Economia e Negócios

Profissão jornalista: cursos no Brasil estão despolitizados, diz professor da UFPA

13/05/2016 17:45

Segundo Manuel Dutra, a maioria das escolas está voltada para ‘produtos’, isto é, o mercado, alheios à cultura geral e à reflexão teórica, indispensáveis ao jornalismo (Foto: Paulo Santos) 

 

Com a instabilidade na profissão e os baixos salários oferecidos pelas empresas de comunicação, no Pará muitos jornalistas também estão deixando as redações, assim como em outras regiões do país. Os veículos sustentam-se no argumento da crise econômica brasileira como justificativa, mas estão substituindo a mão de obra experiente pela dos estudantes e recém-formados em jornalismo.

Neste aspecto é importante que as instituições de ensino aproximem seus alunos da realidade do mercado do jornalismo. Nas universidades, professores discutem a adequação das Diretrizes Curriculares Nacionais (DCN). No Pará, a Comissão de Jornalismo do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), que conta com representantes da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), de professores de jornalismo da Universidade Federal do Pará (UFPA), do Fórum Nacional dos Professores de Jornalismo (FNPJ) e de técnicos do Inep, discute as diretrizes.

O jornalista e professor do curso de Comunicação Social da UFPA, Manuel Dutra, afirma que as diretrizes tratam, na verdade, de um retorno aos cursos de jornalismo, diferentemente dos cursos de comunicação.

“Estes, os de comunicação, da forma como são no Brasil, são invenção da ditadura militar para tumultuar o ambiente acadêmico. Acho as diretrizes positivas, mas de difícil implementação. Os cursos hoje estão cheios de professores de áreas afins, fazendo com que as disciplinas sejam interdisciplinares deixando de lado as que julgamos indispensáveis para o fazer jornalístico, como o conhecimento da língua portuguesa por meio da literatura, as chamadas humanidades, a história, o direito usual, enfim, uma cultura geral que não seja superficial”, afirma.

Quando se fala de mercado e dos profissionais que atuam nas redações, Dutra critica dizendo que muitos jornalistas poderiam ser chamados, de “jornalistas” –entre aspas mesmo.

“Refiro-me às posições político-partidárias de muitas empresas de comunicação, na maioria empenhada em derrubar o governo federal. Seria mais digno a um jornalista demitir-se e buscar outra atividade do que prosseguir humilhando-se dentro de redações viciadas. Nesse ambiente é, de fato, difícil ou impossível falar em classe profissional”, argumenta o professor.

Como solução, Dutra diz acreditar em duas forças: qualidade do ensino ofertado, somado ao interesse do aluno. Entretanto, ele afirma que o aluno de jornalismo tem uma tendência a não ser crítico quanto ao seu fazer.

“Como disse Muniz Sodré em 2012, em palestra no Centro Internacional de Estudos de Comunicação e Semiótica, em João Pessoa (PB), os cursos de comunicação no Brasil estão despolitizados, a maioria voltada mais para ‘produtos’, isto é, o mercado, e mais alheios à cultura geral e à reflexão teórica, indispensáveis para que o jornalista compreenda o mundo e os acontecimentos a cobrir”, analisa o professor. 

Outra situação que Manuel Dutra traz à tona é a tendência do aluno imitar o mercado, sem se preocupar com a inovação e a profundidade na análise dos fatos. “O calouro hoje, salvo exceções, está mais ligado àquilo que aparece de imediato ao público, ou seja, televisão e portal na web. De minha experiência, de uma turma de 15 alunos, apenas quatro me informaram desejar o caminho da reportagem em impresso. Os demais preferiram a televisão, a internet e mesmo assessorias, independentemente dos meios aí existentes e outros ambientes de produção”, detecta.

 

Profissão atrai os jovens

O jornalista e professor Manuel Dutra, da UFPA (Foto: Paulo Santos/AmReal)

O jornalista e professor Manuel Dutra, da UFPA (Foto: Paulo Santos/AmReal)

Mesmo com a crise que o jornalismo enfrenta, a procura pelo curso ainda é grande. No vestibular de 2015, por exemplo, a UFPA ofertou 24 vagas, estabelecendo a concorrência de 50 alunos por vaga não cotistas, e 22 para os cotistas. O professor Dutra questiona a demanda.

“Pergunto-me sobre as razões de muitos jovens procurarem o curso. Isso, no entanto, não difere de outras áreas de conhecimento, por isso sou tentado a dizer que ser jornalista é uma vocação. Costumo afirmar que precisamos buscar novas formas de produzir a informação, inovar, aproximar-nos do leitor, interagir com ele, retomar a reportagem, a pauta criativa, os temas exclusivos e a informação que não pode ficar escondida. O grande papel do jornalista é colocar à luz do dia tudo aquilo que não pode nem deve permanecer na obscuridade, em benefício da sociedade”, diz.

Em Belém, a UFPA é a única instituição pública a oferecer o curso, mas entre as privadas há, no mínimo, quatro certificadas pelo Ministério da Educação (MEC), o que faz com que o mercado absorva muito mais mão de obra das instituições particulares, em detrimento das públicas. Para Dutra, há diferenças nas abordagens e na formação do estudante de uma universidade para outra.

“Já fui professor em escolas privadas, retornando depois à pública. Nas escolas públicas há mais liberdade de pensamento, de criar e inventar coisas novas para o mercado, mesmo que nos ambientes acadêmicos privados possam existir mais equipamentos e salas mais confortáveis. Não faz muito tempo, o diretor de um jornal local me disse isso: ‘Dizem que os alunos das escolas privadas têm melhor preparo porque têm mais equipamentos e laboratórios. Acontece que na hora de escolher um ‘foca’ eu vou buscar na federal’”, lembra Manuel Dutra.

