Questão Agrária

Comunidade Quilombola do Tambor é ameaçada de remoção do território tradicional no Amazonas

05/11/2014 17:21

ELAÍZE FARIAS, DE NOVO AIRÃO (AM)

À margem esquerda do rio Jaú, afluente do rio Negro, no Amazonas, uma faixa de terra delimitada em 719,8 mil hectares, que fica dentro do Parque Nacional do Jaú, é disputada há sete anos por famílias remanescentes de quilombos e o Ministério do Meio Ambiente.

Na faixa de terra está situada a tradicional Comunidade Quilombola do Tambor, local onde os casais Leopoldina e Jacinto de Almeida, Otília Maurícia e José Maria dos Santos e Severina Nascimento e Isídio Caetano, remanescentes de quilombos do Nordeste brasileiro, migraram entre os anos de 1907 a 1910. No Jaú, eles se estabeleceram na região do igarapé Paunini, área que nos anos seguintes passou a ser conhecida como “rio dos pretos”.

A disputa no âmbito administrativo federal pela regularização fundiária do território tradicional entre os moradores da Comunidade Quilombola do Tambor e o Ministério do Meio Ambiente acontece desde 2006, quando a área foi reconhecida como de remanescentes de quilombolas pela Fundação Cultural Palmares, ligada ao Ministério da Cultura.

O Ministério do Meio Ambiente, por meio do ICMBio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade), contestou a regularização fundiária da comunidade, procedimento que veio logo após a certificação como quilombola e executado pelo Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária). O MMA alega que o Parque Nacional do Jaú (PNJ) é uma unidade de proteção integral da fauna e da floresta, que exclui ocupação de populações humanas.

O Parque Nacional do Jaú foi criado pelo Decreto n.° 85.200, de 24 de setembro de 1980, em uma área de 2.272 milhões de hectares, como parte de uma política ambiental preservacionista. Segundo pesquisadores, a criação do parque provocou a saída compulsória de centenas de famílias ribeirinhas que viviam à margem do rio Jaú. As famílias foram obrigadas a recomeçar a vida nas periferias de zonas urbanas do Amazonas. Apenas um pequeno grupo, incluindo as famílias quilombolas, resistiu no Parque.

Em março de 2014, o governo federal, por meio da Câmara de Conciliação da Advocacia Geral da União (AGU), determinou a remoção dos moradores, sem consultá-los.

A decisão está sendo questionada pelo Ministério Público Federal do Amazonas, que entrou na justiça contra a remoção das famílias do Tambor e exige a titulação territorial da comunidade por parte do Incra.

No Amazonas, são sete comunidades reconhecidas como quilombolas. A primeira a ser reconhecida foi a comunidade do Tambor, localizada no município de Novo Airão (a 180 quilômetros de Manaus). Cinco estão no município de Barreirinha (a 331 quilômetro de Manaus). São elas: Boa Fé, Ituquara, São Pedro, Tereza do Matupiri e Trindade, reconhecidas em outubro de 2013. A mais recente é a comunidade do Barranco, em Manaus, capital do Amazonas. Barranco foi certificada pela Fundação Cultural Palmares no final de setembro deste ano.

Entre os dias 13 e 17 de outubro, a reportagem da agência Amazônia Real viajou durante 24 horas pelos rios Negro e Jaú, da cidade de Novo Airão à Comunidade Quilombola do Tambor para relatar a história de resistência, os conflitos e incertezas da sobrevivência dos remanescentes dos quilombos no Parque Nacional do Jaú.

Clique nos links abaixo e leia as matérias desta reportagem:

Tambor, o rio dos Pretos e a resistência dos remanescentes

Criação do Parque Nacional do Jaú causou saída de famílias ribeirinhas

Luta pela manutenção do Tambor uniu quilombolas e ribeirinhos do rio Jaú

Retirada de comunidade quilombola pode gerar dano social e cultural

ICMBio diz que comunidade quilombola compromete gestão do Jaú

AGU decidiu pela remoção da comunidade do Tambor

Antropólogo diz que negros encontraram a liberdade no Tambor

Bastidores da reportagem sobre a Comunidade Quilombola do Tambor

Moradores do Tambor, Sabino Nascimento e Maria Aparecida posam com seus filhos. (Foto: Elaíze Farias/AR)

Moradores do Tambor, Sabino Nascimento e Maria Aparecida posam com seus filhos. (Foto: Elaíze Farias/AR)

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Infográfico: Victor Gabriel

 

* Esta reportagem especial faz parte do projeto “Amazônia Real – promovendo a democratização e liberdade de expressão na região amazônica” e recebe financiamento da Fundação Ford, por meio do programa “Promovendo Direitos e Acesso à Mídia”.

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Comentários

  1. silvia helena correa disse:

    como faço para visitar ,sou professora quero fazer um trabalho na minha escola !

  2. ivan olivieri disse:

    questa gente custodisce i fiumi e le foreste,,,la rimozione di queste popolazioni e’una tragedia che mette in pericolo l’ambiente dove vivono, devono rimanere nella loro terra ,,,, e un sacrosanto diritto umano

  3. josé barbosa de carvalho disse:

    O Quilombo do Tambor, de Novo Airão, é um exemplo de resistência dos negros na Amazônia. Nem mesmo a criação do Parque do Jaú conseguiu retirar os descendentes de escravos da região. Faz-se necessário a regularização fundiária para que os agricultores e pescadores vivam e trabalhem com tranquilidade!

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