Povos Indígenas

Ataque de índios korubo ao povo matís deixa dois mortos e provoca alerta no Vale do Javari, no Amazonas

Aldeia de índios korubo no Vale do Javari, no Amazonas (Foto: Funai)
08/12/2014 19:56

KÁTIA BRASIL e ELAÍZE FARIAS

A União dos Povos Indígenas do Vale do Javari (Univaja), no Amazonas, informou nesta segunda-feira (08) que duas lideranças indígenas da etnia matís foram mortas a bordunadas por quatro índios isolados do povo korubo na aldeia Todowak, no rio Coari, em 05 de dezembro, na Terra Indígena Vale do Javari, no extremo oeste do Amazonas, fronteira com o Peru.

Em entrevista à agência Amazônia Real, o indígena da etnia marubo e membro da Univaja, Manoel Chorimpa, disse que as lideranças mortas, Ivan e Damã, estavam na roça quando foram atacadas pelos korubo com bordunas.

A Funai (Fundação Nacional do Índio), em Brasília, confirmou as mortes dos matís. O Coordenador Geral de Índios Isolados e Recém Contatados, Carlos Travassos, classificou o ataque como uma quebra de protocolo entre as duas etnias da Amazônia. “Na memória dos matís sempre ocorreu uma situação oposta, os matís que atacavam os korubo. Os matís sempre roubaram as mulheres dos korubo, mas isso (mortes) nunca ocorreu”, disse.

Segundo Carlos Travassos, os dois matís mortos, Ivan e Damã, eram lideranças respeitadas.  “Ivan participou de contatos com os índios korubo por vários anos”, afirmou coordenador.

Em nota enviada à agência Amazônia Real, a Univaja afirma que após o ataque dos korubo, 30 guerreiros matís partiram para selva para revidar as mortes, numa ação classificada pela organização como um confronto inter étnico motivado por “grande revolta” e resultado do descaso da ação indigenista da Funai na região do Vale do Javari.

A Funai negou a ocorrência de revide dos matís contra os korubo. Segundo Carlos Travassos, os matís estão reunidos por conta do luto das lideranças. “Não há informações sobre revide ao ataque”, disse o coordenador.

Possíveis motivos do ataque

Segundo a nota da Univaja, a motivação do ataque aos matís seria a remoção de um subgrupo de índios korubo recém contatados. “Os índios do Subgrupo foram trazidos para o período de quarentena na Base de Vigilância da Frente Etnoambiental da Funai na confluência dos rios Itaquaí e Ituí. Depois foram levados para aldeia dos korubo de recente contato ao invés de ser devolvido ao local, onde estava o restante do seu grupo”, diz trecho da nota.

A Univaja afirma na nota que a situação de possível conflito entre as etnias foi alertada através de notas e ofícios à Funai. “Tem indígenas isolados chegando em quase todas as comunidades dos que já são contatados e que precisava uma ação de vigilância permanentes com estrutura adequada sobre índios isolados da tutela da Funai, bem como precisava melhor proteção do próprio território, com condições financeiros e um quadro de pessoal, para operacionalização de atividades, do abandono de postos de vigilâncias”, afirmou a organização indígena.

A Funai disse que está investigando o motivo do ataque dos korubo aos matís. O coordenador Carlos Travassos afirmou que o ataque não tem relação com o subgrupo korubo recém contatado. “A Funai possui informações suficientes para concluir que a situação (o ataque) não têm relação com esse Subgrupo recém contatado. A criação da aldeia Todowak (dos matís), em 2011, aproximou as duas etnias, mas o motivo dos ataques está sendo investigado. Todo mundo sabe que conflito pode acontecer entre índios isolados e com quem está perto do território deles”, disse Tavares.

O último contato de índios korubo, segundo a Funai, aconteceu no dia 09 de setembro. Os korubo mantiveram diálogos com indígenas da etnia Kanamari da aldeia Massapê, que fica também na Terra Indígena Vale do Javari.

A Terra Indígena do Vale do Javari está localizada no município de Atalaia do Norte, distante a 1.136 quilômetros de Manaus. Na reserva vivem cinco povos contatados: marubo, kanamari, mayoruna, matís e kulina. Há também um pequeno grupo korubo já contatado. Existem menos 16 referências de índios isolados ou de pouco contato, como é o caso de grande parte da população korubo, segundo a Funai. A estimativa populacional indígena no Vale do Javari é de cinco mil pessoas, mas neste número não são incluídos os grupos isolados.

Conflito entre etnias

Em entrevista à agência Amazônia Real, o indígena da etnia marubo, Manoel Chorimpa, atribuiu o ataque dos korubo à suspeita destes de que os matís teriam sido os responsáveis por remover o subgrupo que havia sido contatado pela Funai. Para os korubo, este grupo continua “desaparecido”.

Segundo Chorimpa, o subgrupo composto por seis pessoas, entre elas três crianças, apareceu no rio Itaquaí, próximo à aldeia Massapê, onde vivem os índios da etnia kanamari, e foi mantido em quarentena pela Frente Etnoambiental da Funai que atua no Vale do Javari.

