Política

Polícia Militar encerra sem sucesso buscas aos garimpeiros sumidos na reserva Uatumã

Buscas ao grupo de garimpeiros na reserva do Uatumã. (Foto: Divulgação PC)
28/04/2016 15:55

 

O tenente Paulo Sérgio Cordeiro, da Companhia Independente de Policiamento com Cães (Cipcães), disse à agência Amazônia Real que a Polícia Militar do Amazonas encerrou as buscas aos nove garimpeiros desparecidos há mais de cinco meses dentro da Reserva Biológica de Uatumã, que fica no município de Presidente Figueiredo (AM), a 107 quilômetros de Manaus. A terceira operação de buscas ao grupo terminou sem resultados, assim como aconteceu em outras duas ações anteriores.

Segundo o tenente Paulo Sérgio Cordeiro, a operação aconteceu de 24 de março a 1º. de abril e contou com as participações de cinco soldados da PM, dois operadores de rádio, quatro pilotos e um servidor do Instituto Chico Mendes da Biodiversidade (ICMBio), órgão vinculado ao Ministério do Meio Ambiente, responsável pela gestão da reserva Uatumã, além de três cães, sendo dois de busca e um de guarda.

“As buscas foram encerradas. Mas se a Polícia Civil nos indicar uma nova pista, em um lugar por onde não tenhamos passado, voltamos lá”, afirmou o tenente Paulo Sérgio Cordeiro.

O desaparecimento dos nove garimpeiros, entre eles uma mulher, foi registrado no dia 8 de novembro de 2015. A Polícia Civil do Amazonas diz que o grupo entrou para garimpar ouro ilegalmente dentro da reserva Uatumã.

De acordo com a Polícia Civil, os garimpeiros desaparecidos são: José Helenilton Moura Alves, 51 anos, Afonso Pereira de Souza, 26 anos, Emerson Neves Nascimento, 19 anos, Luiz Ferreira dos Santos, 54 anos, Ivanildo Marques dos Santos, 39 anos, Lucas Santos de Souza, 18 anos, Jolar André Broch, 53 anos, João Batista Sobrinho – idade não informada – e Cristiane Batista Barbosa, 18 anos.

O delegado Valdinei Silva, da 37ª Delegacia Interativa de Polícia Civil de Presidente Figueiredo, que coordena as investigações e relatou o inquérito à Justiça, apresentou duas suspeitas para o sumiço do grupo: crime relacionado à exploração ilegal de ouro ou um acidente. Uma terceira suspeita, um possível ataque por índios isolados, foi descartada. Silva anunciou o final das buscas pela Civil em janeiro deste ano. 

Cleonice Santos, mulher do pescador Luiz Ferreira dos Santos, um dos desaparecidos. (Foto: Alberto César Araújo/AmReal)

Cleonice Santos, mulher do pescador Luiz Ferreira dos Santos, um dos desaparecidos. (Foto: Alberto César Araújo/AmReal)

Procurados pela Amazônia Real, os familiares disseram que não aceitam o final das buscas pela polícia e vão continuar a fazer uma investigação paralela. “São nove pessoas desaparecidas, nossas famílias estão desesperadas. As autoridades não podem esquecer esse caso”, disse à reportagem Cleonice Santos, 59 anos, mulher do pescador Luiz Ferreira dos Santos, um dos desaparecidos.

Além do marido de Cleonice Santos, estão desaparecidos mais dois familiares: o sobrinho Emerson Neves Nascimento e José Helenilton Moura Alves, casado com uma sobrinha dela.

Pai de Emerson e sogro de José Helenilton, o aposentado Adelson dos Santos Nascimento, 63 anos, disse nas três vezes que esteve na Reserva Biológica de Uatumã a procura de seus familiares também não obteve sucesso, mas vai continuar a procurá-los.

