Cultura

Existem desafios que preocupam os povos indígenas do rio Negro?

10/10/2016 19:08

JUSTINO SARMENTO REZENDE

Todas as mudanças que surgem transformam a vida das pessoas, deixam em dúvidas em muitas realidades, preenchem alguns vazios existenciais e criam outros vazios que ficam descobertos.

A negação das identidades indígenas é algo muito presente na vida dos jovens, adolescentes e crianças. Principalmente, quem vive nas cidades sofre esse tipo de medo. Levam muito tempo para se aceitarem serem indígenas.

O mundo atual em que os povos indígenas vivem é marcado pelo individualismo, vida desligada da vida comunitária.

Provocam medos as constantes mortes de muitos indígenas que são vítimas do alcoolismo. Muitas mortes resultam da desunião e brigas, esfaqueamentos, enforcamento, envenenamento. Alguns indígenas já estão a caminho de consumo de diversos tipos de drogas; uns são passadores de drogas; uns ainda tornaram transportadores de drogas.

A busca para manter novos estilos de vida custa caro para as famílias: manter celulares em funcionamento (recargas), músicas, danças, filmes, jogos, etc.

Todas essas realidades envolvem dinheiro e falta dele geram sentimentos de fracasso, insegurança, desespero e muitas vezes levam à morte.

A solidão é uma das características dos tempos atuais dos povos indígenas. Muitos velhinhos vivem sem amparo familiar, muitos estudantes vivem distantes (geograficamente) de suas famílias, desorientados na vida e sobre a vida. Há aumento de famílias que se separam, deixando seus filhos e filhas desnorteadas. Muitas jovens passam pela gravidez precoce, isto é, não estava planejada. Além dessas realidades surgem problemas de abusos das menores por próprios familiares e facilitação dos próprios familiares aos aliciadores e abusadores de menores, como em município de São Gabriel da Cachoeira alguns comerciantes foram denunciados e presos por pedofilia.

Entre os desafios presentes são as doenças emocionais, como tristeza, frustração, sentir-se desprezado, etc. Em contraste disso está a pouca capacidade saber lidar com a alegria, com o sucesso, com o dinheiro.

A conversa continuará

Sobre a contemporaneidade dos povos indígenas, apresento a poesia abaixo que eu organizei pela ocasião da Semana dos Povos Indígenas (21/04/2016), em São Gabriel da Cachoeira.

Homenageando a Nós Mesmos

Os povos indígenas

Levam nomes no coração,

Histórias nas memórias,

Sonhos nas mentes,

Agem com as mãos e as pernas,

Saem a pescar, caçar.

Plantam e colhem

Abacaxi, bananas, cará, mandioca.

Comem quinhapira, mujeca, moqueado.

Bebem manicoera, vinho de pupunha,

Vinho de bacaba, açaí, buriti,

Refrigerante, suco, cerveja.

Crianças correm na aldeia,

Nadam nos rios e cachoeiras.

Na cidade brincam nos parques.

Criança do interior brinca de pescar, caçar,

Criança da cidade brinca vídeo game,

Estudam, aprendem e sonham.

Concretizam seus sonhos,

Fazem pequenas, médias e grandes formaturas,

Tornam-se técnicos de informática,

Engenheiros eletrônicos,

Advogados, antropólogos,

Sociólogos, pedagogos, linguistas,

São pajés, xamãs, padres, pastores,

São dentistas, médicos, enfermeiros,

São tuxauas, caciques,

São vereadores, secretários,

São professores, gestores,

São militares, comerciantes,

Dançam cariço, mavaco, forró, pagode.

Trabalham com terçado, machado,

Trabalham com motosserras.

Manejam computadores, tablets, celulares.

Vivem na aldeia e na cidade,

Trabalham na fábrica, na loja.

Estão na escola municipal, estadual e universidade.

Falam diversas línguas,

Sua própria língua, língua portuguesa,

Inglês, espanhol.

Navegam remando,

Guiam grandes barcos e expressos.

Trabalham no Banco,

Na feira, no bar.

São líderes de comunidades,

São policiais civis.

Batem papo na porta de casa,

Batem papo na internet,

Transitam no mundo virtual,

Caminham a pé,

Vão de carro, ônibus,

Viajam de rabeta, motor de popa.

Alimentam-se de beiju, formigas, maniwaras, moxivas,

Comem x-tudo, x-salada, pizza,

Comem inambu, jacu, mutum,

Comem frango, peru.

São escritores, poetas, cantores, pintores.

São mecânicos, práticos,

São comunicadores nas rádios,

Pintam-se com pinturas tradicionais nas festas,

Seus corpos e suas faces,

Pintam cabelos e colocam batons,

Partilham comida e vendem,

Possuem geradores de luz,

Assistem a televisão,

Conhecem todo o mundo,

Alguns pisam no chão sem calçado,

Outros andam de sandálias, tênis, sapatos,

Andam de calção, calça, camisa, boné,

Andam de bermuda, saia,

Usam sabonetes, shampoo, desodorante, perfume,

Carregam seu aturá, cesto,

Outros carregam suas mochilas, pastas,

Ouvem música com outros parentes,

Outros põem fone de ouvido,

Ficam surdos para os outros,

Nós somos povos,

Muito mais do que conseguimos dizer,

Somos muito mais do que conseguimos enxergar,

Mais do que conseguimos sentir,

Mais do que conseguimos viver,

Somos mundos, culturas, comunidades,

E o que seremos amanhã é mistério,

Vamos sonhar, sonhar e sonhar!

 

 

A fotografia que ilustra este artigo é de Ray Baniwa/Foirn.

Leia os artigos anteriores a da série:

Povos Indígenas Contemporâneos do Rio Negro, no Amazonas

Como os povos indígenas do rio Negro constroem suas culturas? 

Como podemos perceber os valores das culturas indígenas contemporâneas?

Como acontece o encontro das culturas indígenas com as novas culturas do entorno

 

Justino Sarmento Rezende é indígena do povo Ʉtãpinopona-Tuyuka, nascido na aldeia Onça-Igarapé, distrito de Pari-Cachoeira, município de São Gabriel da Cachoeira (AM). É padre com formação em Licenciatura em Filosofia pela Universidade Católica de Brasília; Bacharelado em Teologia pela Faculdade Teológica Nossa Senhora da Assunção (SP) e Mestrado em Educação pela Universidade Católica Dom Bosco (MS). Entre as atividades que atua, estão a de professor da Secretaria de Educação do Amazonas e colaborador de Licenciatura Indígena Políticas Educacionais e Desenvolvimento Sustentável.

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