Política

Grupo de nove garimpeiros está desaparecido há mais de 120 dias na floresta amazônica

24/03/2016 11:50

Sumiço de oito homens e uma mulher revelou intensa exploração ilegal de ouro dentro da Reserva Uatumã (AM). Famílias como a de Cleonice Santos procuram os parentes. (Foto: Alberto César Araújo/AmReal)

 

Tristeza, angústia, esperança. Um misto de sentimentos paira sobres as famílias de nove garimpeiros que estão desaparecidos desde o dia 8 de novembro de 2015 dentro da Reserva Biológica de Uatumã, uma unidade de conservação federal, no município de Presidente Figueiredo. Segundo a Polícia Civil do Amazonas, o grupo formado por oito homens e uma jovem entrou para garimpar ilegalmente na reserva, que fica distante a 300 quilômetros ao norte de Manaus.

A Polícia Civil fez buscas em janeiro, mas em vez de encontrar o grupo, achou uma intensa atividade ilegal de ouro e crime ambiental dentro da unidade de conservação.

Mesmo com os nove garimpeiros sumidos, o delegado Valdinei Silva, da 37ª Delegacia Interativa de Polícia Civil de Presidente Figueiredo, que comandou as investigações, já relatou o inquérito à Justiça sem uma resposta para o motivo dos desaparecimentos.

Silva diz que tinha duas suspeitas para o sumiço do grupo: crime relacionado à exploração ilegal de ouro ou um acidente. Uma terceira suspeita, um possível ataque por índios isolados, foi descartada.

O delegado Valdinei Silva disse que no momento a Polícia Civil não tem como realizar nova busca aos desaparecidos. “Temos muito trabalho na delegacia e a busca demora muito, demanda muita logística. A área a ser vasculhada é muito grande, precisamos de, no mínimo, 20 dias”, afirmou.

Com as buscas coordenadas pela Polícia Civil encerradas, as famílias continuam procurando seus parentes. A última tentativa deles de encontrar o grupo desaparecido começa nesta quinta-feira (24). Após apelos, uma equipe da Companhia Independente de Policiamento com Cães (Cipcães) da Polícia Militar irá entrar na Reserva Biológica de Uatumã com apoio de funcionários do Instituto Chico Mendes da Biodiversidade (ICMBio), gestor da unidade de conservação federal.

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É como procurar uma agulha no palheiro. A reserva tem mais de 938 mil hectares de floresta densa, com muitos cursos d´águas e a presença de animais silvestres.

O caso lembra ao do jovem Jonathan dos Santos Alves, de 18 anos, que desapareceu por 50 dias, em 2008, em uma região de floresta, mas não resistiu aos ferimentos e morreu. A família fez buscas sem o apoio das autoridades estaduais. O caso aconteceu também em Presidente Figueiredo (107 km a norte de Manaus), mas em uma região do entorno da rodovia BR-174, que liga o Amazonas a Roraima. O jovem caçava na floresta com dois amigos e se distanciou do grupo.

O tenente Paulo Sérgio Cordeiro, da Companhia Independente de Policiamento com Cães, disse que a PM está arcando com os custos das novas buscas ao grupo de garimpeiros, enquanto que o ICMBio apoia com a logística. A Cipcães é especialista em busca de perdidos na selva.

Participam da operação na reserva Uatumã oito policiais militares, oito funcionários do ICMBio e três cães, diz o tenente Cordeiro. Seis embarcações serão empregadas na ação.  O grupo deve ficar oito dias dentro da Reserva Biológica de Uatumã, segundo o militar.

A Companhia Independente de Policiamento com Cães participou da primeira busca aos garimpeiros junto a Polícia Civil e outras instituições policiais no final do ano passado. O tenente Paulo Sérgio Cordeiro disse que foi vasculhada toda a área do rio Pitinga, um braço do Uatumã.

“Subimos o rio Pitinga, passando atrás da mineração Taboca. Fomos até onde chamam de Pedrão, e não encontramos nenhum vestígio dos desaparecidos. Se andássemos mais um pouco sairíamos na BR-174”, afirmou o tenente Cordeiro.

