Política

Crise na Venezuela: população de Boa Vista pediu deportação de índios Warao em Roraima

13/06/2016 11:04

Prefeitura recuou no pagamento, em dólar, para agentes da Guarda Civil Municipal que retiraram índios das ruas.  (A fotografia acima é de Marcelo Mora/AmReal)

 

Uma reação negativa da população de Boa Vista, capital de Roraima, contra a imigração de índios Warao, inclusive nos comentários em sites de notícias, fez a prefeitura apoiar as deportações da Polícia Federal.

A Prefeitura de Boa Vista é administrada por Teresa Jucá, ex-mulher do senador Romero Jucá, ambos do PMDB. Conforme publicado no “Diário Oficial do Município”, foram designados agentes da Guarda Civil Municipal para acompanhar a deportação dos indígenas.

Em 2014 foram 28 índios Warao deportados; em 2015 outras 97 pessoas tiveram que deixar a cidade. Este ano mais 98, até o mês de abril, contabilizando um total de 223 indígenas.

“A retirada dos indígenas faz parte do atendimento da demanda da população de Boa Vista que vem sendo abordada por pedintes, indígenas estrangeiros e outras pessoas oriundas de países de fronteira que não apresentam documentação legal para permanência em solo brasileiro”, diz nota enviada à Amazônia Real pela Secretaria de Comunicação.

Inicialmente, a prefeitura determinou o pagamento de diárias, até em dólar, para que os guardas municipais apoiassem os agentes federais nas deportações em Santa Elena do Uairém, cidade venezuelana que faz fronteira com Pacaraima (RR). O “Diário Oficial” trouxe a publicação de dois atos com os pagamentos de US$ 708 (o equivalente a R$ 2.732) para sete agentes da guarda. Somadas as diárias em real, o gasto foi de R$ 3.992,00 entre os dias 24/12/2015 e 29/01/2016 para um total de 13 agentes, incluindo o superintendente da guarda.

O percurso para transportar os índios Waraos deportados é de 215 quilômetros entre as cidades de Boa Vista a Pacaraima. De lá são mais 15 quilômetros até Santa Elena do Uairén, no estado Bolívar, onde são entregues às autoridades da imigração. O trajeto é feito no máximo em duas horas e meia.

Questionada pela reportagem sobre o pagamento de diárias em dólar aos agentes da Guarda Civil Municipal, a Prefeitura de Boa Vista disse que “a remuneração é normal, mas não em dólar”. Por conta disso, o secretário de Segurança Urbana e Trânsito, Raimundo Barros, revogou o ato e determinou o pagamento de meia-diária para os agentes, e em real, “já que o deslocamento [da deportação] se faz em duas horas para ir e duas para voltar”.

 

“PF, deporta esse pessoal dos semáforos”

Indígena Warao pedindo esmolas na rua de Boa Vista (Foto: Marcelo Mora/AmReal)

Indígena Warao pedindo esmolas na rua de Boa Vista (Foto: Marcelo Mora/AmReal)

Com 320.714 habitantes, segundo estimativa do IBGE, a população de Boa Vista se incomodou com os índios Warao pedindo esmolas pelas ruas e em semáforos, ou vendendo artesanatos para sobreviver. Na página do site do jornal Folha de Boa Vista, as reações foram de preconceito e felicitações à Polícia Federal pelas deportações, mas também teve quem chamasse a atenção para o problema social. Abaixo alguns comentários, sem identificação dos autores:

X1 disse: Em 17/11/2015 às 13:00:18

“Os Warao sofrem a 300 anos, antes e depois da independência da Venezuela. É um povo pacífico, não rouba. Não criam ódio em seu coração. Artesãos, quando não tem nada a vender, pedem, ao contrário do brasileiro, que quando não tem nada para vender, rouba.

 

X2 disse: Em 17/11/2015 às 08:58:52

“Chegaram os sírios bolivarianos.” 

 

X3 disse: Em 19/12/2015 às 10:36:12

“Os índios foram deportados e outros venezuelanos que aqui se encontram vendendo bugigangas e outros pedintes não indígenas. Falta um maior controle”

 

X4 disse: Em 12/04/2016 às 18:04:58

“Tava na hora já de isso acontecer. Parabéns para a P.F”

 

X5 disse: Em 12/04/2016 às 22:51:06

“Bom trabalho PF, mas se não for pedir muito, deporta esse pessoal dos semáforos também, por favor “

 

Entrada clandestina

A Amazônia Real também apurou que a Polícia Federal recebeu ligações telefônicas de populares reclamando da presença dos índios Warao nas ruas de Boa Vista. Entre as perguntas aos agentes federais estavam as seguintes:

“Qual é a etnia desses índios que pedem esmolas nos semáforos? ”;

 “Esse pessoal é ilegal?”;

“Não é proibida a permanência desses índios no território nacional?”;

 “Existe alguma operação para retirar esses índios de Roraima?”.

Índios Warao recolhidos pela Polícia Federal em 2015 (Foto: DPF/RR)

Índios Warao recolhidos em 2015 (Foto: DPF/RR)

 

 

Em nota divulgada à imprensa de Roraima no dia 13 de abril último, o superintendente em exercício da PF no estado, delegado Alan Robson Alexandrino Ramos, explicou o motivo das deportações dos venezuelanos, sendo a maioria índios Warao.  “Os venezuelanos permaneciam no Brasil sem passagem pelo ponto regular de imigração, podendo ter ingressado de forma clandestina, em pontos de fronteira sem posto de fiscalização ou mesmo sem posse de documento de viagem. Como estrangeiro entrando no país como turista não podem exercer atividade artística, econômica e nem mendicância”, disse o delegado.

Em resposta à Amazônia Real, a Prefeitura de Boa Vista disse que a Guarda Civil Municipal apoiou a operação da Polícia Federal, já que “a permanência ilegal [de estrangeiros] no Brasil é  tratada pelo governo federal e, portanto, cabe a força policial federal as ações pertinentes”.

Com relação à questão humanitária dos índios Warao, a prefeitura informou que “deve vir precedida de acordos formais binacionais, respeitando a Constituição Federal e dando ao povo brasileiro a prioridade de atendimento. Essas ações não estão na esfera municipal e sim na federal”.

“A prefeitura esclarece que o trabalho de identificação social foi acompanhado pela Secretaria Municipal de Gestão Social, garantido os direitos as pessoas abordadas. A Prefeitura de Boa Vista reitera o compromisso social com as pessoas, mas acima de tudo no cumprimento da lei e no respeito à sociedade boa-vistense.”

 

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