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Manifestantes invadem aldeias Tenharim (AM), dizem indígenas

27/12/2013 13:33

ELAÍZE FARIAS

KÁTIA BRASIL

Aproximadamente 300 pessoas invadiram na manhã desta sexta-feira (27) as aldeias da Terra Indígena Tenharim, em Humaitá, no sul do Estado do Amazonas, com a justificativa de estarem em busca dos corpos de três homens desaparecidos. Segundo índios da etnia tenharim, a invasão começou em uma grande manifestação na BR 230 (Transamazônica), iniciada no município de Apuí, vizinho de Humaitá (a 675 quilômetros de Manaus).  

A Polícia Militar, por outro lado, afirma que está ocorrendo uma “tentativa de invasão” nas aldeias e pediu pressa no envio da força-tarefa para a região. O tenente coronel Everton Cruz confirmou que não-índios destruíram com machados, facões e fogo o posto de cobrança de pedágio ilegal mantido pelos tenharim há sete anos dentro da terra indígena na BR 230 (Transamazônica), entre a localidade de Santo Antônio do Matupi (Distrito de Manicoré) e Humaitá. Veja aqui (ataque)

Os tenharim fazem a cobrança do pedágio desde de 2006 para todos os veículos que passam no km 145 da rodovia Transamazônica, dentro da terra indígena. Segundo a Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab), o pedágio seria uma compensação e ressarcimentos pelos danos causados à etnia. No mês de dezembro, os índios aumentaram o valor de pedágio, revoltando ainda mais população da região.

Em entrevista ao portal Amazônia Real, o índio Ivanildo Tenharim, que está refugiado no quartel do Exército em Humaitá, afirmou que depois das invasões nas aldeias mulheres com crianças fugiram para a floresta com receio de serem atacadas. Nas aldeias, segundo ele, ficaram apenas os homens. Ele disse que uma casa da aldeia, local onde os índios faziam o pedágio ilegal, foi incendiada, mas os indígenas optaram por não reagir para evitar conflito. .

Conforme Ivanildo, a comunicação entre os tenharim que estão na aldeia com os que estão no quartel vem ocorrendo por meio de um orelhão (telefônico público).

A distância entre as aldeias tenharim e a rodovia Transamazônica é de apenas 200 metros. Já a distância das aldeias para Humaitá é de aproximadamente 123 quilômetros. Segundo Ivanildo, há muitas aldeias com apenas três famílias.

“Soubemos que os manifestantes estão fazendo arrastão, dizendo que estão procurando os corpos. Eles já passaram por quase todas as aldeias. Estamos tentando pedir apoio da polícia para ver esta situação, mas ainda não tivemos respostas”, disse Ivanildo, que é secretário municipal para os povos indígenas da prefeitura de Humaitá e também teve que fugir de sua casa na última quarta-feira (25) após os violentos protestos contra os indígenas na cidade.

O tenente coronel Everton Cruz, que comanda a força de segurança pela Polícia Militar na área, admitiu ao portal que está ocorrendo uma “tentativa de invasão” iniciada ontem (26).  Segundo ele, o grupo de invasores é formado por fazendeiros e madeireiros.

“Identificamos fazendeiros e madeireiros e funcionários deles tentando invadir a reserva. Nós vamos fazer de tudo que tiver ao nosso alcance para evitar que eles não entrem na reserva. Não podemos garantir 100%. Se tiver um confronto com a polícia, não vamos atirar em ninguém. Estamos tentando convencer no diálogo”, afirmou o tenente coronel Everton Cruz.

Rosinho Tenharim, que também está refugiado no quartel do Exército, disse ao Amazônia Real que mulheres e crianças escondidas na mata estão sem proteção.

“Com o ataque nas aldeias, elas fugiram com as crianças. Mas como tem chovido bastante, as crianças estão começando a ficar doentes, gripadas”, disse Rosinho, que é presidente da Organização dos Povos Indígenas do Alto Madeira,  e estava em Humaitá para participar de uma reunião.

Refugiados

Estão refugiados no quartel 140 indígenas, entre eles, 50 crianças, a maioria da etnia tenharim. Vinte indígenas doentes que estavam na Casa de Apoio à Saúde Indígena (Casai) também tiveram que ser retirados do local, junto com seus acompanhantes, e levado ao quartel depois dos ataques dos moradores de Humaitá.

Os indígenas fugiram ou foram retirados de suas casas pela polícia após manifestantes ameaçarem incendiá-las. Alguns indígenas fugiram quando estavam na balsa que faz a travessia do rio Madeira de Humaitá para as aldeias.

“A mensagem que eles nos deram é que  não queriam nenhum índio nas ruas da cidade se não iam nos matar”, disse Ivanildo.

No grupo de indígenas que estão no quartel há lideranças, caciques, funcionários públicos e estudantes universitários.

Ainda não há previsão da retirada deles do quartel, mas as lideranças que conversaram com o portal disseram que, por enquanto, não pretendem continuar na cidade e vão recomendar o mesmo para os outros tenharim. “Vamos dar um tempo nas aldeias. Não há condições de a gente continuar em Humaitá porque as ameaças continuam”, disse Ivanildo.

Desaparecidos

Os indígenas também negaram que os tenharim tenham sido os responsáveis pelo desaparecimento do professor Stef Pinheiro de Souza, de Apuí, Aldeney Ribeiro Salvador, funcionário da Eletrobrás Amazonas Energia, e Luciano da Conceição Freire, comerciante do distrito de Santo Antônio do Matupi, localizado no KM-180 da Transamazônica.

