Cultura

Peixe era o principal alimento dos povos pré-colombianos da Amazônia

Foto: arquivo pessoal de Gabriela Prestes-Carneiro.
25/10/2016 16:42

É o que diz um estudo sobre o sítio arqueológico Hatahara, em Iranduba (AM). Apenas 4% da dieta era de animais mamíferos. Na fotografia está a autora da pesquisa, arqueóloga Gabriela Prestes Carneiro (Foto arquivo pessoal da pesquisadora)

 

Claire Salisbury, do site Mongabay

Traduzido por Isabel Maria Duarte Rosa

 

Descobrir a história da ocupação humana na Amazônia Central é um desafio. O clima tropical úmido e a paisagem florestal dinâmica, onde os materiais orgânicos se deterioram rapidamente, pode ser um inimigo de vestígios arqueológicos. Mas os investigadores têm persistido e ao longo das últimas duas décadas reuniram-se evidências que podem destruir a teoria comumente considerada de que a antiga Amazônia foi pouco povoada, e em grande parte “intocada”.

A arqueologia moderna parece pintar um retrato de uma paisagem muito mais densamente povoada e altamente manipulada, ocupada por uma variedade de comunidades pré-colombianas.

Um estudo recente revelou as primeiras evidências “zooarqueológicas” – ossos de animais que indicam hábitos alimentares – no sítio pré-histórico Hatahara, um povoamento em Iranduba, perto da confluência dos rios Solimões e Negro, a 25 quilômetros de Manaus, no Amazonas.

Hatahara remonta ainda mais ao passado, mas durante este período de tempo o povoamento expandiu-se até cobrir cerca de 20 hectares, e os seus residentes produziram cerâmica, cultivaram culturas, e modificaram a cobertura vegetal de forma tão extensa que este estudo sugere uma “transformação intensa da paisagem relacionada com o crescimento da população”, como afirmam os investigadores.

Gabriela trabalhando no sítio Hatahara, em Iraduba (Foto: Val Moraes/Mongabay)

Gabriela trabalhando no sítio Hatahara, em Iranduba (Foto cedida por Val Moraes/Mongabay)

Mas o que é que eles comiam? Depois de peneirar 300 litros (79,3 galões) de sedimentos escavados, desde 4,5 a 9 pés debaixo de um monte artificial, numa parte funerária do povoamento, os investigadores descobriram uma resposta surpreendente: peixes.

“Quando eu comecei este estudo em Hatahara, eu esperava encontrar [evidência do consumo de] mamíferos atualmente caçados na Amazônia, tais como macacos, queixadas, paca, etc.”, afirmou à Mongabay, Gabriela Prestes-Carneiro, que conduziu o estudo.

 

Ela explica que os mamíferos eram normalmente também uma parte importante das dietas de subsistência dos povos americanos e europeus pré-históricos. “[Para] minha surpresa, mamíferos correspondiam apenas a 4 por cento dos restos mortais, enquanto peixes e répteis correspondiam aos restantes 96 por cento.”

Mas não foi apenas a quantidade de peixes – 76% dos restos mortais – que foi uma revelação; 37 taxas de peixes foram identificados nas amostras, indicando que as pessoas daquela época foram “explorar um espectro muito mais diversificada [de espécies] do que fazemos agora”, disse Prestes-Carneiro, do Museu de História Natural de Paris. As espécies mais comuns encontradas foi pirarucu; tambaqui, piranha e cobra-d´água (enguias do pântano).

Pescar tantas espécies regularmente exigiria um conhecimento claro e profundo ao longo alcance do habitat dos peixes, comportamento, predação e migração específica para cada espécie. Hoje, por exemplo, pirarucus são capturados principalmente quando eles estão restritos a lagos durante a estação seca, quando sobem à superfície para respirar ar. Isto levou Prestes-Carneiro a suspeitar que o povo de Hatahara sabia mais sobre os peixes que nós, como cientistas, sabemos agora.

Sítio Hatahara em Iranduba, no Amazonas (Foto: Val Moraes/Mongabay)

Sítio Hatahara em Iranduba, no Amazonas (Foto cedida por Val Moraes/Mongabay)

Para o estudo de Hatahara foram peneirados 300 litros de sedimentos da Amazônia, e recuperados os restos mortais de 37 taxas de peixes diferentes.

