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Crônica de gente pouco importante VI: Alexandrina, a aprendiz de naturalista

Acampamento em Tefé por. J. Buckhardt. Acervo Iconográfico da Expedição Agassiz
22/12/2015 15:07

PATRICIA SAMPAIO 

Conheci Alexandrina por causa de D. Elizabeth Agassiz e há tempos que queria escrever sobre ela. Não fosse o fato de a moça ter servido de criada à esposa do renomado naturalista Louis Agassiz naqueles longos meses de 1865-1866, creio que teria sido bem difícil encontrá-la na documentação desta província.  Ainda assim, sabe-se pouco a seu respeito. Tenho dúvidas que não tenha sido escrava, mas, sem um sobrenome sequer para ajudar no labirinto documental, é quase impossível dizê-lo com precisão. Afinal, o que foi permitido lembrar a respeito de Alexandrina? O que o “relâmpago” de sua história permite iluminar sobre a vida das mulheres sem sobrenome do Amazonas oitocentista?

Foi em Tefé que Alexandrina foi recrutada para dividir as tarefas domésticas com Bruno, o jovem índio de rosto “profundamente tatuado de preto e o nariz e os beiços furados” que, na mesma ocasião, foi incorporado ao serviço do casal Agassiz. Ainda assim, Elizabeth dizia que Bruno tinha aparência “mais decente” que o criado anterior. Mas, o que dizer da moça?

A primeira menção que Elizabeth faz à Alexandrina em seu diário de viagem é quanto à sua aparência física que, ao que tudo indica, parecia-lhe ser suficiente para fundamentar seus juízos de valor: a “mistura de sangue índio e sangue negro” da moça fazia com que ela “prometesse muito” porque “parecia reunir a inteligência do índio à adaptabilidade maior do negro”. Porém, não foram as promissoras habilidades de Alexandrina que fizeram com que sua figura ganhasse certo destaque no relato. A razão foi outra.

O motivo que levou os membros da expedição a registrar sua figura foi a “disposição extraordinária de seus cabelos”. Elizabeth, que com ela convivia de perto, fez questão de anotar no diário: “A pobre menina faz de tudo para penteá-lo; eles ficam em pé em sua cabeça e se eriçam em todas as direções, como se estivessem eletrizados”. Não foi sem relutância que ela se deixou retratar. Foi William James que fez seu primeiro desenho.

Renderam muitos comentários posteriores os indomáveis cabelos de Alexandrina, especialmente, porque foram tomados pelo casal Agassiz como uma marca indiscutível dos efeitos que a mestiçagem provocava nos “tipos humanos”. Contudo, pouca atenção recebeu o fato de que as habilidades de Alexandrina como “aprendiz de naturalista” foram reconhecidas e registradas por Elizabeth Agassiz. Ela a chamava de “preciosa aquisição”. Afinal, não bastasse dar conta do serviço doméstico – era sua little house-maid – a moça fazia muito mais: ela aprendeu a limpar e preparar os esqueletos de peixes, tornando-se indispensável ao trabalho do improvisado laboratório da expedição. Como conhecia bem todos os caminhos da mata dos arrabaldes, também acompanhava Elizabeth nas coletas herboristas e suas habilidades para identificar espécies botânicas foram indispensáveis: “Ela distingue imediatamente as menores plantas em flor ou em fruto. Agora então que ela sabe o que eu procuro, é uma auxiliar muito eficiente”.

Retrato de Aexandrina, por W. James.

Retrato de Aexandrina, por W. James.

Graças ao precioso auxilio de Alexandrina, as coleções se avolumavam rapidamente e a tal ponto que os “artistas” não conseguiam tempo para desenhá-las na mesma velocidade. Não posso deixar de pensar em como (e sobre o quê) Alexandrina e Elizabeth conversavam durante esses períodos de estreita convivência. Ainda que não mencione, é razoável supor que falasse algo de português, mas, ainda assim, deveriam existir muitos silêncios entre elas.

Talvez tenha sido de Alexandrina a primeira imagem de uma mulher cafuza que temos, se recorremos à classificação de cor/raça do século XIX. Na verdade, hoje diríamos a primeira imagem de uma mulher negra na Província do Amazonas e foi sua indômita cabeleira que fez isso.  O que me causa incômodo que é os especialistas tenham silenciado sobre o lugar desta mulher como “aprendiz de naturalista”, denominação que lhe foi dada pela própria Elizabeth Agassiz.

É certo que ainda há muito a ser dito sobre a impressionante rede de colaboradores e parceiros locais que tornaram os trabalhos científicos possíveis. Destacam-se jovens caçadores índios, homens escravizados, um sem-número de moradores e até mesmo a participação das crianças indígenas neste processo. Na escrita contemporânea da História da Ciência, há um reconhecimento progressivo do lugar destes personagens “ajudantes de cientistas”, inclusive considerando-os como figuras decisivas na construção dos saberes sobre o Brasil. Nessa direção, tem se chamado a atenção, muito corretamente, para o lugar do “saber nativo” e sua centralidade em trabalhos que são verdadeiros “divisores de águas” como é o caso de Alfred Russell Wallace, só para dar um exemplo entre tantos. O que passou despercebido, até mesmo daqueles que destacam a importância dos “saberes nativos” na obra de Louis Agassiz foi o fato, singelo e nada desprezível, que uma de suas mais preciosas auxiliares na Amazônia era uma jovem negra habilidosa, atenta e perspicaz, uma criada que atendia pelo nome de Alexandrina. Hoje o dia é só dela.

 

* A imagem principal deste artigo mostra o acampamento em Tefé por. J. Buckhardt. Acervo Iconográfico da Expedição Agassiz.

 

Patricia Sampaio é professora da Universidade Federal do Amazonas (UFAM) e pesquisadora do CNPq. Fez doutorado pela Universidade Federal Fluminense (UFF/RJ). Suas áreas de pesquisa são história indígena e do indigenismo no Brasil e da escravidão africana na Amazônia. Neste espaço, Patrícia Sampaio publica uma série de histórias consideradas pouco convencionais. A proposta é recuperar a vida de personagens anônimos, pessoas comuns que, aparentemente, nada fizeram de excepcional; apenas existiram.

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Comentários

  1. Jéssica Dandara disse:

    Maravilhosa! Alexandrina me representa

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