Ele disse que, em seguida, o subgrupo foi levado pela Funai para a aldeia korubo na área do rio Ituí, onde vivem indígenas conhecidos como “grupo da Maiá”, contatado em 1996 pelo órgão indigenista. Este pequeno grupo korubo, que deixou de ser isolado, é composto por 17 pessoas. Maiá é a principal liderança do grupo.

“O problema é que a Funai, ao invés de devolver os índios para o grupo deles decidiu mantê-lo na sua base etnoambiental e depois levá-lo para a aldeia da Maiá. A Funai fez isso para evitar transtorno com os kanamari, mas acabou causando conflito com os matís”, disse Chorimpa, que está acompanhando os acontecimentos por meio de comunicação via radiofonia tanto com os kanamari quanto com os matís. Naquela área não pega sinal de celular.

A preocupação agora é com um conflito iminente. Indígenas matís, inclusive os que moram na cidade de Atalaia do Norte, seguiram para suas aldeias para se vingar da morte dos dois membros de sua etnia.

O coordenador da Funai em Atalaia do Norte, Bruno Pereira, junto com outros três servidores seguiram para a área dos matís no mesmo dia das mortes, segundo Chorimpa.

Ele afirmou que uma das medidas que já está sendo feita pela Coordenação Regional da Funai de Atalaia do Norte é transferência dos indígenas matís da aldeia Todowak para a aldeia Tawaya, no rio Branco, para evitar novos confrontos. Chorimpa disse que mantém contato com o coordenador regional da Funai, Bruno Pereira, por equipamento de radiofonia.

“Tentamos convencer o coordenador a não ir neste momento. Não sabemos o que pode acontecer com ele. Trinta 30 matís seguiram para a área onde ocorreram as mortes, mas soubemos que neste domingo (07) eles retornaram e decidiram não atacar os korubo por enquanto. Mas é só o que sabemos até agora”, disse Chorimpa.

Segundo Manoel Chorimpa, o território dos matís fica próximo à área onde vive o grupo de korubo. “Há quase três anos os matís decidiram voltar à sua área tradicional, nos rios Branco e Coari. Só que ela fica bem próximo da área dos korubo. Isso pode provocar algum conflito”, disse ele.

Manoel Chorimpa afirmou que há uma recente preocupação dos indígenas com o aumento da frequência dos contatos de alguns subgrupos de índios isolados no Vale do Javari. Mas ele não sabe dizer o motivo.

“Pelos depoimentos que conseguimos deste subgrupo que fez contato em setembro, ficamos sabendo que o problema é que vem aparecendo muitas doenças, muita gente morrendo de malária. Mas não sabemos ao certo. É preciso apurar”, disse.

Conforme o indígena marubo, o maior problema está na pouca estrutura financeira e de quadro de pessoal da Funai na área. “Houve o concurso, mas a maioria dos que passou já foi embora. A Funai quase não possui recursos humanos. É preciso ter mais gente pelo menos para preservar a integridade física dos indígenas. Se isto não acontecer, pode acontecer uma tragédia total”, afirmou.

A reportagem não conseguiu falar com lideranças matís. Segundo Chorimpa, todos os matís que estavam em Atalaia do Norte seguiram para suas aldeias.

“Muitos foram de balieira e pec-pec (pequenas embarcações de motor) ou de helicóptero da coordenação. Mas eles não quiseram ficar. Decidiram seguir pois não gostaram de saber da morte de dois parentes desta forma”, disse Chorimpa. A população de índios matís é pouco de 300 pessoas.

Em nota enviada à reportagem, a Funai disse que o grupo de korubo contatado em 9 de setembro não possuí relação, “até onde se pode verificar, com o grupo denominado ‘korubos do Coari’, os prováveis envolvidos neste conflito”.

Segundo a Funai, os coordenadores da Coordenação Regional do Vale do Javari, Bruno Pereira, e da Frente de Proteção Etnoambiental Vale do Javari, Beto Vargas, se encontram desde domingo (7) na aldeia Todowak, prestando o apoio necessário à comunidade e aos parentes dos matís mortos.

Índios isolados

Em seu site na internet, a Funai afirma que são considerados “isolados” os grupos indígenas que não estabeleceram contato permanente com a população nacional, diferenciando-se dos povos indígenas que mantêm contato antigo e intenso com os não-índios.

É a Coordenação Geral de Índios Isolados e Recém Contatados, por meio das Frentes de Proteção Etnoambiental, a responsável pela proteção dos povos indígenas isolados e de recente contato. A coordenação garante também aos povos isolados o pleno exercício de sua liberdade e das suas atividades tradicionais sem a necessária obrigatoriedade de contatá-los.

Conforme a Funai, atualmente no Brasil existem cerca de 107 registros da presença de índios isolados em toda a Amazônia Legal. Esse ano dois grupos isolados fizeram contatos. Além dos korubo, no dia 29 de junho índios denominados “Povo do Rio Xinane” entraram em contato com indígenas Ashaninka da aldeia Simpatia, na fronteira do Acre com o Peru.

Leia mais no site da Funai: índios korubo foram contatados em 1996 e tinham marcas de balas por conflitos com não-índios.  

Atualizado às 23h59.

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