Podocnemis, um género de tartaruga de rio, dominou as amostras de répteis encontrados; animais deste gênero podem pesar até 90 kg. Um pequeno mistério: apesar da diversidade de taxa de tartarugas na região, as outras tartarugas não parecem ter sido caçadas. Além do mais, os restos de todos os indivíduos variaram entre 30 a 70 centímetros, o que sugere que não só a população de Hatahara preferia este grande gênero sobre os outros, mas que os juvenis e muito grandes indivíduos foram preferencialmente evitados. Evidências encontradas num povoamento localizado a 15 km (9,3 milhas) de Hatahara indica que as tartarugas podem ter sido mantidas em currais.

O contraste entre os padrões atuais de pesca na Amazônia, que tendem a favorecer menos espécies, e os de centenas de anos atrás, que tendiam a ser mais diversificados, é esclarecedor, diz Prestes-Carneiro. Uma das motivações para a realização do estudo é o atual debate sobre o uso sustentável dos recursos no passado, em comparação com o presente.

A forma como pescava o povo de Hatahara era sustentável? “Provavelmente sim”, disse Prestes-Carneiro. “Os pescadores de Hatahara foram capazes de adaptar as estratégias de pesca para diferentes [locais] e restrições climáticas. Além disso, não se pode subestimar a ingestão de proteínas de plantas na [dieta] tais como grãos que foram exploradas pelos habitantes de Hatahara”.

Alguns peixes de Hatahara, como pirarucu e bagres, ainda são consumidos pelas comunidades ribeirinhas atuais. No entanto, há uma diferença potencialmente importante entre então e agora: os ossos de pirarucu recuperados pelo estudo sugerem que os peixes apanhados pelo povo de Hatahara pesavam entre 5 e 100 quilogramas.

Tais indivíduos grandes são raros hoje em dia; a espécie de pirarucu está listada como “Dados Insuficientes” pela IUCN, e Prestes-Carneiro acha que a espécie pode mesmo estar em risco de extinção global. A diminuição em tamanho e abundância da espécie indica que “em algum momento estes peixes começaram a ser sobrepescados”, disse ela. “Seria interessante investigar quando e como é que tal ocorreu”.

A preferência alimentar por peixes em vez de mamíferos pode ser interpretada de várias maneiras: tinham os mamíferos sido sobrecaçados nesta parte da Amazônia entre os anos de 750 a 1.230? Ou havia uma razão cultural para evitar espécies de mamíferos? “Nós ainda não sabemos”, admitiu Prestes-Carneiro. Mas parece certo que a proteína era abundante para o povo de Hatahara. “Nós temos que [abandonar] a ideia de que as pessoas lutavam contra a fome na Amazônia. Eles provavelmente tinham, na sua maioria, a opção de selecionar o que queriam comer”.

 Escavações no sítio pré-histórico Hatahara revelaram uma grande diversidade de ossos de peixes. (Foto: Val Moraes/Mongabay)

Essa fotografia foi tirada no Monte Castelo, na Amazônia. (Foto cedida por Eduardo Góes Neves/Mongabay)

Compreender a dimensão da pesca através das comunidades amazônicas antigas, e seu potencial para a manutenção de povoamentos a longo prazo, vai exigir muito mais investigação, Prestes-Carneiro disse, advertindo contra a extrapolação do seu novo estudo. “Seria muito importante expandir os estudos Zooarqueológicos a diferentes ambientes, tais como povoamentos do interior, das áreas de interfluviais e das zonas húmidas, a fim de construir uma compreensão regional e de longo prazo dos recursos animais e da sua relação com os povoamentos humanos.”

Prestes-Carneiro também pensa que a combinação de investigação arqueológica com estudos contemporâneos pode ser proveitosa: “Eu acho que, como os arqueólogos, devemos trabalhar mais na comparação da evidência arqueológica com o conhecimento tradicional / indígena a fim de compreender ambientes como a gestão humana e a sua forma ao longo do tempo” disse ela.

A arqueóloga Gabriela Prestes Carneiro (Foto arquivo/Mongabay)

A arqueóloga Gabriela Prestes Carneiro (Foto arquivo pessoal /Mongabay)

 

 

 

 

Citação:

Prestes-Carneiro, G., Béarez, P., Bailon, S., Py-Daniel A.R., and Neves E.G. (2015) Subsistence fishery at Hatahara (750–1230 CE), a pre-Columbian central Amazonian village. Journal of Archaeological Science: Reports. In press: doi:10.1016/j.jasrep.2015.10.033

Este artigo foi publicado originalmente no site internacional Mongabay.

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