O tenente disse à reportagem que durante a busca não viu nenhum índio na reserva. “Somos especialistas neste tipo de busca. Se houver corpo, nossos cães acham. Vamos cobrir toda a região”, garante.

O Cipcães também realizou uma segunda busca com o ICMBio há um mês. Agora a busca será realizada no sentido oposto. “Vamos passar pelo local onde fomos pela primeira vez, com a Polícia Civil, vamos subir todo o rio Pitinguinha. Vamos seguir até onde der”, disse o militar.

“Estamos indo mais uma vez porque não podemos deixar de procurar os desaparecidos. As famílias estão desesperadas, tem uma menina no grupo. Vamos ‘bater’ tudo o que estiver faltando, seguir todas as trilhas”, afirmou o tenente Paulo Sérgio Cordeiro.

 

 “Se ele está morto, que me entreguem os ossos”

Dona Cleonice dos Santos, mulher do pescador Ferreira dos Santos. (Foto: Alberto César Araújo/AmReal)

Dona Cleonice dos Santos, mulher do pescador Ferreira dos Santos. (Foto: Alberto César Araújo/AmReal)

O desaparecimento dos nove garimpeiros dentro da Reserva Biológica de Uatumã foi registrado no dia 8 de novembro de 2015 em um Boletim de Ocorrência na 37ª Delegacia Interativa de Polícia Civil de Presidente Figueiredo. De acordo com a polícia, cinco deles têm famílias em Manaus e quatro são da Comunidade Rumo Certo, distante 55 quilômetros da sede do município de Presidente Figueiredo (a 107 quilômetros de Manaus). Poucos tinham experiência em garimpo, segundo as investigações.

A delegacia repassou os nomes dos nove desaparecidos à agência Amazônia Real: José Helenilton Moura Alves, 51 anos, Afonso Pereira de Souza, 26 anos, Emerson Neves Nascimento, 19 anos, Luiz Ferreira dos Santos, 54 anos, Ivanildo Marques dos Santos, 39 anos, Lucas Santos de Souza, 18 anos, Jolar André Broch, 53 anos, João Batista Sobrinho – idade não informada – e Cristiane Batista Barbosa, 18 anos.

A reportagem conseguiu identificar três famílias do grupo desaparecido. A dona de casa Cleonice Santos é mulher do pescador Luiz Ferreira dos Santos, 54 anos, tia de Emerson Neves Nascimento, 19 anos, e tem parentesco com José Helenilton Moura Alves, 51 anos, que é casado com uma sobrinha dela.

Cleonice Santos mora no bairro Colônia Oliveira Machado, na zona sul de Manaus. Ela disse que viu o marido Luiz Ferreira dos Santos pela última vez no dia 6 de novembro de 2015. Como ele não deu mais notícias, formalizou o desaparecimento na Polícia Civil de Presidente Figueiredo.

Ela disse que José Helenilton foi que reuniu o grupo de nove pessoas para trabalhar no garimpo de ouro dentro da reserva Uatumã.  Mas, diz que não sabia que o marido iria garimpar. “Ele [Santos] saiu de casa dizendo que iria construir um barracão em Presidente Figueiredo e voltaria em oito dias”, disse.

A dona de casa acredita que seu marido esteja vivo. Mas, não descarta uma fatalidade. O casal tem quatro filhos adultos e dez netos. São casados há 35 anos. “Se ele está morto, que me entreguem os ossos. Quero me despedir dele, dar um enterro digno”, diz às lágrimas Cleonice Santos.

Com a força que ainda dispõe, Cleonice Santos sai à procura do marido. Vai à delegacia de Presidente Figueiredo, procura familiares dos outros desaparecidos. Pede dinheiro em programas de TV locais para ajudar nas buscas. Em suas andanças à procura de Luiz Ferreira Santos, conheceu a esposa de outro desaparecido, que mora na comunidade Rumo Certo. “A mulher tem oito filhos, está desesperada, sem condições de mantê-los. Também conheci outra senhora que procura o filho e a nora, a única mulher do grupo. É tudo muito triste”, disse.

