19/04/2017 14:29

 

O vice-governador de Roraima, Paulo César Quartiero, do partido Democratas, comemorou à sua maneira, de véspera, o dia do índio, que transcorre hoje. Ao assumir o comando, no dia 17, demitiu o titular da Secretaria do Índio, Dilson Ingarikó. Roraima é o único Estado brasileiro a ter essa secretaria – ou era, se Quartiero prosseguir na escalada punitiva. É o dono do segundo maior contingente indígena do país: 10% de sua população, de 450 mil habitantes, é de índios.

Ele demitiu Ingarikó porque ele defende novas demarcações de áreas indígenas na unidade federativa mais meridional do Brasil, que avança entre Venezuela e a Guiana, quase apartando dois países do continente da sua histórica rivalidade. O papel diplomático do Brasil tem sido exatamente esse: impedir uma disputa territorial entre os dois países, a Venezuela sempre cobiçando a parte leste – a mais rica – da Guiana.

Esse clima de tensão belicosa latente parece ter incluído no ânimo do empresário-governador “Se fosse em situação de guerra”, Quartiero disse que teria mandado fuzilar o seu auxiliar. “Mas como temos democracia, ele foi demitido”.

A disposição por chegar ao extremo foi manifestada mesmo o vice estando apenas no exercício do cargo, que pertence ao titular, o único que foi realmente votado (Quartiero foi o seu companheiro de chapa, ascendendo por impulso automático). O governador interino, que ocupará a posição por apenas uma semana, não tem meio termo: quem apoia a criação de novas áreas indígenas em Roraima é contra os interesses de desenvolvimento do Estado. Vira inimigo, a ser combatido e derrotado.

Ele disse isso em plena entrevista coletiva à imprensa na sede do governo, que carrega no título o nome de um ex-governador e senador Hélio Campos.

Talvez o tom da declaração tenha assustado, mas ela era previsível. Ele se tornou adversário intransigente e feroz da delimitação de terras indígenas em Roraima desde que, em 2008, foi retirado da reserva indígena da Raposa Serra do Sol, uma das maiores do Brasil, com 1,7 milhão de hectares. Ele era dono de extensos plantios de arroz, alcançados pela decisão do governo federal de fazer a demarcação das terras dos índios de forma contínua, formando território único, e não por partes, como sendo um conjunto de ilhas, conforme pressionavam políticos e proprietários rurais.

O fazendeiro, gaúcho, de 64 anos, foi preso, acusado de mandar atirar contra os índios Makuxi, beneficiados pela demarcação. Foi rapidamente solto pela polícia de Roraima. Apesar de responder a vários processos na justiça, iniciou carreira política em 2010, se elegendo deputado federal. Transferiu seus arrozais para a ilha do Marajó, no Pará, ocupando quase 13 mil hectares e provocando críticas dos nativos pelo uso de produtos químicos numa região de extensas drenagens naturais, e por avançar sobre terra alheia, cercando a sede do município de Cachoeira do Arari.

Em entrevista dada por telefone ao portal G1, Ingarikó manteve a sua posição: “Eu defendo o Estado e os direitos dos indígenas. Em nenhum momento o Estado brasileiro diz que não pode ter demarcação indígena. Pelo contrário, o Estado tem que cumprir com a Constituição Federal no que diz respeito à demarcação e fiscalização das terras indígenas”. Ele também comemorou a decisão da Justiça Federal de demarcar a terra indígena Anzol.

Além de investir contra os índios, Quartiero defende um tratamento mais duro e hostil aos venezuelanos, que têm migrado em massa para Roraima. Informou na entrevista que determinou à Polícia Militar o reforço da segurança na fronteira. Sua intenção é evitar que mais venezuelanos entrem no Estado através de Pacaraima, município do qual foi prefeito, que faz fronteira com o país vizinho.

Numa linguagem que parece copiada do presidente americano Donald Trump, Quartiero se justifica: “A nossa prioridade é Roraima, o habitante de Roraima. Esse que paga nosso salário. Nós temos que atender ele. A questão humanitária tem a ONU, tem nações ricas que podem ajudar. Nós estamos no limite. Estive com as forças de segurança, eles falaram da dificuldade de frear essa vinda. Acho que a população tinha que se conscientizar e parar de dar alimentos, apoio, porque isso aí vai nos levar à desgraça. Quanto mais dá, mais vai vir gente e nós vamos chegar ao limite de ficar pior que eles”.

Em abril de 2015 ele se declarou insatisfeito com o governo e disposto a abandonar a base aliada. Mas acabou ficando, a pretexto de que seu desejo é contribuir com “o melhor possível para que esse Estado tenha melhora, autoridade”. A oportunidade veio em boa hora, com a decisão da governadora Suely Campos, do PP, de se licenciar do cargo por uma semana, sem dar qualquer informação sobre o motivo do seu afastamento. A resposta, talvez quem a deu foi o próprio Quartiero. Não podia ter sido mais ameaçadora para índios e venezuelanos.

 

A fotografia que ilustra esse artigo é da Comunidade Indígena do Anzol, da qual a demarcação foi comemorada por Dilson Ingarikó (Foto: Jorge Macêdo/Amazônia Real)

 

Lúcio Flávio Pinto é jornalista desde 1966. Sociólogo formado pela Escola de Sociologia e Política de São Paulo, em 1973. Editor do Jornal Pessoal, publicação alternativa que circula em Belém (PA) desde 1987. Autor de mais de 20 livros sobre a Amazônia, entre eles, Guerra Amazônica, Jornalismo na linha de tiro e Contra o Poder. Por seu trabalho em defesa da verdade e contra as injustiças sociais, recebeu em Roma, em 1997, o prêmio Colombe d’oro per La Pace. Em 2005 recebeu o prêmio anual do Comittee for Jornalists Protection (CPJ), em Nova York, pela defesa da Amazônia e dos direitos humanos. Lúcio Flávio é o único jornalista brasileiro eleito entre os 100 heróis da liberdade de imprensa, pela organização internacional Repórteres Sem Fronteiras em 2014. Leia mais aqui. Veja outros artigos do autor.

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