 

O futuro do jornalista

Para a professora Ana Prado, que foi por 12 anos coordenadora do Curso de Jornalismo da Universidade da Amazônia (Unama), essa diferença é fruto de um senso comum, e não determina de fato a qualidade de um profissional. A Unama é uma instituição particular.

“Há quem diga que o aluno de uma universidade privada é inferior ao da pública; minha experiência diz que não. Há, sim, bons e maus alunos em todo tipo de instituição. O fato é que o crivo do vestibular acaba por exigir do aluno de uma universidade pública mais, pois o número de vagas é menor, mas no decorrer do curso isso não se constitui necessariamente em um fator que vai determinar quem será um bom ou um mau profissional”, elucida.

Para Ana Prado, independente da instituição, o jornalista precisa investir na formação continuada, já que as empresas jornalísticas, ao perder público e anunciantes, investem cada vez menos na qualidade dos serviços que prestam e na forma como tratam os profissionais.

Professora Ana Prado (Foto: Wagner Santana)

Professora Ana Prado (Foto: Wagner Santana)

“Particularmente, acho a decisão burra. O momento é delicado, mas também precisamos pensar em outras saídas que possam, inclusive, sair dos mesmos grandes empregadores do Pará. O setor público tem aberto concursos para profissionais na área. São poucas, mas existem e falo isso no âmbito do governo federal, porque no estado ainda prevalece a prática do uso de Direção e Assessoramento Superior (DAS), uma espécie de cargo de confiança, quando, na verdade, esses cargos deveriam ser ocupados via concurso público. Assim, o governo precariza a atividade, já que o DAS não tem vínculo e, ao ser exonerado, perde seus direitos”, detalha Ana Prado.

Ainda defendendo o investimento na formação, Ana cita o professor Philip Meyer, que defende o investimento na qualidade do jornalismo como estratégia para sobreviver nesse mercado. “Além disso, precisamos vislumbrar outros horizontes e alguns deles são o setor público e o terceiro setor”, defende Ana Prado.

 

A desilusão da estudante

A estudante Ingrid Bico (Foto: Arquivo pessoal)

A estudante Ingrid Bico (Foto: Arquivo pessoal)

Para Ingrid Bico, 26 anos, estudante do curso de comunicação visual design na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), depois de concluir a graduação de jornalismo em 2010 e trabalhar no mercado, a opção foi mudar de curso.

“Essa escolha foi um processo, que juntou uma série de decepções com outros fatores relacionados ao ‘amor pela profissão’, que comecei a suspeitar que talvez não tivesse mais. Fui parando de ter aquela sensação de felicidade que dá quando vemos um trabalho bem feito, e aí chegou a um ponto em que eu não tive escolha: ou ia viver fazendo isso e incompleta, ou ia atrás de algo mais verdadeiro para mim”, diz Ingrid Bico.

Segundo Ingrid, os maiores problemas foram os ciclos viciosos, o padrão e a caixa de onde saiam sempre as mesmas reportagens. “Era tudo igual, as pessoas dizendo ‘faz assim porque funciona’ ou ‘não faz assim porque o fulano não gosta’. É complicado”, afirma.

A jovem trabalhou, além de Belém, em São Paulo e diz que a diferença é pouca. “Em Belém as dificuldades são mais perceptíveis, porque há uma relação quase familiar entre as disputas de concorrência, mas de forma geral, o ‘desencanto’ está em todos os níveis. Em São Paulo, o padrão de qualidade era mais alto e as exigências, idem. Mas as experiências fizeram perceber que eu não estava no lugar certo”, admite.

Apesar das dificuldades, a estudante agradece a experiência com o jornalismo. “Trago do jornalismo a experiência de analisar as situações por todos os ângulos possíveis e amo isso. O jornalismo desperta uma percepção muito boa em quem começa a entrar nesse mundo da mídia, e isso fica para sempre, independente da pessoa continuar na área ou não”, comenta ela.

 

O sonho não acabou

O estudante Vitor Barros (de blusa branca) - Foto: Arquivo pessoal

O estudante Vitor Barros (Foto: Arquivo pessoal)

O estudante da UFPA Vitor Barros, de 28 anos, se formará em jornalismo no final de 2016, e diz ter enfrentado muitas dificuldades no mercado; entre elas estão as experiências e os muitos relatos de assédio moral e cerceamento das liberdades de expressão dentro do ambiente de trabalho.

“Muitos conhecidos terminaram o curso e foram trabalhar em outras áreas ou ainda não conseguiram emprego no jornalismo porque está complicado. Eu fui estagiário em um grande portal de internet na cidade, mas tive sorte porque as jornalistas com quem trabalhei me ajudaram bastante, mas confesso que, de forma geral, sinto-me desestimulado”, desabafa.

O jovem, que entrou na faculdade com o sonho romântico das redações de impresso, admira o trabalho dos jornalistas Ismael Machado e Lúcio Flavio Pinto, mas diz que, apesar da admiração, tenta ser mais realista quanto à realidade profissional em Belém. 

“Consigo ponderar mais a realidade das redações. O modelo de negócio do jornalismo atual, para mim, está falindo ou falido pelas grandes questões internas, pelas relações de trabalho que essas grandes empresas estabelecem com seus funcionários, que não são respeitosas e porque não há mais credibilidade das notícias. Está tudo uma bagunça. Não sei se tenho esperança de mudança, o que espero mesmo é que consigamos fortalecer outros modelos de jornalismo”, almeja.

 

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