremamente concentrador. É um modelo em que, à medida que a internet foi se aperfeiçoando e surgindo novos sites, ficaram muito claras as omissões, a cobertura no mínimo questionável, enviesada”, diz ele. 

 

Mulheres na liderança

Mapa SembraMedia da pesquisa com startups do Brasil

As jornalistas Kátia Brasil e Elaíze Farias (Foto: Alberto César Araújo/Amazônia Real)

Uma das constatações da pesquisa “Ponto de Inflexão” elaborada pela SembraMedia foi a participação feminina na criação e gerenciamento destes novos modelos de negócio jornalístico. Dos 100 sites avaliados nos quatro países (Argentina, Brasil, Colômbia e México) 62% tinham o envolvimento de mulheres na fundação.  Quando analisado somente os fundadores, elas representam 40%.

“Esta constatação sugere que as mulheres estão tirando proveito das baixas barreiras de entrada nas startups de mídia para contornar as barreiras de gênero da mídia tradicional e construir suas próprias empresas de mídia”, avalia a pesquisa.

“Depois de trabalhar com centenas de empreendedores de mídia digital, há uma considerável evidência empírica de que organizações de mídia lideradas por mulheres são mais cooperativas, mais passíveis de formarem parcerias e compartilhar recursos, e elas também estão produzindo algumas das mais importantes coberturas em comunidades desfavorecidas.”

“A mídia não é um lugar em que as mulheres comandam, onde seja comum as mulheres comandando os meios de comunicação. Agora, a gente vê a participação importante das mulheres comandando estes novos meios”, completa Sérgio Lüdtke.

Um destes exemplos é a Amazônia Real, agência fundada pelas jornalistas Elaíze Farias e Kátia Brasil. “Quando analisamos a pesquisa no âmbito do Brasil temos 48% das iniciativas fundadas por mulheres. Isso mostra que no novo jornalismo enfrentamos a desigualdade do mercado e conquistamos a igualdade de gênero. Na agência Amazônia Real defendemos a equidade e a igualdade étnico-racial entre as (os) jornalistas e as fotógrafas e os fotógrafos da redação”, ressalta Kátia Brasil.  Veja o PDF da pesquisa.

Pesquisas sobre startups de mídia digital (Foto: Alberto Cesar Araújo/Amazônia Real)

 

 

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