“Estamos tristes, a gente não teve resposta nenhuma [das autoridades]. Vamos continuar procurando, vamos buscar a verdade. Meu filho está lá, outras pessoas da família também, além de outras pessoas, não podemos deixar do jeito que está. Quero a verdade”, disse.

Nascimento contou que está arrecadando dinheiro para voltar à reserva. “A polícia diz que já fez o dever dela, então agora somos nós da família que vamos seguir com as buscas”, disse, sem informar quando vai retornar ao local onde desapareceram os nove garimpeiros.

 

O insucesso das buscas na floresta

Operação de buscas da Polícia Civil na reserva Utumã em janeiro (Foto: Divulgação PC)

Operação de buscas da Polícia Civil na reserva Utumã em janeiro (Foto: Divulgação PC)

A primeira operação de buscas aos garimpeiros desaparecidos na Reserva Uatumã coordenada pela Polícia Civil foi realizada de 18 a 24 de janeiro e contou com apoio da PM, Corpo de Bombeiros, guardas municipais e servidores do ICMBio. A polícia encontrou vestígios deles como uma máquina de lavar cascalho, mangueiras e roupas. Um familiar reconheceu as roupas de um deles.

Na ocasião, foi localizado um outro grupo de garimpeiros em atividade ilegal dentro da Reserva Biológica de Uatumã. Seis pessoas foram presas por crime ambiental.

Conforme as investigações da Polícia Civil, em depoimentos os garimpeiros presos disseram que não tinham relação com as nove pessoas desaparecidas. Eles também afirmaram que quando entraram na reserva o grupo já era dado como sumido dentro da reserva Uatumã.

A segunda operação de buscas aos desaparecidos foi realizada pela Cipcães no mês de fevereiro. O grupo é especialista em busca de perdidos na selva. O tenente Paulo Sérgio Cordeiro disse que durante essa ação foi vasculhada toda a área do rio Pitinga, um braço do rio Uatumã. Ele disse que, naquela ocasião, os policiais subiram o afluente, passando atrás da Mineradora Taboca. As buscas seguiram até um local chamado Pedrão, chegando próximo a BR-174, mas não encontraram os desaparecidos. 

À agência Amazônia Real, o tenente Cordeiro disse que a terceira operação de buscas aos nove desaparecidos começou no dia 24 de março e terminou no dia 1 de abril. A Reserva Biológica de Uatumã tem mais de 938 mil hectares de floresta densa, com muitos cursos d´águas e a presença de animais silvestres. Ele disse que as buscas começaram pelo lago da hidrelétrica de Balbina. O barco que levou a equipe desceu o rio chegando até base do ICMBio.

“De lá nos deslocamos direito para a segunda base, dentro do mato, e subimos o rio Pitinga, onde tem dois cruzamentos: um para o rio Pitingão, que já percorremos antes, e o outro para o rio Pitinguinha, que percorremos agora, mas não encontramos nada. Fomos até onde era possível seguir”, afirmou o tenente Cordeiro.

Ele disse que foram vistoriados mais de 20 pontos mapeados por GPS. As buscas foram realizadas de barco e com caminhadas em trilhas. “Fomos até um local que disseram ter um novo garimpo em atividade, mas não havia nada. Também seguimos duas trilhas que levaram a garimpos antigos, mas igualmente não achamos nada. Chegamos a lugares que o próprio ICMBio nunca havia percorrido”, contou.  

O último local vasculhado foi o acampamento montado pelos garimpeiros, assim que chegaram à reserva. Os policiais já estiveram nesse lugar outras vezes e não os encontraram. “Estava tudo do mesmo jeito. Só o cão que encontrou um buraco onde [os garimpeiros] guardaram carne de caça, enrolada em folha de bananeira. Estava salgada e enterrada. Era a medida certa, compatível com o tempo em que estiveram lá”, afirmou.

