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Ciência, área estratégica para transferência de renda

29/12/2016 12:24

RENAN ALBUQUERQUE

A nosso ver, a ciência, no interior do Estado do Amazonas, tem papel fundamental de auxiliar na transferência democrática de renda às populações. E por que falamos “democrática”? Ora, dado que existem setores de atividades produtivas que pouco atingem parcelas menos favorecidas economicamente da comunidade, no sentido da disseminação popular e direta de renda, como se dá em exemplos de financiamento para a indústria do agronegócio no bioma. Mas isso é um outro assunto.

Quando ressaltamos que a ciência tem função social de auxiliar no volume financeiro que chega aos bolsos das pessoas, em geral nossa intenção é pensar nas estratégias possíveis, em 2017, para que isso ocorra de forma melhor, considerando a conjuntura negativa que se avizinha no Novo Ano e as perdas continuadas ocorridas desde 2014.

Tecemos essa reflexão a partir de dados recém-divulgados pelo governo federal, os quais dão conta de que a quantidade de grupos de pesquisa e número de pesquisadores no Brasil, em 2016, aumentou em 11%, no comparativo a 2014, segundo informações do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Entretanto, no mesmo levantamento se mostra que o volume de verbas direcionadas para a construção da ciência (laboratório e trabalhos de campo) por parte desses grupos, em igual período, diminuiu quase pela metade, caindo de pouco mais de R$ 8 bilhões para algo em torno de R$ 4,5 bilhões.

Trocando em miúdos, importa destacar que, para a Amazônia (e a nosso ver, particularmente, para o Estado do Amazonas), a perspectiva é que se diminua, também, neste 2017, o volume transferido de renda às pessoas, por meio de bolsas e serviços contratados e/ou terceirizados da ciência. Tomemos um fator como exemplo. Em 2014 e 2015, o grupo de pesquisa que lidero na Universidade Federal do Amazonas (Ufam) conseguiu transferir, em bolsas e serviços pagos a partir de fomento, uma ordem de R$ 65 mil/ano. Em 2016, chegamos apenas a R$ 38 mil.

Apesar de ser um único exemplo destacado, a partir de diálogos que temos com demais lideranças de Grupos de Pesquisa (GP) da Ufam notamos que a situação se verifica entre colegas, o que faz crescer uma preocupação particular, pois, por estudar questões nativas do bioma, tendo a ser sempre favorável à distribuição equitativa e local de verbas oriundas do setor científico.

Além do mais, se extrapolarmos os dados ora apresentados, teremos o seguinte cenário: atualmente há cerca de 25 professores com doutorado na Ufam de Parintins (de um total de 78 docentes locais), e quase todos com GP ou coletivos laboratoriais de estudo – então imaginemos que as cifras apresentadas sejam multiplicadas por duas dezenas e meia. Pois bem, em uma conta simples, podemos mostrar que o contingente atual de transferência chegou a quase R$ 900 mil no ano de 2016. Trata-se de um montante importante dentro do contexto da realidade de uma cidade com 100 mil habitantes.

Mas em 2017 talvez, pelo que se avizinha, haja mais problemas em se conseguir manter essa mesma meta. Com o corte de verbas e a redução drástica da quantidade financeira de fomento, igualar o capital humano de bolsistas é algo complicado. Daí que teremos uma complexidade a enfrentar, a qual se entende como barreira a transpor sem que se deixe retroceder o avanço já conseguido. Nesse enfrentamento, espera-se, contudo, que planos táticos do Estado do Amazonas (leia-se da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas) possam ser observados.

Caso contrário, será mais um ano pouco efetivo para a distribuição de renda a partir da ciência. 

 

Renan Albuquerque é professor e pesquisador do colegiado de jornalismo da Universidade Federal do Amazonas (Ufam) e desenvolve estudos relacionados a conflitos e impactos socioambientais entre índios Waimiri-Atroari, Sateré-Mawé, Hixkaryana, junto a atingidos pela barragem de Balbina e com assentados da reforma agrária.

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