10/11/2016 14:35

O maior projeto do PAC (o Programa de Aceleração do Crescimento, principal e onerosa marca da administração Dilma Rousseff) é a hidrelétrica de Belo Monte, no rio Xingu, no Pará. Seu custo já passou de 33 bilhões de reais. Ela é um candente tema nacional por seus efeitos sociais, ambientais – e por ter entrado nas obras suspeitas de corrupção investigadas pela Operação Lava-Jato.

O principal líder político do Pará, o senador (ex-deputado, ex-governador e ex-ministro) Jader Barbalho, do PMDB, é um dos suspeitos de receber propina. Até o ex-todo-poderoso ministro da ditadura, Delfim Netto, foi colocado na ciranda do pagamento “por fora” para influir sobre o contrato de concessão da usina.

Belo Monte foi concebida para ser a quarta maior hidrelétrica do mundo, deslocando dessa posição outra usina de energia, a de Tucuruí, instalada num rio do Pará, o Tocantins. Por sua grandeza e complexidade , Belo Monte já motivou quase três dezenas de ações propostas na justiça pelo Ministério Público Federal para interromper sua construção. Nenhuma dessas ações chegou ao fim até agora, nem mesmo com a pressão de várias ocupações do canteiro de obras, e de outras manifestações de protestos de índios e demais nativos, que se consideram prejudicados pelo represamento do rio, um dos maiores do Brasil.

Nada disso acontece com uma obra ainda maior. É o projeto S11D, da antiga estatal Companhia Vale do Rio Doce, privatizada quase 20 anos atrás e agora com o nome de fantasia de Vale. Sob essa denominação desinteressante está um novo Carajás, a mais importante província mineral do planeta, que fica bem no centro do Pará, com seu imenso território, o segundo maior do país (de 1,2 milhão de quilômetros quadrados, do tamanho da Colômbia, só inferior ao do Amazonas).

O primeiro trem saiu da mina de Carajás em 1985, transportando uma carga simbólica. O volume de minério de ferro transportado cresceu tanto que o tem, com 330 vagões e quatro quilômetros de comprimento, se tornou o maior trem de carga do mundo. Todos os dias, seis deles vão e outros seis voltam ao porto de São Luís do Maranhão, a quase 900 quilômetros de distância. Carregam 30 milhões de dólares na forma do mais rico minério que há na face da Terra. O principal cliente está a 20 mil quilômetros: é a China, que compra 60% da produção, de 130 milhões de toneladas. Outra parte, menor, fica no Japão.

 

Estrada de Ferro de Carajá em Açailândia (Foto: Ismar Ingber/Greenpeace Tyba)

Estrada de Ferro de Carajás em Açailândia (Foto: Ismar Ingber/Greenpeace Tyba)

Neste mês, deverão ser concluídos os testes para que tudo funcione e, até 2020, Carajás coloque mais 90 milhões de toneladas na Ponta da Madeira, que se tornou o maior porto de carga oceânica do Brasil, apesar de estar na frágil ilha onde está a capital do Maranhão. É um volume superior ao que consumia os Estados Unidos quando se tornou potência mundial, depois da Segunda Guerra Mundial.

O investimento para colocar o S11D em funcionamento chega a 50 bilhões de reais (o equivalente a dois anos de orçamento do Estado do Pará e a mais de meio século de investimento do governo local), superando o próprio custo original da primeira mina.

Mais do que esse número impressionante sobre a quantidade de dinheiro que o projeto requereu, tornando-se o maior da história da Vale, que é também a maior vendedora de minério de ferro no mundo, se destaca o dado qualitativo. Em 40 anos a jazida de Serra Sul, ainda mais rica do que a da Serra Norte, sem igual em qualquer outra parte, estará esgotada, deixando um bilhão de toneladas de rejeito em buracos despidos de 2,4 bilhões de toneladas de minério com o mais alto teor de hematita pura que existe – 60% dele em uso ou ainda estocados na China.

Apesar de incertezas no mercado internacional, é um bom negócio para a Vale, uma das raras multinacionais brasileiras. É bom também para a nação? O Pará exporta matéria prima há mais de três décadas. O beneficiamento do minério se restringe a uma pequena produção de semiacabados de aço, de baixo valor agregado. O benefício por apenas produzir commodities é menor e sujeito a incertezas constantes.

Por se destinar quase totalmente à exportação, a mineração não paga ICMS, a principal fonte de receita do Estado, que é o 9º em população, op 17º em IDH (Índice de Desenvolvimento Humano), o 19º em PIB e o 21º em PIB per capita, além de ser um dos mais violentos do Brasil.

Em janeiro do próximo ano, quando os novos trens saírem de Canaã dos Carajás, a partir de um ramal de 110 quilômetros que se conecta com a ferrovia de Carajás, será uma questão ameaçada de virar retórica diante do fato consumado.

Talvez seja por isso, para não dar tempo para os brasileiros pensarem no que está acontecendo quase silenciosamente em S11D, que o volume de minério é gigantesco e a velocidade intensa. Daí a nova usina ser a primeira a não utilizar mais os paquidérmicos caminhões “fora da estrada” de até 300 toneladas cada, que movimentam o ferro da rocha até as pilhas para carregamento no trem. Agora a função será desempenhada através de correias transportadoras, pela primeira vez na mais antiga e volumosa mineração humana. A extração se tornará muito mais rápida.

Quando os brasileiros se aperceberem, da magnífica Serra dos Carajás restará o apito do trem. Como tem sido a regra nas regiões colonizadas do mundo, antes e sempre.

 

A fotografia que ilustra a capa desta coluna é de autoria de Alberto César Araújo/Amazônia Real

 

Lúcio Flávio Pinto é jornalista desde 1966. Sociólogo formado pela Escola de Sociologia e Política de São Paulo, em 1973. Editor do Jornal Pessoal, publicação alternativa que circula em Belém (PA) desde 1987. Autor de mais de 20 livros sobre a Amazônia, entre eles, Guerra Amazônica, Jornalismo na linha de tiro e Contra o Poder. Por seu trabalho em defesa da verdade e contra as injustiças sociais, recebeu em Roma, em 1997, o prêmio Colombe d’oro per La Pace. Em 2005 recebeu o prêmio anual do Comittee for Jornalists Protection (CPJ), em Nova York, pela defesa da Amazônia e dos direitos humanos. Lúcio Flávio é o único jornalista brasileiro eleito entre os 100 heróis da liberdade de imprensa, pela organização internacional Repórteres Sem Fronteiras em 2014. Leia mais aqui.

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Comentários

  1. Fabiano disse:

    Prezado Lúcio, Parabéns pelo artigo.

    Parabéns também ao Amazônia Real.

  2. Thirson Rodrigues de Medina disse:

    Parabéns à Amazônia Real, por alistar o guerreiro Lúcio Flávio Pinto em suas fileiras. Sigamos em frente na elucidação e divulgação dos principais acontecimentos da Amazônia.

  3. Suzane Oliveira disse:

    Inclusive, no dia de hoje, o MP convocou uma audiência pública na cidade de Altamira/PA para discutir os resultados das pesquisas executadas por estudiosos que examinaram os problemas enfrentados pela população ribeirinha afetada pela construção de Belo Monte.

    Meu total apoio ao site Amazônia Real e a abertura dessa coluna para o jornalista Lúcio Flávio Pinto que vem compartilhando conosco o conhecimento a respeito das duras questões sobre a Amazônia.

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