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As mudanças climáticas na visão dos kumuã, os especialistas indígenas

Os participantes do Simpósio de Kumuã (pajés) tukano em São Gabriel da Cachoeira, no Alto Rio Negro, Amazonas. (Fotos:  João Paulo Barreto/AmReal)
26/10/2015 17:11

JOÃO PAULO BARRETO

Há tempo que a mudança climática vem sendo discutida e a situação cada vez mais vem piorando. É sabido que a consequência é causada pelas nossas ações, de desmatamento, poluição das indústrias, poluição dos rios, poluição de carros, queimadas, etc. É um desastre anunciado. Por outro lado, eventos naturais são cada vez mais de grandes proporções. Terremotos, tsunamis, furações, erupções de vulcões, etc, são agora bastante frequentes, fatos que algumas décadas atrás eram considerados menos comuns. Todo esse conjunto de ações e eventos acaba por causar o desequilíbrio do planeta Terra.

Curiosamente, como um dos maiores culpados desse desequilíbrio, apontamos o El Niño. É o que acontece na atualidade com o calor excessivo em alguns países e em algumas regiões do Brasil. Acusamos sem piedade e sem dó o El Niño, isentando-nos de toda nossa responsabilidade frente esse desastre. Temos aqui duas justificativas contundentes sobre mudança climática: uma causada por nós, seres racionais, e outra causada pelos próprios fenômenos naturais.

Entre os dias 24 e 27 de agosto deste ano, estive participando de um simpósio de kumuã (pajés) tukano em São Gabriel da Cachoeira, no Alto Rio Negro, Amazonas. Entre muitas discussões fora dos temas principais, os kumuã discutiam sobre a calor fora do normal que afeta os dias atuais.

Saudosos, lembravam do tempo quando era tudo “encaixadinho”. Começava o período de verão (pouca chuva, início da vazante nos rios amazônicos), era hora de fazer roçado e montar armadilhas de pesca nas cachoeiras e corredeiras, conhecidas como caia e cacuri. Tempo de derrubar roçado e queimar. Outro período, começava o inverno (muita chuva, início da cheia), era o tempo de plantar o roçado, esperar período de piracema e revoadas de tanajura, de maniwara (tipo de formiga da noite) e de fartura de frutas silvestres. Tudo era previsível mediante o calendário cosmológico.

Olhando para hoje, inconformados e apreensivos, comentavam como as mudanças de tempo estão colocando em riscos as suas vidas. Não há mais como saber o tempo exato de verão e, quando ele chega, provoca temperatura fora do comum e período bastante extenso. Não há intercalação de pequenos períodos de tempo de chuvas. Quando o rio seca, evapora de dentro de alguns dias. Morrem as plantas, morrem as manivas, há poucas frutas silvestres e consequentemente é escasso de caça.

De igual modo, é o inverno. Sem muitos sinais que geralmente antecedem o período, começa a cair chuvas torrenciais, transbordam os igarapés, rios, cachoeiras levando todas as armadilhas de pescas montadas.

Fora desses fatos, também surgem doenças não conhecidas, casos que embaralham toda noção dos kumuã (pajés) sobre as referências de origem de doenças. Enfim, nem o calendário cosmológico e nem o gregoriano funcionam, tudo está em avesso. As previsões meteorológicas se restringem a alertas.

Os pajés Luciano Barreto, Avelino Nobre e Ouvídio Barreto (Fotos: João Paulo Barreto/AmReal)

Os pajés Luciano Barreto, Avelino Nobre e Ouvídio Barreto (Foto: João Paulo Barreto/AmReal)

 

Os kumuã contam que, antigamente, a terra estava em equilíbrio porque os especialistas (kumuã) mantinham comunicação constante com os seres que habitam nos espaços (água, terra, floresta e céu) controladores das coisas, isto é, senhor da noite, senhor da luz (temperatura), chamado de muripu-oãku, senhor da chuva, senhora da fertilidade, conhecida de Yepálio, senhores de pesca e caça.

Por meio de bahsesse (benzimentos) ou de sonhos faziam suas previsões e comunicavam com estes seres que nada deferirem em excesso, isto é, temperatura, água e infestações de insetos, etc. Estes seres que habitam nesses domínios são chamados de wai-mahsã pelos especialistas indígenas.

Hoje, não se faz mais comunicação com os wai-mahsã. Garantem que perdemos o contato com esses seres, senhores das coisas. Não se faz mais bahsesse de comunicação e de apaziguamento. Só estamos usufruindo sem dar em troca aos donos e senhores das coisas.

É necessário urgentemente acionar o muripu-oãku e ligar o “ar condicionado” do planeta, que segundo os kumuã é feito por meio de bahsesse, caso contrário estamos fadados a enfrentar cada vez mais o desequilíbrio do planeta.

Os participantes do Simpósio de Kumuã (pajés) tukano em São Gabriel da Cachoeira, no Alto Rio Negro, Amazonas. (Foto:  Ivan Barreto/AmReal)

Os participantes do Simpósio de Kumuã (pajés) tukano em São Gabriel da Cachoeira, no Alto Rio Negro, Amazonas. (Foto: Ivan Barreto/AmReal)

 

* João Paulo Barreto é indígena da etnia Tukano, nascido na aldeia São Domingos em São Gabriel da Cachoeira (AM). É graduado em Filosofia e mestre em Antropologia pela Universidade Federal do Amazonas (Ufam).

 

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