Cultura

Índios e quilombolas da Amazônia contam suas histórias no novo Google Earth

25/07/2017 21:06

Com ajuda da tecnologia e da internet, os povos indígenas e quilombolas da Amazônia querem contar suas experiências de resistência e luta e denunciar as ameaças contra os seus territórios tradicionais. Isso passou a ser possível com o novo Google Earth lançado em 11 de julho, e que permite uma viagem virtual em 360 graus por 580 territórios tradicionais no Brasil. A ferramenta de mapas e imagens de satélite, chamada “Eu sou Amazônia”, foi elaborada com o apoio do Instituto Socioambiental (ISA) e da Associação de Remanescentes Quilombolas de Oriximiná (PA). O usuário da ferramenta tem acesso aos 11 vídeos com as vivências das populações tradicionais neste endereço.  

As narrativas da ferramenta do Google Earth são divididas em tópicos. É o caso do “Eu Sou Resistência”, que conta a história dos índios Tembé, cujo território fica nos municípios de Paragominas e Santa Luzia, no Pará. Veja o vídeo abaixo.

 

A liderança Valdeci Tembé, coordenador da Associação Força Sempre, conta que a parceria com o Google vai ajudar no monitoramento e na identificação de áreas ameaçadas de seu povo. Segundo Valdeci, a ferramenta virtual vai divulgar a realidade de seu território.

“Esperamos que ajude no monitoramento das ameaças, que são extração ilegal de madeira e expansão da atividade produtiva por colonos que não pertencem à comunidade indígena”, disse a liderança à Amazônia Real. A população de índios Tembé é de 4.500 pessoas, morando em 38 aldeias, segundo Valdeci Tembé.

Das 11 histórias em vídeos interativos apresentadas pelo Google Earth, nove foram dirigidas pelo cineasta Fernando Meireles. O enfoque dos vídeos é a educação, cultura, água, alimentação, identidade, desafios e ameaças. Todos os vídeos estão disponíveis no Youtube

Outra história que traz o Google Earth é do povo Cinta Larga, que habita os estados de Rondônia e Mato Grosso, com uma população de duas mil pessoas. Através do tema “Eu sou Conhecimento”, os Cinta Larga relatam a luta para fortalecer sua cultura e contra as ameaças externas.

Elizabeth Cinta Larga, coordenadora da Associação do Povo Cinta Larga de Rondônia, espera que a tecnologia ajude a divulgar a história da etnia. “Estamos falando de nossa cultura, dos planos para a educação, de nossos projetos sustentáveis, mas também queremos mostrar que temos ameaças. O território Cinta Larga tem muito minério e isso vem trazendo muitos problemas para nosso povo, com divisão, conflitos e brigas internas, infelizmente. Queremos mostrar que temos que estar unidos”, disse Elizabeth.

 

Líder Suruí iniciou parceria

LANÇAMENTO DA PLATAFORMA EU SOU AMAZÔNIA DO GOOGLE. (Foto Luciana Aith/Divulgação Google)

Almir Suruí no lançamento do Google Earth (Foto Luciana Aith/Divulgação Google)

 

O início da parceria do Google com as populações amazônicas aconteceu em julho de 2007, quando o líder Almir Narayamoga Suruí teve a iniciativa de procurar a gigante da internet para contar a história de seu povo. Os índios Suruí Paiter habitam no estado de Rondônia e formam uma população de 1.500 pessoas. As maiores ameaças são desmatamento, invasão por parte de madeireiros e extração ilegal de ouro e diamante.

 

“Queria mostrar as terras indígenas ao Google. Mostrar o potencial, a cultura, as dificuldades e o papel dos indígenas na luta pela floresta e de como isto contribui para o bem comum de todos”, lembra Almir.

 

Para o líder dos Suruí Paiter, seu povo percebeu que havia muita falta de informação e que era preciso divulgar informações sobre os indígenas para o maior número de pessoas no Brasil e no mundo.

Em 10 anos, o povo Suruí Paiter conseguiu desenvolver um sistema de monitoramento produzido pelos próprios indígenas, a maioria jovens, que usa a tecnologia para gerar informações.

“Não temos poder de polícia. Nosso papel é criar informações e subsidiar os responsáveis por combater invasão e proteger terra indígena. Algumas operações da Polícia Federal e de outros órgãos que fizeram vigilância dentro do território Suruí utilizaram nossas informações. O governo não pode dizer que não tem informações. Pelo menos na Terra Indígena Suruí”, diz Almir Suruí.

Ele também aponta a relevância do registro através da tecnologia da história dos indígenas para as próximas gerações. “A gente vai guardando algumas histórias, alguns ritos, para que daqui a 100 anos, 50 anos, as nossas gerações tenham acesso. A cultura não é algo que fica parado, avança”.

Conforme a liderança, os Suruí Paiter estão em fase de avaliação da parceria com o Google para identificar se estão no caminho certo ou se é necessário revisar algumas ações. “Estão em um momento de reflexão. É importante isso. Saber que benefícios coletivos estamos tendo”, afirmou.

 

Acesso à informação

A diretora do Google Earth, Rebecca Moore, falou durante o lançamento da ferramenta “Eu Sou Amazônia” e destacou a necessidade do “compartilhamento de experiências”. Ela lembrou de seu primeiro contato com Almir Suruí, quando o líder indígena procurou o Google.

“Eles [Suruí] começaram a ter problemas com madeireiros e garimpo. A cultura deles estava sendo ameaçada. Mas eles não tinham condição de tornar público [esses problemas]. O Almir então nos convenceu que fizéssemos treinamentos com eles. Com isso, aprenderam a usar dispositivos androides e identificar invasões através de GPS. Os índios estão arriscando suas próprias vidas para proteger a floresta”, afirmou Rebecca Moore.

Após uma década de trabalho com os Suruí, ela destacou a expansão da ferramenta para outras áreas da Amazônia, incluindo também o território quilombola da região do rio Trombetas, no Pará.

“Estamos preocupados na democratização do acesso às informações. Vemos isso como uma questão educativa”, disse Rebecca Moore.

 

Veja vídeo dos quilombolas

 

 

Impacto social na Amazônia

Além do projeto Google Earth voltado à Amazônia, a empresa de tecnologia desenvolve, desde 2014, o projeto para empreendedores brasileiros Desafio de Impacto Social. O objetivo do Google é fomentar o uso criativo da tecnologia para promover impacto social. Várias organizações ligadas às questões da região amazônica já foram vencedores do Desafio. Em 2016, o projeto Alerta Clima Indígena, do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam) ficou entre os ganhadores do prêmio de R$ 1,5 milhão. Segundo o Ipam, o projeto é uma ferramenta ligada ao SOMAI – Sistema de Observação e Monitoramento da Amazônia Indígena (www.somai.org), uma plataforma on-line que dispõe das informações mais atuais sobre a situação das mais de 380 terras indígenas da região, a área conservada de floresta e as ameaças que sofrem, como desmatamento e variações climáticas.

 

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