Questão Agrária

Polícia de Rondônia investiga sumiço de quatro agricultores em suposto conflito agrário em Lábrea (AM)

Região Sul do Amazonas. (Foto: Amreal)
12/09/2015 18:03

Os desaparecidos trabalhavam na abertura de uma picada (caminho na mata) dentro de um assentamento do Incra, quando se depararam com madeireiros derrubando árvores em terras públicas.

 

As Polícias Civil e Militar de Rondônia realizam buscas neste sábado (12/09) para localizar quatro agricultores desaparecidos durante um suposto conflito agrário com madeireiros, ocorrido na última quinta-feira (10/09), no Projeto de Assentamento Florestal (PAF) Curuquetê, no sul de Lábrea, a 702 quilômetros de Manaus (AM). Outros cinco trabalhadores rurais estariam feridos por arma de fogo, segundo a polícia.

A Comissão Pastoral da Terra (CPT) comunicou o caso à Polícia Federal, ao Ministério Público Federal e a Secretarias de Segurança Pública do Amazonas e de Rondônia, disse Maria Clara Ferreira Mota, coordenadora da CPT no Amazonas, à Amazônia Real.

Segundo a Polícia Civil de Rondônia, cerca de 30 policiais, inclusive um delegado, foram enviados para o assentamento Curuquetê, que é administrado pelo Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária), mas não regularizado. Até às 18h as buscas não tinham terminado, diz a polícia.

“A informação (do motivo) é de um suposto conflito agrário, mas ainda não confirmamos. Se confirmar, o inquérito será aberto em Lábrea, no Amazonas”, disse neste sábado (11/09) um policial de Rondônia, que preferiu não se identificar.

Pela proximidade da divisa com o Estado de Rondônia, familiares dos quatro homens desaparecidos registraram na sexta-feira (11/09) um Boletim de Ocorrência na 9ª. Delegacia de Polícia Civil de Extrema, que fica a 180 quilômetros de distância do PAF Curuquetê.

A agência Amazônia Real teve acesso ao Boletim de Ocorrência por meio da Comissão Pastoral da Terra. O documento diz que um grupo de oito homens entraram na floresta do assentamento Curuquetê ainda na quinta-feira (10/09) para fazer buscas aos desaparecidos. Eles trabalhavam na abertura de uma picada (caminho na mata), quando se depararam com madeireiros derrubando árvores em terras públicas. Durante as buscas, o grupo encontrou um homem identificado pelo nome Éden, que teria escapado do suposto conflito.

“Ele (Éden) disse que avistou cinco homens armados e, com eles, estava Luiz Machado, conhecido madeireiro da região, o qual está em litígio com produtores rurais. Os feridos são Sidney, Osmar, Derson, Claudino e Adenilson. Os desaparecidos são Renato Stosch, Zaqueu, Zé Luiz e Negão”, disse uma dos familiares que registraram o Boletim do Ocorrência. O nome dele está em sigilo devido a investigação.

De acordo com a Comissão Pastoral da Terra, o madeireiro Luiz Machado é um dos envolvidos na morte do líder camponês Adelino Ramos, o Dinho, 57 anos, em maio de 2011. Ramos pertencia ao MCC (Movimento Camponês Corumbiara) e foi assassinado por pistoleiros em Vista Alegre do Abunã, um distrito localizado em Rondônia, na divisa com o Amazonas. Adelino Ramos era a principal liderança do PAF Curuquetê.

Projeto de Assentamento Florestal Curuquetê, em 2011. (Foto: Ibama)

Projeto de Assentamento Florestal Curuquetê (Foto: Ibama)

 

O Projeto de Assentamento Florestal Curuquetê ainda não foi regularizado, segundo Maria Clara Ferreira Mota, da CPT.  Crimes de grilagem, desmatamentos de terras públicas e a pressão dos pistoleiros esvaziaram o projeto.

 

“Os órgãos não foram competentes também para regularizar as famílias no assentamento Curuquetê. As famílias que vivem lá sofrem total ausência do Estado. É por isso que os conflitam estão acontecendo”, disse a coordenadora da CPT.

“Enquanto não houver uma reforma agrária, uma atitude para assentar as famílias do Curuquetê, as pessoas vão continuar morrendo em conflito de terra. Continua as mortes e o governo nada faz”, completou a Maria Clara Ferreira Mota.

Se o conflito agrário no PAF Curuquetê se confirmar este será o segundo registrado em 2015 no Amazonas depois do brutal assassinato da líder da comunidade Portelinha, Maria das Dores Salvador Priante, 54, em Iranduba (na região metropolitana de Manaus), no dia 12 de agosto passado.

No Amazonas, segundo levantamento da CPT, 38 pessoas estão ameaçadas de morte por conflitos agrários, em 2015. No relatório de 2014, eram 40 pessoas ameaçadas. Em 2013 foram 21 pessoas.

A região de conflito conhecida como “o faroeste amazônico” se estende entre os municípios de Canutama, Lábrea e Manicoré, todas localizadas no sul do Estado do Amazonas. O motivo dos conflitos são a falta de regularização fundiária, de ações de políticas públicas e ausência de policiamento da Segurança Pública do Amazonas. O local também sofre com a forte pressão de grilagens e desmatamentos de terras públicas por fazendeiros, que produzem gado.

A agência Amazônia Real procurou a Polícia Federal do Amazonas, mas esta informou que as investigações do suposto conflito no assentamento Curuquetê estão a cargo da PF de Rondônia, que ainda não se manifestou. A reportagem não localizou membros da Secretaria de Segurança Pública do Amazonas para comentar o caso.

 

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