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Os Wai-Wai e suas conexões com o evangelismo: Parte 3 – Das mortes da alma

26/04/2017 13:40

Os Wai-Wai, povos pré-Conquista, visceralmente anímicos, parecem aceitar a morte não como um fardo a ser ancorado na psique dos vivos e que os vêm atormentar em noites de angústia. A alma, para eles, ao retornar à terra, de onde partiu essencialmente no início dos tempos, pode lhes visitar em forma de vento, de pedra, de planta ou de bicho. É igualmente um duplo que se manifesta, que dialoga ao modo espiritual e se relaciona com os humanos. Essa é uma perspectiva, um ponto de vista cosmológico, que busca nas numerações e simbologias extraterrenas desses ameríndios da Amazônia Central explicações míticas para fenômenos e fatos da realidade presente.

A característica marcante dos Wai-Wai, a meu ver, concernente às partidas a outros planos de reconhecimento (como eles significam suas mortes – com descensão à terra e não ascensão ao céu), é a aceitação plena do fim em si, físico, corporal, mas não do poder do fim estabelecido ele mesmo e ele só, tal e qual quando se está em uma eterna caminhada, dia após dia, a um cadafalso, carregando-se o esquife da pessoa que se foi. Não só na etnologia brasileira, mas na literatura universal percebemos o disposto. Exemplo disso está na sequência.

Pablo Neruda escrevia os versos mais tristes do mundo, Pedro Juan Gutiérrez transava, Jack Kerouac bebia e dirigia motos. Dostoiévski se punia em um subsolo, Franz Kafka em uma colônia penal. Paul Verlaine morria de amores na prisão por Rimbaud e Jorge Tuffic enxergava as noites voarem. Todos, a seus termos, na Espanha, em Cuba, nos EUA, na Rússia, na Alemanha, França e Brasil, expressaram em registros escritos as dores da alma e das mortes que carregavam em suas costas. Além deles, Hilda Hilst, Maria Clara Machado, Jane Austen, Clarah Averbuck, Virgínia Wolf, Adélia Prado e Clarice Lispector (para citar algumas das que mais gosto e que lembro agora!) leram como nenhum homem leu as vicissitudes do substrato relacional e apocalíptico das coisas pontiagudas que nos ferem.    

Os Wai-Wai, diferentemente, por um ângulo de parentesco e consanguinidade, mas não sem dialogar com os(as) destacados(as) escritores(as), não admitem manter monopólios das dores e as sublimam conforme fazem registros orais e oníricos de seus sentimentos, os quais são tão complexos quanto qualquer equação responsiva que almeje descrever o movimento incerto do sopro primordial da vida no universo. Ou seja, é a vida que traduz a arte ou o inverso?

Realmente, essa dinâmica de reatar laços com o eu e o outro por meio de percepções sobre a realidade circundante amazônica, via imaginário e simbólico, tende a ter sido uma inteligente e elegante maneira ancestral dos Wai-Wai para poderem viver seus lutos e se sobreporem a eles. E acerca desse aspecto tentei me debruçar ultimamente, refletindo em torno do que a doutrina Batista e os evangelismos dispostos segundo ela indicam, sobretudo os atos de contato e disseminação cristã em aldeamentos Wai-Wai no bioma, para lá da TI Nhamundá-Mapuera, divisa do Estado do Amazonas com o Pará (como tratamos nos textos Parte 1 e Parte 2).

A meu entender, em Lucas 8:40-56 [1], notamos uma interessante ressalva do que se apoia a Igreja Cristã (ou parte dela na Amazônia) para realizar evangelizações em territórios indígenas, muitas vezes de forma controversa ou ambígua, ao incentivar dispersões de saberes e fazeres nativos, primevos. Todavia, muitas vezes também, a doutrina funciona de maneira associativa e em certa monta positiva, como exemplo assertivo para que sociedades pré-colombianas retomem linhas de enfrentamento ante agressões territoriais e políticas de brancos. Lucas nos ajuda a compreender o que tentei sugerir. Senão, vejamos.

“Quando chegaram à casa de Jairo, uma multidão chorava e lamentava a morte da criança. Jesus não se deu por vencido e afirmou que a criança não estava morta, mas apenas ‘dormindo’. Ele não negou a realidade da morte, mas sim a permanência do poder da morte”. Ora, se para os Wai-Wai o luto vivido é aquele que sabiamente não se quer carregar, não se quer vê-lo permanecido como um tijolo eterno sobre as costas, então notamos similaridade de proto-entendimentos entre o pensamento selvagem e o pensamento judaico-cristão ocidental. Sabe-se da morte, mas não se quer saber sobre a permanência dela. Entende-se a partida, mas a força que ela poderia ter de destruição sobre os que ficam é negada.

Evidente que retiramos um trecho mínimo de uma totalidade de quatro Evangelhos, mas a nosso ver o conteúdo intrínseco e subliminar implicado por engendramento nas escrituras se projeta a ser um suposto ponto de partida para demais elucubrações que possam surgir daqui para a frente nesta série — a qual teria 3 partes, inicialmente, mas vejo que merece haver outros aprofundamentos investigativos, de igual linhagem etno-hermenêutica, como ensaiei dispor neste artigo sobre as mortes da alma.

Acredito que o tema possa ser reaquecido na Parte 4. Quando se tentará avaliar um segundo trecho de Evangelho, muito possivelmente Mateus 15:1-20. 

 

[1] O texto de Lucas integra os Evangelhos Bíblicos, que ao todo são quatro, contando-se com João, Marcos e Matheus.

 

Renan Albuquerque é professor e pesquisador do colegiado de jornalismo da Universidade Federal do Amazonas (Ufam) e desenvolve estudos relacionados a conflitos e impactos socioambientais entre índios Waimiri-Atroari, Sateré-Mawé, Hixkaryana, junto a atingidos pela barragem de Balbina e com assentados da reforma agrária.

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