 

As buscas das famílias

Documento do pescador Luiz Ferreira dos Santos, 55 anos. (Foto: Alberto César Araújo/AmReal)

Documento do pescador Luiz Ferreira dos Santos, 55 anos. (Foto: Alberto César Araújo/AmReal)

Irmão de Cleonice Santos, o aposentado Adelson dos Santos Nascimento, 63 anos, disse à Amazônia Real que realizou uma investigação paralela sobre o desaparecimento do grupo. Ele afirma que já entrou três vezes na Reserva Biológica de Uatumã, por conta própria, à procura do filho Emerson Nascimento, do cunhado Luiz Ferreira dos Santos e do genro, José Helenilton Moura Alves.

A primeira busca aconteceu no final do ano passado. Nascimento disse que passou nove dias na Reserva Biológica de Uatumã. Foi acompanhado de um garimpeiro chamado Estevam, que até pouco tempo, segundo informações da Polícia Civil, mantinha um garimpo ilegal dentro da reserva.

“Vi o garimpo que [que os desaparecidos] montaram, vi tudo o que fizeram, vi mangueiras de lavar ouro cortadas, fui até a cabeceira do rio Pintiguinha, mas não os encontrei. Fui no ‘Pintingão Velho’ [rio Pitinga] e também não vi nada”, afirmou Nascimento.

O aposentado, que já trabalhou em garimpo, diz que os desaparecidos “trabalharam muito”. “Como o rio estava seco, eles cavaram para não faltar água. Sei que estavam com ouro e vi que lavaram uma parte. A terra é rica em ouro, sei o que estou dizendo, tenho experiência em garimpo”, disse Nascimento.

Ele afirmou que quando estava deixando a reserva acompanhado de Estevam, os dois foram abordados por funcionários do Instituto Chico Mendes da Biodiversidade, que administra a gestão da Reserva Biológica de Uatumã.

“Era de noite, umas 22h30, colocaram uma arma na minha cabeça e perguntaram se eu estava garimpando. Respondi que não, que estava procurando o meu filho, então me autuaram por entrar na reserva sem autorização. Me multaram em R$ 1 mil”, contou Nascimento. “Tirei um atestado de pobreza e parcelei a dívida”, completou.

O delegado Valdinei Silva, que comanda as investigações, disse que tomou conhecimento da multa do aposentado Adelson Nascimento pelo ICMBio, mas que nenhuma das partes quis formalizar representação na delegacia.

Para o aposentado Adelson Nascimento, as buscas não podem ser encerradas até que seus familiares sejam encontrados. “Se a polícia não quer procurar, que as famílias sejam autorizadas a entrar [na reserva]. Só queremos achar nossos familiares. Vou esperar o rio encher um pouco mais para pedir a coordenação da reserva para entrar lá novamente. Temo que eles estejam mortos ou possam estar sendo escravizados por outro grupo de garimpeiros”, disse.

 

 Sem emprego, filho foi para o garimpo

Área de garimpo encontrada pela polícia na reserva Uatumã. (Foto: Divulgação PC)

Área de garimpo encontrada pela polícia na reserva Uatumã. (Foto: Divulgação PC)

Adelson Nascimento confirmou à Amazônia Real que foi o genro dele, José Helenilton Moura Alves, que falou para a família sobre a existência de ouro na Reserva Biológica de Uatumã. Disse que ele tinha experiência em garimpo e teria montado uma sociedade com outro garimpeiro da Comunidade de Rumo Certo.

“Helenilton veio de Presidente Figueiredo para Manaus já sabendo que tinha ouro [na reserva], que saia várias gramas só com o prato. Disse que ia começar a investir, me chamou para trabalhar, mas eu não quis. Falei que o garimpo é perigoso, você dorme com um olho aberto e o outro fechado”, afirmou.

O aposentando disse que seu filho Emerson Nascimento estava desempregado e pediu para ir ao garimpo. “Se eu soubesse que era clandestino [o garimpo], não teria deixado meu filho ir. Meu cunhado, Luiz Santos, que é pescador, também se ofereceu para ir”, afirmou.

