Meio Ambiente

Em Porto Velho, cheia do rio Madeira é a maior em 17 anos

Nas ruas centrais de Porto Velho o acesso da população é feito de barcos (Foto: Gabriel Ivan)
17/02/2014 02:18

A enchente do rio Madeira, um dos principais tributários do rio Amazonas, em Porto Velho (RO), bateu o recorte histórico neste domingo ao alcançar o nível de 17,54m, dois centímetros a mais da marca do ano de 1997, segundo a Defesa Civil Municipal. A cheia anormal é consequência do volume de chuvas acima da média nas nascentes do rio Madeira, que ficam na Bolívia e no Peru.

Segundo a Defesa Civil do Porto Velho, a abertura das comportas das usinas hidrelétricas de Santo Antônio e Jirau tem forçado as inundações em bairros da capital localizados nas margens do rio Madeira, que sofre grande erosão (desbarrancamentos) devido a força da águas liberadas pelas represas.

A Prefeitura de Porto Velho decretou situação de emergência, que caracteriza a cheia recorde como anormal, causando danos e prejuízos que implicam no comprometimento parcial da capacidade de resposta do poder público à sociedade atingida. A decretação da calamidade pública não é descartada.

Um total de 816 famílias (ou 4.080 pessoas) desabrigadas e desalojadas já foram retiradas de suas casas e abrigadas em escolas, ginásios e residências de parentes, depois que as águas em 12 distritos e vilas do município alagaram moradias, comércios, repartições públicas e os acessos por estradas, provocando o isolamento na região do Madeira entre os limites de Porto Velho com Guajará-Mirim com Humaitá, no sul do Amazonas.

O Exército brasileiro e a Defesa Civil Nacional apoiam as operações da Prefeitura de Porto Velho na retirada de famílias em locais de risco, inclusive, com falta de energia. Os prédios dos Tribunal Regional Eleitoral, da Justiça Federal e de férias populares também foram alagados e evacuados.

O coronel José Pimentel, coordenador da Defesa Civil de Porto Velho, afirmou ao portal Amazônia Real que a prefeitura não descarta a decretação da calamidade pública do município, que tem uma população de cerca de 500 mil habitantes. É que o ápice da enchente ainda não aconteceu. Em 1997, por exemplo, o nível máximo de 17, 52 foi registrado no dia 09 de abril.

“Existe a possibilidade do nível do rio Madeira chegar, segundo os dados dos meteorologistas do Sipam (Sistema de Proteção da Amazônia), a cota de 18, 50 metros na segunda quinzena do mês de fevereiro. Consequentemente, isso vai atingir mais populações do baixo e médio Madeira. Se chegar essa cota pode ser que ocorra a decretação da calamidade pública. Eu moro aqui (em Porto Velho) há 34 anos, ainda não tinha presenciado uma enchente dessa magnitude”, afirmou o coronel José Pimentel.

O comerciante João Genil, mais conhecido como Seu Catarino, diz que enfrentou a enchente de 1997, na qual 50 mil pessoas ficaram desabrigadas. Ele lamentou viver novamente o drama do desastre natural ao ter que abandonar o trabalho na área central de Porto Velho, onde as águas inundaram lojas e casas. “É triste esse fato na história de nossa cidade. Não imaginava que eu precisaria retirar meus pertences do meu ponto comercial”, afirmou.

O comerciante João Genil deixou seu ponto comercial por causa da enchente  (Foto: Gabriel Ivan)

O comerciante João Genil deixou seu ponto comercial por causa da enchente (Foto: Gabriel Ivan)

 

Erosão nas margens do rio Madeira

O coordenador da Defesa Civil de Porto Velho disse que a enchente desse ano é também diferente das registradas em outros anos devido ao aumento da erosão nas margens do rio Madeira, o chamado desbarrancamentos. Uma quantidade imensurável de troncos de madeira de árvores, que estavam nas margens, estão sendo levados pela correnteza ao leito do rio, dificultando a navegação das embarcações. O coronel José Pimentel disse que o fenômeno não foi registrado em 1997. “O que está acontecendo de anormal é uma aceleração muito grande do processo erosivo das margens do rio Madeira. Mesmo na enchente de 1997, as margens estavam permaneceram estabilizaram”, disse.

Em consequência da forte erosão nas margens o rio Madeira, segundo o coronel José Pimentel, a Estrada de Ferro Madeira Mamoré, inaugurada em 1912, que é um Patrimônio Histórico Nacional, foi atingida pela enchente, assim como a população ribeirinha que vive naquela localidade, distante a 200 metros das margens do rio Madeira.  “As águas atingiram o pátio da estrada, o museu e a população ribeirinha. Blocos de barrancos das margens do rio Madeira estão soltando e levados pelo rio. Isso é uma grande preocupação nossa”, afirmou comandante da Defesa Civil.

Impactos de Santo Antônio e Jirau

O coronel José Pimentel disse que a elevação do nível das águas do rio Madeira na região dos bairros do Triângulo, Cai N´água, Baixo União e da Estrada de Ferro Madeira Mamoré, tem sido maior com a abertura todos os dias das comportas das usinas hidrelétricas Santo Antônio e Jirau, em Porto Velho.

No bairro do Triângulo foram desabrigadas e alojadas 180 famílias (ou 900 pessoas) por causa das inundações das comportas. “As comportas têm que ser abertas todos os dia, a água que entra tem que sair. E isso força as margens do rio. As usinas estão sendo solidárias com a Defesa Civil, mas obviamente, quando abre (as comportas), as águas vêm com tudo. No bairro do Triângulo situação é crítica”, afirmou o coronel José Pimentel.

A reportagem do Amazônia Real não conseguiu localizar representantes das empresas responsável pela operação e manutenção das usinas para falar sobre os impactos da abertura das comportas no cheia do rio Madeira. O consórcio Energia Sustentável do Brasil (Suez Energy, Eletrosul e Chest) é responsável pela hidrelétrica do Jirau e o consórcio Santo Antônio Energia (Odebrecht e Furnas) pela hidrelétrica de Santo Antônio.

Na terça-feira (11) passada, o consórcio Energia Sustentável do Brasil denunciou ao Ministério do Meio Ambiente e à Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), entre outros órgãos federais, que a hidrelétrica de Santo Antônio estava desrespeitando o limite de acúmulo de água em seu reservatório estabelecido no projeto, ultrapassado o nível de 75 metros, conforme reportagem do jornal Valor Econômico.

Ambas construídas no rio Madeira, as usinas hidrelétrica de Santo Antônio e Jirau estão entre as obras mais importantes do governo do PT para a suprir a demanda de energia elétrica do país a partir de 2013, mas suas obras foram muito criticadas pelas organizações ambientais e indigenistas devido aos impactos as populações tradicionais e indígenas.

Conforme a reportagem do Valor, a altura máxima suportada pela usina do Jirau é de 74,8 metros em relação ao reservatório da usina de Santo Antônio, que estaria operando no nível de 75 metros. O volume de água maior estaria ocasionando diversos impactos, entre eles, problemas envolvendo a transposição dos peixes até a instalação de novas turbinas em Jirau, que teve a casa de força inundada devido a pressão que recebeu das aguas do rio Madeira.

Colaboraram Francisco Costa e Gabriel Ivan (De Porto Velho)

Leia também: Usinas não provocam perigo, diz CPRM

 

 

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