A Amazônia segundo Lúcio Flávio Pinto

As mangueiras caem em Belém

Mangueiras de Belém (Foto: Tassia Barros Comus)
08/03/2017 18:16

Nos dois primeiros meses deste ano, a chuva forte e os ventos já derrubaram oito mangueiras em Belém. É um recorde. A prefeitura teve que por abaixo muitas outras, ameaçadas de não resistirem ao rigor do “inverno” amazônico, que vai até abril ou maio. Estão enfraquecidas pela ação de parasitas e outros elementos naturais.

A maior ameaça, no entanto, vem do homem. O mesmo agente que introduziu essa espécie asiática na paisagem da capital paraense, a 10ª mais populosa cidade brasileira, pode acabar com ela. O personagem inicial foi o maranhense Antonio Lemos.

Ele foi prefeito municipal (na época, conhecido por intendente), considerado o melhor até hoje, entre o final do século XIX e os 12 primeiros anos do século XX, quando – pelas paixões políticas irracionais – foi deposto, posto em desgraça e exilado para morrer no ano seguinte, no Rio de Janeiro.

No auge da belle époque da borracha, Belém queria ser a Paris dos trópicos. Tinha bonde elétrico, energia pública a gás, palacetes, boulevards e um teatro de ópera com agenda cheia de atrações, inclusive internacionais. Pereira Passos, o saneador e urbanizador da capital federal, o Rio de Janeiro, foi a Belém ver o que Lemos fizera e ele imitaria, na contramão da influência dominante, de sul para o norte.

O intendente importou e plantou milhares de mangueiras. A árvore pegou tão bem que passou a ser uma das marcas daquela que, na época, era a terceira mais importante cidade do país. Permaneceu com essa função por décadas.

Estima-se que, hoje, o núcleo mais antigo da cidade, que possui 1,5 milhão de habitantes, tenha três mil árvores centenárias, na parte mais bonita, tão perfeitamente demarcada que passou a ser conhecida como o quadrilátero das mangueiras.

As mangueiras são troncudas, com muitos galhos, uma copa frondosa e espessa, bem altas, dando frutos quase o ano inteiro, em safras contínuas. Inadequadas para um meio urbano tão densamente ocupado como o de Belém – sentenciam os defensores de árvores mais esguias, menos altas e corpulentas. E sem frutos.

Que árvores com 10 a 15 metros de altura ainda estejam de pé é quase um milagre. Além dos adversários da natureza, elas enfrentam as linhas de transmissão de energia (Belém não possui um único quilômetro de fiação subterrânea), que demandam poda. Suas raízes são decepadas pelas turmas da companhia de água, que cavam como toupeiras artificiais.

Os aparelhos de refrigeração lançam sobre elas o ar quente que expelem. Elas absorvem ainda a descarga dos carros, além da poluição em geral. E, no inverno, são sacudidas pela força da água e do vento. Não admira que caiam. De admirar é a sua resistência às intempéries urbanas.

Mangueiras da Praça da República, em Belém (Foto: Celso Abreu)

Mangueiras da Praça da República, em Belém (Foto: Celso Abreu)

Poda de mangueiras no centro de Belém (Foto: Tassia Barros Comus)

Poda de mangueiras no centro de Belém (Foto: Tassia Barros Comus)

O belenense se irrita quando uma manga cai sobre o seu carro, quebrando vidro ou achatando metal. Pior é quando atinge alguém, podendo causar sério dano ao corpo. Sistematicamente, suas folhas entopem as drenagens e sujam o ambiente. Melhor substituí-las por espécies mais compatíveis com o elemento dominante (e dominador), o homem urbanamente selvagem.

Não importa que a Belém das mangueiras se diferencie, por sua cor, perfume, temperatura e suavidade da parte preponderante da cidade, muito árida, com uma das menores coberturas vegetais do país, apesar de estar na entrada da maior floresta tropical do planeta. Nem que o fruto saboroso e suculento seja uma fonte de alimentação boa e barata para todos.

Os aspectos negativos da presença das mangueiras podiam ser neutralizados se a administração municipal tivesse um serviço especificamente destinado ao tratamento fitossanitário das árvores, a cadastrá-las e monitorá-las através de uma guarda florestal, que se incumbiria de coletar os frutos antes de eles caírem – e coisas assim.

Insensíveis a esses argumentos, os donos das decisões, assustados pela queda de uma árvore enorme e pesada (três toneladas só de copa), querem o fim das mangueiras, o que significa querer, em parte, o fim de Belém, e consagrar o fim da Amazônia, definido pelo avanço incontrolável do desmatamento sobre a floresta, o mais intenso de toda história da humanidade.

Quando – e se – Belém não tiver mais suas centenárias mangueiras, em que simbologia haveremos de nos agarrar para crer que a Amazônia ainda pode ser salva?

 

A foto que ilustra esse artigo é de autoria de Tassia Barros Comus.

 

Lúcio Flávio Pinto é jornalista desde 1966. Sociólogo formado pela Escola de Sociologia e Política de São Paulo, em 1973. Editor do Jornal Pessoal, publicação alternativa que circula em Belém (PA) desde 1987. Autor de mais de 20 livros sobre a Amazônia, entre eles, Guerra Amazônica, Jornalismo na linha de tiro e Contra o Poder. Por seu trabalho em defesa da verdade e contra as injustiças sociais, recebeu em Roma, em 1997, o prêmio Colombe d’oro per La Pace. Em 2005 recebeu o prêmio anual do Comittee for Jornalists Protection (CPJ), em Nova York, pela defesa da Amazônia e dos direitos humanos. Lúcio Flávio é o único jornalista brasileiro eleito entre os 100 heróis da liberdade de imprensa, pela organização internacional Repórteres Sem Fronteiras em 2014. Leia mais aqui. Veja outros artigos do autor.

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Comentários

  1. Ola sou Celso Abreu. Sou paraense e achei bem interessante a matéria sobre as mangueiras de Belém que pedem socorro. Mas socorro preventivo e não corretivo omo a Prefeitura o faz. Se realmente houvesse uma politica preventiva para manter a prevenção das arvores, talvez não tombasse tantas árvores como acontece. Infelizmente, precisamos de alguém que tenha uma visão mais voltada para a natureza e consiga manter o símbolo maior de Belém, as mangueiras,

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