O idoso diz que toda a família está abalada com o desaparecimento. “É um sofrimento enorme, toda hora que chego em casa lembro do meu filho e choro”, lamentou.

Para Nascimento, outros garimpeiros que vivem na comunidade Rumo Certo sabem o que aconteceu. “Já ouviu várias histórias, esses caras estão sabendo de tudo, mas não contam e querem que a gente deixe para lá”, disse.

 

Civil não sabe o que ocorreu com os garimpeiros

Buscas ao grupo de garimpeiros na reserva do Uatumã. (Foto: Divulgação PC)

Buscas ao grupo de garimpeiros na reserva do Uatumã. (Foto: Divulgação PC)

De acordo com o delegado Valdinei Silva, 37 anos, da 37ª Delegacia Interativa de Polícia, que encerrou as investigações do caso, as duas suspeitas para o desaparecimento das nove pessoas dentro da Reserva Biológica de Uatumã seriam crime relacionado a garimpagem ilegal de ouro ou acidente.

Segundo o delegado, a hipótese de conflito com outro grupo de garimpeiro não foi confirmada. “Como não foi encontrado nenhum vestígio de crime, não é possível concluir o caso”, disse.

Em relação às buscas, o delegado Valdinei Silva disse que liderou a primeira ação no dia 18 de janeiro deste ano, dois meses após o registro do Boletim de Ocorrência. Trinta homens, entre policiais civis, militares, guardas municipais, bombeiros e servidores da reserva ambiental passaram sete dias na região. Ele contou que o local é de difícil acesso, e a presença de cobras, jacarés e piranhas nos rios é constante. Cães farejadores também foram usados na busca.

Segundo o delegado, as nove pessoas desaparecidas entraram na reserva levados por um barqueiro da comunidade Rumo Certo. Foram deixadas no km 15, à margem do rio Pitinguinha, onde montaram o garimpo ilegal. “Eles cavaram em alguns locais e fizeram testes para achar ouro. Aparentemente o rio secou e eles foram garimpar em outro local. Subimos mais um pouco o rio, mas não encontramos nenhum vestígio deles”, afirmou o policial.

Nesse local, durante as buscas, foram encontrados alguns equipamentos, como uma máquina de lavar cascalho e mangueiras. “Também foram encontradas algumas roupas, como camisas, sandálias e peças íntimas, que foram reconhecidas por um familiar de um garimpeiro desaparecido. Havia ainda uma barraca montada, mas sem a lona. Todo o material pertencia ao grupo”, disse.

Ainda durante as buscas em janeiro, o delegado Valdinei Silva disse que, os policiais chegaram a um local conhecido como garimpo do Estevam. Lá, encontraram um outro grupo de garimpeiros dentro da Reserva Biológica de Uatumã. Esse grupo foi preso por crime ambiental, mas pagou fiança e está respondendo em liberdade. Nos depoimentos, o delegado diz que esses garimpeiros afirmam que estavam há três dias na região e não tinham qualquer relação com o grupo desaparecido.

Em outra fase dessas buscas, os policiais encontraram mais quatro garimpos dentro da reserva Uatumã, o que significa que a unidade de conservação federal está sendo constantemente invadida. “Todos passaram por uma varredura. Nenhum desses garimpos estava à margem dos rios, até porque são comumente fiscalizados. São construídos onde tem água, em braços de igarapés”, explicou.

Entretanto, Valdinei Silva observa que o garimpo do Estevam, em atividade ilegal dentro da reserva Uatumã, havia sido repassado há pouco tempo para os seis garimpeiros que foram presos.

“Existia um grupo anterior trabalhando, mas ele saiu às pressas. Não sei se com medo da fiscalização que iríamos realizar [à procura dos desaparecidos] ou se há outro motivo. Todo o equipamento que encontramos nesse garimpo foi vendido para este grupo detido. Mas ninguém abandona um garimpo assim”, observa o delegado.

