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Ayahuasca ensina na Europa

Céu de Maria na Holanda
03/04/2017 20:09

A bebida milenar da Amazônia, também chamada de Santo Daime, é uma das poderosas forças que ligam esses mundos. Na fotografia o Céu de Maria, na Holanda (Foto de arquivo: Santo Daime)

 

De Amsterdam (Holanda) – Esse é meu primeiro artigo como colunista da Amazônia Real. Essa porta abriu quando contribuí para a agência de jornalismo independente com o texto “A morte do pajé Tëpi Matis e a força desencorporada da cobra”. Espero mostrar neste espaço os caminhos que ligam à Amazônia e a Europa, os povos indígenas e ribeirinhos e o pessoal das metrópoles. 

A bebida milenar Ayahuasca ou Santo Daime é uma das poderosas forças que ligam esses mundos. Uma doutrina nascida do encontro e da circulação de muitas tradições como o catolicismo popular, o xamanismo vegetalista da floresta e a umbanda afro-brasileira. Os seres da floresta convivem nos rituais com os santos e os orixás e o resultado é uma experiência única e poderosa para quem se entrega com humildade a aprender o que a ayahuasca, preparada com o cipó jagube e as folhas da chacrona, tem a ensinar.

Folhas da chacrona

Os padrinhos e as madrinhas do Daime são pessoas simples que aprenderam a amar a Amazônia e ensinam o respeito e o amor pela floresta.

Baixo um céu azul de domingo, chegamos para uma cerimônia do Daime na igreja Buiksloterkerk, no bairro Amsterdam Noord, o jovem cientista socioambiental Markus Enk e eu. Viemos pedalando, nós dois brasileiros, aboletados na minha pequena bicicleta, da Central Station, cruzamos gratuitamente o rio IJ com o ferry boat (uma balsa que transporta pessoas e suas bicicletas e motinhas).

Markus foi quem me convidou para o ritual, ele está fazendo um trabalho para uma disciplina que ele cursa na Universidade de Leiden com o pessoal do Daime holandês. A gente se conheceu porque Markus quer aprender a falar Matis comigo. Matis é a língua do povo indígena com quem estudei, pelo qual fui adotada e que vive no Vale do Javari, no Amazonas. Markus é também amigo do jovem pajé Matis Chapu da Onça. Os Matis nos uniram e cá estamos nós na Holanda, tão longe da floresta, mas com os pensamentos e os projetos de vida entrelaçados no cipoal e no chavascal. Chegamos para a sessão e para encontrarmos os mestres espirituais da floresta. Seria a primeira vez que tomaria ayahuasca na Europa. 

O ritual de domingo (26/03) era em memória e em homenagem a Geraldine, criadora e fundadora da igreja na Holanda. Cantaremos um hinário dela e outro da Maria Rita Gregório, madrinha do Céu do Mapiá, uma vila localizada na Floresta Nacional do Purus, em Pauini, no estado do Amazonas. Deixamos os pesados casacos na entrada, colocamos as roupas brancas de quem não é fardado no daime. Entro e fico feliz em reconhecer os rostos pintados do mestre Irineu, do mestre Sebastião, da madrinha Maria Rita olhando a gente das paredes da antiga igreja protestante que agora abriga essa doutrina que veio da floresta amazônica.

Igreja Céu de Maria, na Holanda (Foto: Acervo Santo Daime)

Igreja Céu de Maria, na Holanda (Foto de arquivo: Santo Daime)

O ritual começa, muitos holandeses têm cabelos brancos, mas também há diversos jovens. Os hinos são cantados em português, mas algumas das rezas são feitas em holandês. Antes de tomar o cipó B. Caapi com a folha de P. Viridis, cantamos para o daime, a quem chamamos de professor dos professores. Uma das pessoas que se apresentou para mim antes que o ritual iniciasse é meu colega da universidade livre de Amsterdam. Cá estamos os professores universitários prontos para aprender dos mestres caboclos, para receber e dar amor.

A igreja se chama Céu de Maria, toma-se daime e, quem quiser, fuma a Santa Maria que aqui na Holanda é legal também, como o daime.  O hinário que cantamos é o “Lua Branca”. Os músicos sentam-se ao redor da mesa, tocam violino, flauta transversal, violões e os hinos vão enchendo a sala. Lembro das vezes em que tomei ayahuasca em Tabatinga (AM), São Paulo (SP), Foz do Iguaçu (PR) e em Florianópolis (SC), algumas vezes com ribeirinhos, outras com povos indígenas e outras ainda com os daimistas não-indígenas. 

Com os Marubo, participei em Atalaia do Norte (AM) e na Terra Indígena Vale do Javari em sessões que misturavam a bebida do cipó com rapé, composto de tabaco e outras plantas maceradas aspiradas por canas de osso de pássaros ou longos canos de vegetais. Aprendi de um jovem pajé Marubo que o cano de aspirar o rapé era como um estetoscópio, ele comparava antropologias para fazer a médica Deise Francisco e eu compreendermos melhor para que serve também o rapé, outra substância de diagnóstico e cura amazônica.

