Povos Indígenas

Povos do Alto Rio Negro criam o Bahserikowi´i, o primeiro Centro de Medicina Indígena da Amazônia

João Paulo Barreto, Ivan Barreto e o Kumu Duhpó Manoel Lima
(Foto: Alberto César Araújo/Amazônia Real)
05/06/2017 10:49

No espaço o Kumu ou Kumuã (no plural), também chamados de pajés, que são os especialistas indígenas, irão atender o público para Bahsese (benzimentos). Foto de Alberto César Araújo/Amazônia Real.

 

Na medicina dos povos indígenas do Alto Rio Negro, no extremo norte do Amazonas, os poderes estão com os Kumuã, especialistas que dominam o conhecimento de Bahsese (“benzimento”, na língua Tukano) para tratamento e cura de enfermidades a partir dos princípios contidos na flora e na fauna e do Wetidarese (proteção) para afastar agressões pessoais de diferentes naturezas.

Dois destes Kumuã são Manoel Lima, da etnia Tuyuka, e Ovídio Barreto, Tukano. A partir das 9h desta terça-feira (06) eles vão atender a população indígena e não-indígena no Bahserikowi´i Centro de Medicina Indígena da Amazônia, que será inaugurado no endereço da Rua Bernardo Ramos, no. 97, no centro de Manaus.

O prédio onde vai funcionar o centro pertence à Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab) e foi cedido para o projeto Bahserikowi´i

“O objetivo deste espaço é formar uma política diferenciada de saúde a partir de nosso conhecimento indígena e dar uma opção natural de tratamento de saúde e contrapor a dependência química”, diz João Paulo Barreto, da etnia Tukano, idealizador e coordenador do Bahserikowi´i

Barreto, que é doutorando em Antropologia pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM), diz que no espaço inédito na região amazônica (e provavelmente no país) serão desenvolvidos vários projetos: Medicina Indígena, Amazônia Originários, Programa de Cursos de Línguas Indígenas e Cosmologias Indígenas e Saúde.

No decorrer do projeto haverá também cursos, oficinas e palestras em parceria com o Núcleo de Estudo da Amazônia Indígena (NEAI) da Universidade Federal do Amazonas.

O projeto Amazônia Originários vai envolver atividades como venda de artesanato e arte indígena, além de cursos de culinária.

Bahserikowi´i  – Centro de Medicina Indígena da Amazônia contará com três salas para o atendimento do doatigʉ (doente). Haverá diagnóstico e prescrição. O ambiente reproduzirá a arquitetura indígena, com bancos de madeira e palhas. Será instalado um redário para o paciente descansar, se precisar. “O espaço seguirá como são nossos costumes indígenas”, diz Barreto.

O agendamento das consultas já poderá ser marcado. A primeira consulta custará R$ 10, mas o valor do tratamento será definido conforme a complexidade da doença. Dependendo da necessidade, o Kumu (Kumuã no singular) também poderá fazer atendimento no domicílio do doente.

João Paulo Barreto diz que o conhecimento indígena não consiste em levar o paciente a abandonar a medicina ocidental, mas é um modo de indicar outras possibilidades de tratamento e de acelerar a cura de quem está em recuperação de uma enfermidade. O Kumu Duhpó Manoel Lima, de 85 anos, por exemplo, é especialista em tratamento de pós-operatórios e doenças uterinas.

“O tratamento contra essas doenças é através do Bahsese, conhecido no senso comum como benzimento. Mas a complexidade da palavra é maior. Na realidade, no Bahsese o Kumu está se comunicando e dialogando com estes humanos invisíveis, os Waimahsã, e invocando os princípios curativos metaquímicos da natureza”, explica João Paulo Barreto.

Embora o Bahserikowi´i – Centro de Medicina Indígena da Amazônia seja um projeto idealizado por João Paulo Barreto, sua construção é um trabalho conjunto com outros indígenas, entre eles Bonifácio José e Mônica, ambos da etnia Baniwa, Cleofa Barreto e Ivan Barreto, também Tukano, além de amigos, professores e colegas do curso de mestrado e doutorado em Antropologia da Universidade Federal do Amazonas (UFAM), indígenas e não-indígenas.

Na academia, a principal parceria é com o Núcleo de Estudos da Amazônia Indígena (NEAI), no qual João Paulo Barreto é pesquisador, junto com outros mestrandos e doutorandos indígenas.

 

Medicina ocidental e tradicional

Kumu Duhpó Manoel Lima, da etnia Tuyuka, do Alto Rio Negro (Foto: Alberto César Araújo/Amazônia Real)

Kumu Duhpó Manoel Lima, da etnia Tuyuka, do Alto Rio Negro (Foto: Alberto César Araújo/Amazônia Real)

O antropólogo João Paulo Barreto conta que a ideia de construir o Bahserikowi´i – Centro de Medicina Indígena da Amazônia, no qual os especialistas indígenas (também conhecidos como pajés, na língua ocidental) possam receber e atender os doentes, surgiu devido o desinteresse do Estado brasileiro em conjugar a medicina ocidental com o conhecimento indígena no tratamento de doenças nas unidades de saúde.

Barreto tentou, nos últimos anos, desenvolver parcerias, mas não foram adiante. Em 2016, Ovídio Barreto, que é Kumu e pai de João Paulo, atuou como voluntário durante três meses no tratamento de indígenas no Hospital de Medicina Tropical, em Manaus.