O homem identificado como antigo proprietário do garimpo e que dá nome ao local, Estevam, morava em Rumo Certo, mas ele foi embora da comunidade, diz o delegado Silva, que já tentou interrogá-lo, mas não o encontrou.

No entanto, à reportagem o aposentado Adelson Nascimento disse que Estevam fez buscas aos desaparecidos junto com ele e o ICMBio abordou os dois dentro da reserva.

 

A suspeita do conflito por ouro

Conforme o delegado Valdinei Silva, após uma semana no mês de janeiro deste ano, as buscas foram interrompidas pela Polícia Civil devido à dificuldade de locomoção em uma área de floresta densa, além da seca dos rios, que atrapalhava a navegabilidade. Os barcos precisaram ser arrastados pelos policiais. “O local é de difícil sobrevivência, há muitos animais, sem falar que a maioria dos desaparecidos não tinha experiência em garimpo”, ressalta.

A Reserva Biológica do Uatumã, diz ele, já tinha sido alvo de garimpos ilegais há 20 anos. Mas no ano passado voltou a ser sofrer com a exploração de minérios, que é crime ambiental. “Ainda não está ‘estourado’, mas tem pontos na mata que estão mexidos. No entanto, reforço que é um lugar muito perigoso”, destacou.

O que se sabe, segundo o delegado Silva, é que os garimpeiros entraram na reserva, montaram equipamento e saíram de lá provavelmente para buscar ouro em outro local, já que o rio Pitinguinha, próximo ao garimpo, estava seco. “Como deixaram a máquina de lavar cascalho montada, nos dá a ideia de que iam voltar. Ela sequer chegou a ser usada”, afirma.

Polícia prendeu garimpeiros durante as buscas ao outro grupo desaparecido (Foto: Divulgação PC)

Polícia prendeu garimpeiros durante as buscas ao outro grupo desaparecido (Foto: Divulgação PC)

 

(Fotos: Dvulgação Polícia Civil)

(Fotos: Dvulgação Polícia Civil)

Grupo de buscas usou helicóptero e pessoal treinado. (Foto: Divulgação: Polícia Civil)

Grupo de buscas usou helicóptero e pessoal treinado. (Foto: Divulgação: Polícia Civil)

Os índios isolados do Uatumã

Segundo o delegado Valdinei Silva, um dos seis garimpeiros detidos durante as buscas ao grupo desaparecido disse ter visto dois índios isolados no interior da Reserva Biológica de Uatumã. Após a revelação, surgiram suspeitas de que poderia ter ocorrido um confronto entre índios e garimpeiros, mas depois foram descartadas.

“Ele [o líder dos garimpeiros, que não teve o nome revelado] estava na reserva entre novembro e início de dezembro de 2015 para fazer pesquisas de minérios. Quando subiu o rio Pitinga, acompanhado de outro garimpeiro, ele disse que viu dois indígenas à margem do rio. Pela atitude dos índios, que estavam nus e pareciam ser ‘selvagens’, na avaliação deles, tiveram medo e retornaram. Ficaram com medo do semblante deles, embora não estivessem armados”, disse o delegado, com base no depoimento do garimpeiro.

A informação, na avaliação do policial, “é, no mínimo, curiosa”. “Normalmente são os índios que nos veem, dificilmente conseguimos vê-los. Não há comprovação de que o que ele diz é verdade”, pondera.

O lugar onde os garimpeiros teriam visto os índios fica no km 32, na confluência entre os rios Pitinguinha e Pitinga, no sentido de subida do curso d’água. Eles disseram ao delegado que procuravam um lugar chamado “Ouro Forte”.

No entanto, Valdinei Silva disse que quando examinou as coordenadas geográficas repassadas pelo garimpeiro no GPS, o lugar que ele plotou como sendo “Ouro Forte” ficava no rio Pitinguinha. “O desencontro de informações, aliado a inexistência de dados oficiais sobre presença de índios na região, faz com que este depoimento fosse observado com ressalvas”, disse o delegado.