A Ayahuasca vem sendo experimentada em tratamentos para o combate ao alcoolismo, ao abuso de consumo de drogas e à depressão. A bebida apenas não é recomendada para quem tem histórico de distúrbios psicóticos, pois pode desencadear surtos. O uso terapêutico da Ayahuasca ganha espaço também em outros ambientes, como o sistema carcerário na Amazônia. Em Ji-Paraná (RO), presidiários participaram de sessões com o Daime como parte de seus processos de ressocialização.

Meu professor Oscar Calavia Saez escreveu que os índios foram sujeitos a muitas ações missionárias, mas as religiões ayahuasqueiras podem ser compreendidas como uma ação missionária reversa, um caminho que vai da floresta para as grandes cidades. Atualmente, há igrejas ayahuasqueiras na África do Sul, na Austrália, na Holanda e em vários outros países.

A Amazônia é um lugar onde povos de muitos cantos do mundo se encontram, alguns também se perdem nela e tantos outros morreram e, infelizmente, ainda morrem nas diversas guerras e massacres que ainda são travadas na exploração petroleira, madeireira, do narcotráfico e dos projetos estatais. Mas a ayahuasca é uma das cerimônias que reúnem diferentes povos, mulatos, negros, brancos, asiáticos e os povos indígenas originários da floresta. Os índios são exímios químicos e experimentam com a rica flora vegetal da Amazônia. Devemos a eles e aos povos ribeirinhos, gente herdeira de tradições afro-brasileiras e de um catolicismo popular devoto, a união que a ayahuasca oferece.

Em plena Amsterdam, sinto uma onda enorme de gratidão ao ver o rosto tranquilo do Mestre Irineu fitando a gente dançar e cantar a seu redor. Ele nasceu no Maranhão no final do século 19, migrou para a floresta para trabalhar nos seringais e conheceu a bebida xamãnica no Peru.

Ao centro sentado, Mestre Irineu (Foto: Acervo Santo Daime)

Ao centro, sentado, Mestre Irineu (Foto: Acervo Santo Daime)

A palavra Daime vem do canto “Dai-me Força, Dai-me Luz e Dai-me Amor”, palavras do hino que cantamos na abertura dos trabalhos. Muitos dos senhores e das senhoras que dançaram e cantaram entre as 2 horas da tarde e as 8 horas da noite na Buiksloterkerk estiveram no Céu do Mapiá, no Amazonas, quando eram jovens, há cerca de 40 anos atrás.  Uma senhora conta que esteve também com os índios Kamayurá. Os mestres caboclos estavam na cerimônia da Ayahuasca, em plena Amsterdam, perto do círculo polar ártico, nessas longínquas terras baixas. Essa é uma das Amazônias presentes na Europa contemporânea. Bem que estamos todos precisando, de um pouco mais de força, luz e amor, como Mestre Irineu ensinou.

 

 

Barbara Arisi é jornalista formada em Comunicação Social pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRS) e antropóloga com mestrado e doutorado pela Universidade Federal de Santa Catarina. Como repórter trabalhou no jornal Zero Hora. Fez estágio doutoral como antropóloga pela Universidade de Oxford, no Reino Unido. Nasceu em Porto Alegre (RS) e morou em Foz do Iguaçu (PR), Florianópolis (SC), São Paulo (SP) e Manaus (AM), Amsterdam, Maastricht e Hoorn (Holanda) e em Londres, no Reino Unido. É professora concursada pela Universidade Federal da Integração-Latino Americana, em Foz do Iguaçu (PR). É também pesquisadora visitante na Vrije Universiteit Amsterdam, onde   estuda   manejo de resíduos sólidos (plásticos e orgânicos).  Atualmente mora com a filha em Hoorn. No Brasil, trabalhou na campanha do Greenpeace Amazônia pela criação da Reserva Extrativista de Porto de Moz e da Verde para Sempre, no Pará, em 2003. Há 14 anos faz pesquisas na Terra Indígena Vale do Javari, no Amazonas, sendo que em 2006 e 2009 recebeu financiamento da Capes e do CNPq. Em 2011, produziu um diagnóstico sobre saúde no Vale do Javari para o Instituto Socioambiental (ISA) e o Centro de Trabalho Indigenista (CTI). Com a equipe de Céline Cousteau trabalha para o documentário Tribes on the Edge desde 2012. O filme deve ficar pronto em 2017.

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Comentários

  1. LAURA ENSIGN disse:

    Parabéns, Barbara Arisi!!! vou aparecer aí pra vivenciarmos juntas essa poção!!

    • Barbara disse:

      Sim, fico te esperando desde já! Aproveita para me orientar com yoga que faremos juntas na beira do lago lindo Markermeer!

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