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Hidrelétricas e o IPCC: 3 – Escolha enviesada de literatura

23/01/2017 15:52

Na fotografia a imagem a destruição da floresta no canal da hidrelétrica de Belo Monte no rio Xingu, em Altamira, no Pará (Foto: Daniel Beltra/Greenpeace)

 

PHILIP. M. FEARNSIDE

A literatura utilizada no relatório especial então é reduzida porque o processo de seleção que foi adotado restringe a consideração para barragens onde as emissões haviam sido reportadas de forma “facilmente conversível para a unidade funcional escolhida para este estudo: gramas de CO2e por kWh gerado” ([1], p. 981) (ver também crítica por [2], que também lista numerosas omissões nos poucos estudos que foram usados nas estimativas globais do relatório especial). “CO2e”, ou “equivalentes de dióxido de carbono”, expressa os impactos sobre o aquecimento global de todos os gases, incluindo o metano (CH4) e óxido nitroso (N2O), em termos dos pesos de CO2 que teriam o mesmo efeito, com base no potencial de aquecimento global (GWP) de cada gás.

Uma fonte de emissões explicitamente excluída pelos autores do IPCC foi a mudança do uso da terra ([1], p. 981), mas barragens em áreas de floresta tropical, muitas vezes, provocam desmatamento com emissões significativas (e.g., [3]). Os resultados também tiveram que se encaixar em uma análise de ciclo de vida, e para estes foram usados o relatório especial “da forma publicada”, sem qualquer avaliação de precisão ou padronização, para os estudos que passaram pelos critérios de seleção ([1], p. 980).

A maioria dos 11 estudos de hidrelétricas presumiu uma vida útil de 100 anos, um fator que pesa a favor da energia hidrelétrica em cálculos como estes sem nenhum desconto por tempo (ver Seção 3.7). Observe que as análises de ciclo de vida são, muitas vezes, incompletas, com fontes de emissões diferentes sendo omitidas em estudos individuais (Tabela 1 em (veja a Parte 2 nesta série). Para inclusão no relatório, os estudos tiveram que incluir pelo menos duas fases do ciclo de vida, mas poderiam omitir outras fases sem quaisquer ajustes para estas omissões ([1], p. 980).

 Uma fase frequentemente omitida é a desativação de uma barragem no fim da sua vida útil. Justificativas para isso revelam a natureza seletiva das escolhas sobre o valor do tempo: a escolha virtualmente universal da indústria hidrelétrica é de não dar nenhum valor ao tempo, considerando a emissão de uma tonelada de carbono no primeiro ano, por exemplo, ter o mesmo valor que uma tonelada emitida um século no futuro. Mas, no caso de desmantelamento de uma barragem no final da vida o argumento oposto é usado: por exemplo, o estudo realizado por Denholm & Kulcinski ([4], p. 2158) usado no relatório especial do IPCC afirma que “embora não considerado na presente avaliação, a energia e as emissões relacionadas ao desmantelamento podem potencialmente ser descontadas devido a seus impactos em uma data futura”.

Embora o relatório especial seja dominado por represas não tropicais, a atual expansão de hidrelétricas concentra-se em regiões tropicais como a Amazônia (Figura 2), onde barragens emitem quantidades muito maiores de gases de efeito estufa do que em locais temperados e boreais. Exceções importantes para os trópicos como o local do atual boom de construção de barragens são: a China e locais de alta altitude nos Himalaias e Andes. As barragens nos trópicos úmidos dominam no Brasil, onde o Plano Decenal de Expansão de Energia do país para 2013-2022 prevê 18 “grandes” barragens até 2022 na região da Amazônia Legal [5]. No Brasil, “grandes” barragens são aquelas com mais de 30 MW de potência instalada [6].

 

mapa phil 4

Figura 2: Barragens sul-americanas mencionadas no texto: 1 =Itaipu, 2 = Tucuruí, 3 = Serra da Mesa, 4 = Xingó, 5 = Furnas, 6 = Estreito, 7 = Peixoto, 8 = Petit Saut, 9 = Balbina, 10 = Samuel, 11 = Belo Monte, 12 = Babaquara/Altamira, 13 = Curuá-Una. “Amazônia Legal” e “Bioma Amazônia” do Brasil também são mostrados.

 

NOTAS

[1] Moomaw, W., Burgherr, P., Heath, G., Lenzen, M., Nyboer, J., Verbruggen, A. 2012. Annex II: Methodology, In: Edenhofer, O., Pichs-Madruga, R., Sokona, Y., Seyboth, K., Matschoss, P., Kadner, S., Zwickel, T., Eickemeier, P., Hansen, G., Schlomer, S., von Stechow, C. (Eds.), IPCC Special Report on Renewable Energy Sources and Climate Change Mitigation. Cambridge University Press, Cambridge, Reino Unido, p. 973-1000. [Disponível em: http://www.ipcc.ch/pdf/special-reports/srren/srren_full_report.pdf].

[2] CO2list. 2011. Hydroelectricity Releases CO2. 01 de outubro de 2011. [Disponível em: http://co2list.weebly.com/1/post/2011/10/hydroelectricity-produces-co2.html].

[3] Barreto, P. Brandão Jr., A., Martins, H., Silva, D., Souza Jr., C., Sales, M., Feitosa, T. 2011. Risco de Desmatamento Associado à Hidrelétrica de Belo Monte. Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (IMAZON), Belém, Pará. 98 p. [Disponível em: http://www.imazon.org.br/publicacoes/livros/risco-de-desmatamento-associado-a-hidreletrica-de-belo-monte/at_download/file].

[4] Denholm, P., Kulcinski, G.L. 2004. Life cycle energy requirements and greenhouse gas emissions from large scale energy storage systems. Energy Conversion and Management 45(13-14): 2153-2172. doi:10.1016/j.enconman.2003.10.014.

[5] Brasil, MME (Ministério de Minas e Energia). 2013. Plano Decenal de Expansão de Energia 2022. MME, Empresa de Pesquisa Energética (EPE). Brasília, DF, Brazil. 409 p. [Disponível em: http://www.epe.gov.br/PDEE/24102013_2.pdf].

[6] Isto é uma tradução parcial atualizada de Fearnside, P.M. 2015. Emissions from tropical hydropower and the IPCC. Environmental Science & Policy50: 225-239. http://dx.doi.org/10.1016/j.envsci.2015.03.002. As pesquisas do autor são financiadas por: Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) (processos nº305880/2007-1, nº304020/2010-9, nº573810/2008-7, nº575853/2008-5), Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas (FAPEAM) (processo nº 708565) e Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA) (PRJ13.03). M.A. dos Santos Junior elaborou a figura.

 

Leia os artigo da série: Hidrelétricas e o IPCC 

Hidrelétricas e o IPCC: 2 – Barragens nos relatórios e diretrizes

 

Philip M. Fearnside é doutor pelo Departamento de Ecologia e Biologia Evolucionária da Universidade de Michigan (EUA) e pesquisador titular do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), em Manaus (AM), onde vive desde 1978. É membro da Academia Brasileira de Ciências e também coordena o INCT (Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia) dos Serviços Ambientais da Amazônia. Recebeu o Prêmio Nobel da Paz pelo Painel Intergovernamental para Mudanças Climáticas (IPCC), em 2007. Tem mais de 500 publicações científicas e mais de 200 textos de divulgação de sua autoria que estão disponíveis neste link

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