A Amazônia segundo Lúcio Flávio Pinto

Romeu e Julieta na selva

15/03/2017 14:17

 

Os guerreiros Uru-Eu-Wau-Wau  descobriram que autoridades do primeiro escalão do governo de Confúcio Moura, do PMDB de Rondônia, distribuíram ilegalmente lotes das terras pertencentes ao seu povo, conforme denúncia feita neste site por Elaíze Farias. Participaram da reunião de partilha mais de 50 pessoas, entre agricultores, madeireiros e grileiros, parcela de um total de 800 pessoas que invadiram a reserva.

O total chegou a cinco mil invasores, a maioria dos quais afastados pela intervenção dos próprios índios, que têm sido os mais ativos na defesa do seu patrimônio. Os representantes do governo se empenham em abrir cunhas na reserva porque às proximidades estariam acampados irregularmente entre 800 e cinco mil pessoas aguardando a regularização de lotes pelo Incra. 

A área fica no limite do projeto de assentamento de colonos Burareiro, criado nos anos 1970 pelo Incra, também dentro do território Uru-Eu-Wau-Wau, que possui quase 1,2 milhão de hectares e está na mira da expansão do agronegócio. Por considerar o projeto ilegal, a Funai, recorreu à justiça federal, onde a ação tramita, ainda sem uma decisão, há quatro décadas. Enquanto isso, a perturbação na reserva é crescente e cada vez mais tensa. Um ambiente preparatório ao conflito.

Testemunhei algo bem parecido quatro décadas atrás, entre 1974 e 1976. O conflito era entre os colonos do Projeto Integrado de Colonização Gy-Paraná e os índios suruí, do Riozinho. Funai e Incra agiram com incompetência (ou má fé) ao traçar a linha divisória entre as terras reservadas ao assentamento de colonos e a área indígena. Deixaram um bolsão vago entre a última linha de penetração a partir da BR-364 (Cuiabá-Porto Velho) e terras tradicionalmente de domínio dos suruí. Foi o bastante para que a disputa entre eles se tornasse sangrenta.

Em meio ao conflito possessório, uma história de amor. O índio Oréia e Arminda Krugel se viram e se apaixonaram. Ambos jovens. Ele, guerreiro, um índio característico. Ela, descendente de alemães que se instalaram em Colatina, no Espírito Santo, branca, loura, de olhos verdes, muito bonita. Seu pai vetou definitivamente qualquer relação entre eles. Arminda fugiu para a aldeia e foi viver como uma índia na companhia de Oréia. Estavam felizes.

Enquanto a tensão crescia, Oréia e outros jovens guerreiros foram caçar, atividade esportiva, de sobrevivência e ritual. Ele deixou Arminda com os pais, que a despacharam imediatamente para o Espírito Santo. Ao voltar à casa dos colonos capixabas, Oréia soube da má notícia, mas não reagiu. O ambiente lhe era hostil. Ele acampou às proximidades. Com a noite alta, cercou a casa, entrou pelos fundos e deu uma machada naquele corpo que supunha ser o do pai da sua amada. Era do primo dela, Satilo Krugel.

Os brancos se armaram e atacaram. Os suruí se armaram e retrucaram. Quando passei por lá, numa das constantes viagens que nessa época fazia ao Acre e Rondônia, a guerra estava na sua plenitude. Oréia não fazia mais parte dela nem de nada. Ele deixara de comer. Passava o dia olhando as roupas de Arminda contra o sol e pedindo a alguém que lesse uma carta que ela lhe escrevera.

Debilitado, foi levado ao hospital de Cacoal e, em seguida, para a sede do Parque Nacional de Aripuanã, porque a família de Arminda jurava vingança. Diante do comportamento de Oréia a partir do sumiço de Arminda, todos na aldeia achavam que ele se suicidaria aos poucos. Mas não conseguiu. Foi assassinado antes. Quem o matou ninguém soube. Por um motivo elementar: ninguém foi atrás do assassino.

 

A foto que ilustra esse artigo é de autoria de Gabriel Uchida/Kanindé.

 

Lúcio Flávio Pinto é jornalista desde 1966. Sociólogo formado pela Escola de Sociologia e Política de São Paulo, em 1973. Editor do Jornal Pessoal, publicação alternativa que circula em Belém (PA) desde 1987. Autor de mais de 20 livros sobre a Amazônia, entre eles, Guerra Amazônica, Jornalismo na linha de tiro e Contra o Poder. Por seu trabalho em defesa da verdade e contra as injustiças sociais, recebeu em Roma, em 1997, o prêmio Colombe d’oro per La Pace. Em 2005 recebeu o prêmio anual do Comittee for Jornalists Protection (CPJ), em Nova York, pela defesa da Amazônia e dos direitos humanos. Lúcio Flávio é o único jornalista brasileiro eleito entre os 100 heróis da liberdade de imprensa, pela organização internacional Repórteres Sem Fronteiras em 2014. Leia mais aqui. Veja outros artigos do autor.

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