“O Estado não conhece o sistema de conhecimento indígena. É um sistema complexo. Quando entrei na antropologia para compreender melhor, amadureci minha ideia. Tive uma compreensão mais completa do nosso conhecimento, dos conceitos, das categorias, das concepções de doença, do que é bem estar e do que é bem viver. E isto, para nós indígenas, engloba vários aspectos”, explica.

No conhecimento dos povos do Alto Rio Negro, em particular os Tukano, as enfermidades têm diferentes origens. Algumas delas são resultados da ação de Waimahsã, humanos invisíveis que habitam os domínios aquáticos, aéreo, terrestre e da floresta e com o qual é preciso estar sempre dialogando, negociando e se protegendo. O Bahsese é a base do tratamento, a partir do conhecimento que o Kumu possui desde a infância, quando recebe o poder de seus pais, tios e avós.

“O Kumu já tem o manual e as fórmulas do Bahsese. Domina os conceitos fundamentais e a origem das doenças. Sabe quando e como a pessoa foi atacada pelo Waimahsã. Muitas vezes dá dores musculares, dores na coluna e dores de cabeça”, explica Barreto.

Ele conta que as doenças também estão na alimentação sem assepsia correta e no excesso de gordura, na contaminação de frutos por insetos, nas doenças auto provocativas e nas agressões interpessoais.

Conforme João Paulo, o tratamento praticado pelo Kumu, ao contrário do que se imagina, não tem relação com o sobrenatural, mas na capacidade do especialista em conhecer os princípios do Waimahsã.

“Existem vários Kumuã atuando na cidade de Manaus, mas são pouco falados ou destacados na mídia ou mesmo pela política pública. Exercem seus ofícios à margem da política pública de saúde, atendendo o mesmo público de pacientes que muitas vezes vão aos hospitais”, diz Barreto.

Em entrevista à Amazônia Real, Manoel Lima, da etnia Tuyuka, contou que recebeu o poder de Kumu já no nascimento pelos pais, tios e avós. Seu nome em Tukano é Duhpó (sem tradução para o português).

Falando na sua língua materna, traduzida por Barreto (seu sobrinho), ele conta que desde a infância passou por diferentes etapas de uma rigorosa formação para se tornar especialista indígena. As fases duraram vários anos, até ele ser considerado um Kumu.

 

Caso de sobrinha influenciou em decisão

João Paulo Barreto e Kumu Duhpó Manoel Lima (Foto: Alberto César Araújo/Amazônia Real)

João Paulo Barreto e Kumu Duhpó Manoel Lima (Foto: Alberto César Araújo/Amazônia Real)

Bahserikowi´i – Centro de Medicina Indígena da Amazônia – Centro de Medicina Indígena é resultado de um longo processo de construção de quase dez anos, a partir de um episódio que abalou a família de João Paulo Barreto e que teve repercussão nacional.

Em 2009, a sobrinha de João Paulo, Luciane Trurril Barreto, na época com 12 anos, teve sua perna direita picada por cobra jararaca, na comunidade São Domingos, em São Gabriel da Cachoeira. Ela foi levada até a sede do município e depois transferida para Manaus, para seguir com o tratamento. No Hospital João Lúcio, os médicos decidiram amputar sua perna, mas seus familiares impediram alegando que não era necessário, bastando fazer o tratamento, desde que acompanhado da medicina tradicional indígena para ajudar na cura (o que foi negado pela direção do hospital).

Contrariando a decisão médica, os familiares retiraram a menina do hospital e a levaram para uma casa de saúde, onde recebeu atendimento dos Kumuã. O caso foi parar no Ministério Público Federal, que recomendou que o João Lúcio aceitasse o tratamento conjunto, que não foi aceito pelo hospital.

Dias depois, a menina foi transferida para o Hospital Universitário Getúlio Vargas, onde a direção da unidade descartou a amputação. Também autorizou que ela recebesse tratamento indígena junto com a medicina ocidental. A previsão era de que Luciane ficaria curada em seis meses. No entanto, ela teve alta em um mês, surpreendendo os médicos do hospital. João Paulo Barreto afirma que a rapidez do tratamento ocorreu por causa das duas formas de atendimento dadas à sobrinha. Atualmente, Luciane mora em sua comunidade, São Domingos, no rio Tiquié, afluente do rio Negro.

São Gabriel da Cachoeira é o município com maior diversidade indígena do País. São 23 etnias diferentes. O município tem três línguas co-oficiais, junto com o português: Tukano, Baniwa e Nheengatu.

Kumu Dophó Manoel Lima atende visitante no Centro de Medicina Indígena (Foto: Alberto César Araújo/Amazônia Real)

Kumu Dophó Manoel Lima atende visitante no Centro de Medicina Indígena (Foto: Alberto César Araújo/Amazônia Real)

 

O que é:

BAHSERIKOWI´I – Centro de Medicina Indígena da Amazônia

Inauguração: Terça-feira (06), às 9h.

Funcionamento: De segunda a sexta, das 9h às 15h

Local: Rua Bernardo Ramos, no. 97, Centro de Manaus

Tel: (92) 99271 – 7500 / 98249-5991

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