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Crônica de gente pouco importante 3: Meninas sem nome na Amazônia colonial

22/12/2014 12:00

 "A encomenda especial tratava-se de uma menina índia".  (Foto: Alberto César Araújo)

“A encomenda especial tratava-se de uma menina índia”. (Foto: Alberto César Araújo)

PATRICIA SAMPAIO

 

Em 1756, Mendonça Furtado, governador do Estado do Maranhão e Grão-Pará, enviou a Portugal uma encomenda especial; tratava-se de uma menina índia, de tenra idade e muito esperta, que deveria ser entregue à Rainha como um presente. Dizia que a criança era filha de uma índia aldeada na Vila de Borba e lhe havia sido entregue pela mãe, depois que seu casamento com um soldado, morador daquela vila, tinha lhe dado muitos desgostos.

Mendonça Furtado fez questão de sublinhar o futuro feliz reservado à menina na corte porque a saída do Grão-Pará a libertaria do destino miserável e da prostituidíssima vida para a qual todas estas mulheres desgraçadas nasceram. A menina sem nome seria, na visão do governador, a única índia ditosa entre as infinitas destes sertões.

Sem quaisquer outras referências, senão esta brevíssima carta, é impossível saber o que aconteceu com aquela que deveria ser a única índia feliz da Amazônia. Este é um fragmento de uma das milhares de histórias individuais que permeiam o universo do cotidiano colonial amazônico, porém, o minúsculo espaço que iluminou abre-nos a possibilidade de procurar reconstituir certas trajetórias, em especial, os destinos possíveis das mulheres índias no mundo colonial.

As observações de Furtado fornecem as primeiras pistas ao registrar o fracasso do casamento da mãe com um soldado branco. A política de casamentos mistos foi estabelecida no Alvará Régio de 1755 e reforçada pelo Diretório Pombalino de 1757. Esta política de casamentos interétnicos, utilizada também no Estado do Brasil no mesmo período, não era um recurso novo e já tinha sido aplicada em outros lugares como as possessões portuguesas em África.

O estímulo oficial aos casamentos entre brancos e índias fazia parte do projeto colonial de portugalização da região amazônica e de transformação dos índios em vassalos reais, garantindo a posse dos territórios disputados com Espanha através de sua ocupação efetiva. Entre outros benefícios, aqueles que se casassem com índias teriam direito a uma espécie de dote: terras para cultivo, ferramentas, tecidos e os índios necessários para formação de suas roças. Em caso de soldados, também lhes era concedida a baixa das tropas. A legislação acenava ainda com a supressão da mancha de sangue sobre os descendentes mestiços qualificando-os para postos e cargos na sociedade colonial.

Os casamentos assim realizados geraram muita polêmica. Vários membros da administração colonial não pouparam críticas aos novos casais, denunciando maus tratos físicos e agressões verbais que as esposas índias sofriam de seus maridos brancos, chegando alguns ao extremo de praticarem lenocínio com suas próprias mulheres provocando grande escândalo nas vilas. É certo que os contemporâneos registram honrosas exceções, mas os desgostos da mãe da menina com seu marido branco, certamente, guardam fortes relações com essas práticas violentas mencionadas na documentação.

Um resultado inesperado dos casamentos era o fato de que os moradores brancos que deveriam ser os responsáveis pela introdução de bons costumes nas povoações, em vez de civilizarem os índios, barbarizavam-se eles próprios, adotando práticas consideradas inadequadas pela Igreja e pela administração como a bebedeira, o ócio e até a poligamia já que uma figura nada incomum entre os casados era a do cunhamena, expressão em nheengatu que designava aqueles que possuíam mais de uma esposa índia.

Entre as muitas histórias esquecidas no decorrer destes séculos de colonização, as trajetórias e experiências das mulheres índias ainda não foram recuperadas. Imersas no extenuante mundo do trabalho colonial desde os 14 anos, se cumprida fosse a legislação, essas mulheres, acima de tudo, tentaram sobreviver. Foram amas-de-leite, criadas domésticas, fiandeiras, lavadeiras, pintoras de cuias, trabalharam na lavoura, muitas vezes criaram sozinhas suas crianças vendo os maridos índios desaparecerem nas canoas do sertão, tiveram filhos arrancados pelo recrutamento forçado e suas meninas retiradas para servir em casas brancas, transformadas em dádivas de destino duvidoso. O caminho sem volta da “menina sem nome” dimensiona, de forma dramática, a profundidade da dor que vem cercando este silêncio.

 

Patricia Sampaio é professora da Universidade Federal do Amazonas (UFAM) e pesquisadora do CNPq. Fez doutorado pela Universidade Federal Fluminense (UFF/RJ). Suas áreas de pesquisa são história indígena e do indigenismo no Brasil e da escravidão africana na Amazônia. Neste espaço, Patrícia Sampaio publica uma série de histórias consideradas pouco convencionais. A proposta é recuperar a vida de personagens anônimos, pessoas comuns que, aparentemente, nada fizeram de excepcional; apenas existiram.

 

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