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Sobre as caçadas Sateré-Mawé – Parte 1

satere mawe kenia vartan
17/07/2017 13:40

Entre as recomendas aditivas às caçadas, existe uma que é comumente partilhada entre indígenas do Baixo Amazonas. Particularmente, os Sateré-Mawé entendem que não se deve caçar após o nascimento de um(a) filho(a) por causa da perseguição de uma das mostruosidades da mata. Caso contrário, além de não matarem nada, os nativos que procuram alvos podem enlouquecer por causa dos efeitos do odor da tapirayawara (anta-onça-cachorro). Ela é uma mostruosidade sagrada (entre demais existentes) que ataca e destroça infiéis ou desrespeitadores dos resguardos por sua aparência nefasta e de seu vínculo às divindades. Dessa maneira, se um humano caçar no período de resguardo do nascimento do filho algo intenso se apossará do seu corpo, como uma circunstância febril, produzida por uma descarga oriunda da presa abatida, tal e qual nesse ato se operasse uma vingança entre gentes e bichos.

Como exemplo, a panema e a mofina são dois componentes gerais e bastante popularizados da ontologia de caçadores da Amazônia. São estados confirmados por encontros pragmáticos, em um mundo particular, que a experiência dessas comunidades nativas confirma. A alimentação é, assim, estruturante até mesmo para a criação de necessidades ou regras de parentesco, que posteriormente são isoladas em quadros cosmológicos mais amplos, e essa estruturação abarca míticas e simbologias. A comida, da qual o parentesco também deriva, ela mesma é a consequência de predações, de canibalismos, mas também de comensalidades, porque assim sendo são marcadas as contingências da existência.

Reginaldo Batista, da etnia Sateré-Mawé, discorre sobre a divisão ou classificação das partes de um animal caçado, como partes indignas, partes dignas ou partes apropriadas para a alimentação corporal de um caçador. Ou seja, se um caçador de determinado clã encontrar em seu caminho um animal morto por uma onça e se suas partes estiverem destroçadas é melhor que ele não as consuma porque atrairia desgraça ou atos de vingança contra sua casa e sua família. Alguém ou algum animal poderia invadir sua morada e atacar sua mulher ou filhos. Um bicho escolheria a ele ou a sua família para alimentar-se em retaliação pela morte de outro animal menor. De tal maneira, ao caçador é aconselhável que não coma partes consideradas podres ou não puras ou de menor valor do animal abatido, tais como vísceras ou órgãos encharcados de fel. A prescrição se direciona à manutenção do físico com vigor e da alma sem enxertos mortuários e, por isso, pútridos em função do apodrecimento.

O caçador deve comer os talhos da musculatura do bicho matado, para que traga ao seu corpo a velocidade, a precisão e a força do animal quando vivo. Isso acarreta, conforme Philipe Descola, a seguinte consequência lógica: se os animais veem a si mesmos enquanto pessoas empenhadas em atividades socioculturais, então não é possível negar-lhes a humanidade que pretendem encarnar. Mas e se a humanidade não representasse exatamente algo bom ou desejável? Se a humanidade fosse um rebaixamento? Há que se considerar a humanidade como decaimento do ser, libertando-se do crivo da pessoalidade e da pretensa primazia homo sapiens, que em verdade só retira funções do outro, do não-humano. Ao contrário do dualismo pós-moderno, que desdobra uma multiplicidade de diferenças sobre o fundo de uma natureza imutável, o pensamento selvagem (para usar um termo mais à ordem lévi-straussiana) encara o cosmos inteiro como animado por um mesmo regime instituidor de vontades conscientes.

Essa orientação é diversificada não tanto por naturezas heterogêneas, mas por fundar modos diferentes de se apreender uns aos outros. Modos que atribuem pensamentos cognoscíveis, dentro de uma economia da inteligibilidade múltipla, geradora de conhecimentos universais sob diferentes ordenamentos. Também é importante projetarmos pensamentos sobre o fato de a natureza e a cultura não despontarem como unicidades adversárias. E provavelmente nem como unicidades. Elas são interligadas, como localismos globais existentes em bichos e gentes. E ainda. Não são conceitos díspares e concorrentes. Parecem mais categorias fundamentais de episteme e localização de gêneros globais agregadores, principiados sob aspectos transigentes.

 

A fotografia que ilustra esse artigo é da fotógrafa Kenia Vartan

 

Renan Albuquerque é professor e pesquisador do colegiado de jornalismo da Universidade Federal do Amazonas (Ufam) e desenvolve estudos relacionados a conflitos e impactos socioambientais entre índios Waimiri-Atroari, Sateré-Mawé, Hixkaryana, junto a atingidos pela barragem de Balbina e com assentados da reforma agrária.

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