Nem os próprios funcionários da Reserva Biológica de Uatumã, diz o delegado Silva, confirmam a existência de índios na região. “São boatos, sequer há vestígios desses índios. A possibilidade de que tenha ocorrido confronto entre os índios e os garimpeiros é a última hipótese a ser trabalhada”, afirmou.

O policial descartou também que os nove garimpeiros possam ter sido detidos por índios Waimiri Atroari, povo de recente-contato cuja terra indígena fica aproximadamente a 50 km da Reserva Biológica do Uatumã. Os Waimiri Atroari têm um monitoramento diário dos limites de suas terras, com o apoio de câmeras filmadoras para impedir invasões e crimes ambientais.

O delegado Valdinei Silva disse à Amazônia Real que procurou a Associação Comunidade Indígena Waimiri Atroari (ACWA), sendo informado que os índios não viram os garimpeiros. “O que nos foi repassado é que quando os indígenas encontram alguém em suas terras, eles os entregam à polícia, já é uma prática. Sem falar que o território deles fica muito distante da reserva biológica”, disse.

O sertanista Porfírio Carvalho, coordenador do Programa Waimiri Atroari (PWA), entidade que responde pelas ações junto ao povo indígena, disse à Amazônia Real que desconhece a presença de índios isolados na Reserva Biológica de Uatumã. “Temos tido notícias sim [de índios isolados] numa região mais acima da hidrelétrica do Pitinga. Mas são notícias vagas, há mais de cinco anos”, informou.

Sobre o relato do garimpeiro, que teria visto dois índios isolados na reserva, Carvalho avaliou a informação como “muito vaga” e disse “não ter nenhuma ideia da origem desses índios”, afastando que sejam da etnia Waimiri Atroari, mas com menos contato. “Não temos nenhuma referência documental sobre eles”, acrescentou.

Conforme o sertanista, a distância entre o local onde os nove garimpeiros desapareceram e onde fica a aldeia dos Waimiri Atroari é de mais de 100 quilômetros. “Os Waimiri Atroari não tiveram notícias dos desaparecidos a não ser pela imprensa e através de alguns parentes dos desaparecidos que os procuraram”, pontuou.

No ano passado, segundo Porfírio Carvalho, os indígenas encontraram duas pessoas no território e entregaram-nas à polícia. “Mas não nesse limite leste [onde fica a reserva biológica] e sim no limite oeste”, assegurou.

 

A degradação ambiental na reserva

A Reserva Biológica do Uatumã faz parte da Bacia do Uatumã, afluente do rio Negro. Foi criada em 19 de setembro de 2002 pelo Governo Federal para preservar a fauna e flora e é administrada pelo ICMBio. A atividade de garimpo dentro de Terra Indígena e Unidade de Conservação (UC) é ilegal, segundo a legislação brasileira. Em Reserva Biológica, a visitação pública é proibida. O ingresso ocorre somente por autorização do gestor responsável. No caso, o ICMBio.

Segundo o Serviço Geológico do Brasil (CPRM), na região do Uatumã há minérios como cassiterita e tantalita, além de outros bens minerais. A mina do Pitinga, que fica nas imediações, é a maior mina de cassiterita a céu aberto do mundo.

De acordo com o Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM), não há existência autorizada pelo órgão de garimpo na Reserva Biológica de Uatumã.

A reportagem procurou o Instituto Chico Mendes da Biodiversidade (ICMBio) para saber o que tem sido feito para impedir o garimpo ilegal na Reserva Biológica de Uatumã, mas a instituição não se pronunciou até a publicação desta reportagem.

Amazônia Real procurou a Polícia Federal, que é a responsável por investigar garimpos ilegais dentro de unidades de conservação federais. Segundo a assessoria de imprensa, será realizado um levantamento sobre eventuais registros de garimpagem na região e após a conclusão deste será comunicado seu teor à imprensa.

Crime ambiental provocado pelos garimpeiros na reserva Uatumã. (Fotos: Divulgação Polícia Civil)

Crime ambiental provocado pelos garimpeiros na reserva Uatumã. (Fotos: Divulgação Polícia Civil)

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Comentários

  1. Bruno disse:

    Alguma noticia mais sobre o desaparecidos??

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