“Não foram os indígenas. Quando o indígena faz alguma coisa, ele assume. Se fosse nós, já teríamos assumido. Já tínhamos comunicado à Funai e dito o motivo”, afirmou Ivanildo Tenharim.

Rosinho Tenharim reitera a informação de Ivanildo. Na sua avaliação, “estão querendo culpar” os índios sem provas. “Falam que é a gente como se só a gente morasse na BR. Tem muitas outras pessoas que vivem na estrada. Há muitas fazendas”, afirmou.

Nesta quinta-feira (26), segundo Rosinho, dois caciques que estão refugiados no quartel escaparam de serem mortos por pessoas que afirmaram ser das famílias dos desaparecidos.

“Vieram aqui com a gente e propuseram nos acompanhar na aldeia. Disseram que iam fazer busca, mas queriam que alguém da gente lhes acompanhasse. Só que quando os caciques chegaram perto da balsa, viram que era uma armadilha. Muitas pessoas afirmaram que iam matar eles. Depois disso, não queremos mais nenhum diálogo”, disse Rosinho.

A Terra Indígena Tenharim é composta por três áreas: Tenharim-Marmelos, Tenharim Marcelos (Gleba B) e Tenharim do Igarapé Preto.

Foco de tensão

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Procurada pelo portal, a Polícia Militar do Amazonas informou que mais de 250 policiais militares tentam proteger a reserva indígena. Os policiais estão em pontos estratégicos da área que é o foco de tensão a partir do quilômetro 180 da BR 230 (Transamazônica), principal entrada para reserva, em Santo Antônio do Matupi, Distrito de Manicoré.

O tenente coronel Everton Cruz disse que está aguardando apoio de um helicóptero do Exército para auxiliar a segurança. Também devem chegar nas próximas horas mais de 200 homens da Polícia Federal e Força Nacional de Segurança, que já tem pequeno contingente dentro da reserva.

A força da Polícia Militar se concentra, segundo o comandante, no km 150 da BR 230 (sentido Apuí) e no porto de Humaitá no rio Madeira. “Do efetivo nosso são 250 policiais. Nós estamos fazendo de tudo para não ter invasão, mas preciso de um transporte para chegar de imediato”, disse.

A Delegacia da Polícia Civil de Apuí confirmou que fazendeiros e madeireiros também tentam invadir a Terra Indígena Tenharim desde a noite de quinta-feira (26) para fazer buscas aos três homens desaparecidos. Mas foram contidos, segundo o delegado Robson Janes, por forças do Exército, da Polícia Federal, da Força Nacional de Segurança e da Polícia Militar do Amazonas.

O delegado Robson Janes disse que parentes e amigos estão no grupo. “Ontem (26) saiu daqui (de Apuí) 29 caminhonetes com essas pessoas. Eles tentaram invadir à reserva para fazer buscar de informações sobre o professor Stefano. Chegando em Santo Antônio do Matupi, essas pessoas foram contidas pelo Exército e Polícia Federal e demais forças”, afirmou.

Procurada na manhã de hoje, a Funai disse por meio da assessoria de imprensa que a “Coordenação Local do órgão não detectou nenhuma invasão de não-índios em aldeias da região até o presente momento”. Disse também que “a Polícia Federal e a Força Nacional estão se deslocando para a região”.

Em outra nota, enviada após novamente ser procurada pelo portal, a Funai não negou (mas também não confirmou) sobre a possível invasão e novamente disse que Polícia Federal, junto com a Força Nacional, já está se deslocando para a região para apurar o caso.

“Não temos atribuição para investigar denúncia de crimes. Trabalhamos em parceria com a Polícia Federal para facilitar as investigações, acompanhando-os às aldeias, ajudando no diálogo e negociação com os índios. Apenas a polícia pode/deve investigar a denúncia de crimes. A Funai está à disposição da Polícia para auxiliar na resolução do caso o mais rápido possível”, diz a nota.

A Secretaria do Gabinete da PF em Porto Velho (RO) confirmou que um contingente de policiais federais, da Força Nacional e da Polícia Rodoviária Federal está se dirigindo ao local da manifestação.

 

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Comentários

  1. José Aparecido da cruz disse:

    Há mais de 500 anos índios vem sendo exterminados pelos não-índios, havia no Brasil aproximadamente 7 milhões, quantos existem hoje? Agora madeireiros, garimpeiros e latifundiários com pretexto de procurar desaparecidos estão querendo exterminar o restante da população indígena. Deveríamos nos envergonhar da nossa história, pois estamos há mais de 500 anos invadindo terras indígenas e matando nossos irmãos índios.

  2. que mentira absurdamente grande, ninguém atacou nem um índio somente retiraram os pedágios, os índios é que fizeram besteira mataram pessoas inocentes e agora estao se fazendo de coitados e voces ainda estao protegendo eles. Ah e nao foram 300 homens foi bem menos que isso parem de mentir e falem a verdade

    • Conceição Araujo disse:

      Onde já se viu, índio cobrando pedágio! Tem alguém por trás disso, podes crer. Vamos botar o índio no lugar de índio, ou então trás pra civilização com responsabilidade. Tem lugar no Norte do Brasil que brasileiro só entra com autorização de gente do estrangeiro, olha só o resultado..

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