 

A falta de estrutura da Civil

Policiais encontraram diversos crimes ambientais na reserva Uatumã (Foto: Divulgação PC)

Policiais encontraram diversos crimes ambientais na reserva Uatumã (Foto: Divulgação PC)

Procurado pela reportagem para falar sobre o término das buscas pela Polícia Militar, o delegado Valdinei Silva, que comanda as investigações, disse que a Polícia Civil não tem como realizar nova busca aos desaparecidos. “Precisamos de uma grande estrutura logística para fazer essa investigação. Precisamos de pelo menos 50 homens e apoio de aeronaves”, afirmou.

O delegado já relatou o inquérito à Justiça, mesmo sem uma resposta para os desaparecimentos, e aguarda o retorno da documentação com as medidas que devem ser adotadas. “Quando o inquérito retornar farei novas diligências, já que não foi concluído. Preciso verificar os despachos do juiz e promotor do caso, além de avaliar novas informações que recebemos”, disse.

Para Silva, o caso é emblemático e necessita apoio dos órgãos que compõem a segurança pública. “Não temos recurso para retomar as buscas no momento. Mas continuamos investigando, recebemos recentemente uma informação e estamos apurando”, disse, sem relevar mais detalhes.

 

Garimpeiros partiram de Rumo Certo

De acordo com as investigações da Polícia Civil, os nove garimpeiros desaparecidos entraram na Reserva Biológica de Uatumã no dia 8 de novembro de 2015. 

A polícia diz que o grupo foi levado à reserva por um barqueiro da Comunidade Rumo Certo, em Presidente Figueiredo. Esse local fica a no km 15 à margem do rio Pitinguinha e foi onde os garimpeiros montaram a base da atividade ilegal.

“Eles cavaram em alguns locais e fizeram testes para achar ouro. Aparentemente o rio secou e eles foram garimpar em outro local. Durante as buscas, subimos mais um pouco o rio, mas não encontramos nenhum vestígio deles”, disse o delegado Valdinei Silva.

Durante as buscas a polícia prendeu seis garimpeiros dentro da Reserva Biológica de Uatumã, mas num local chamado “garimpo do Estevam”. Esse grupo foi preso por crime ambiental, mas pagou fiança e está respondendo ao processo em liberdade. Nos depoimentos, o delegado diz que esses garimpeiros afirmam que estavam há três dias na região e não tinham qualquer relação com o grupo desaparecido.

Segundo o delegado, o “garimpo do Estevam” havia sido repassado há pouco tempo para os seis garimpeiros que foram presos. O caso chamou a atenção do delegado. “Existia um grupo anterior trabalhando, mas ele saiu às pressas. Não sei se com medo da fiscalização que iríamos realizar [à procura dos desaparecidos] ou se há outro motivo. Todo o equipamento que encontramos nesse garimpo foi vendido para este grupo detido. Mas ninguém abandona um garimpo assim”, observou o delegado.

O homem identificado como antigo proprietário do garimpo e que dá nome ao local, Estevam, morava em Rumo Certo, mas ele foi embora da comunidade, diz o delegado Silva, que já tentou interrogá-lo, mas não o encontrou. O policial acredita que Estevam pode ter informações sobre o desaparecimento dos garimpeiros. 

A agência Amazônia Real procurou a assessoria de imprensa o Instituto Chico Mendes da Biodiversidade (ICMBio), que administra a reserva Uatumã, mas o órgão não respondeu às perguntas enviadas sobre as ações de combate aos garimpos ilegais dentro da unidade. A Polícia Federal, que é a responsável por investigar crimes dentro de unidades de conservação federais, disse anteriormente que está fazendo um levantamento sobre eventuais registros de garimpagem na região, mas não anunciou quando divulgará o documento.

 

 Leia a reportagem especial sobre o caso: 

Grupo de nove garimpeiros está desaparecido

há mais de 120 dias na floresta amazônica

 

 

Dona Cleonice  Nascimento dos Santos (Foto: Alberto César Araújo/AmReal)

Dona Cleonice Nascimento dos Santos (Foto: Alberto César Araújo/AmReal)

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