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Hidrelétricas e o IPCC: 6 – As diretrizes de 2006

Hidrelétrica Jirau, em Rondônia (Foto:  Lunae Parracho/Greenpeace)
13/02/2017 17:10

 

PHILIP MARTIN FEARNSIDE

O IPCC produziu um novo conjunto de diretrizes em 2006, que fornece informações para as emissões de reservatório em um apêndice. A 17a Conferência das Partes (COP-17), realizada em Durban (África do Sul) em 2011, decidiu que as diretrizes de 2006 do IPCC seriam usadas para os inventários nacionais começando em 2015 para os países de Anexo I (Decisão 15/CP.17: [1]). Para relatar emissões de metano, o Tier 1 é especificado para incluir apenas as emissões relativamente modestas que ocorrem por meio de difusão da superfície do reservatório.

Os países podem optar para relatar as emissões de ebulição das superfícies do reservatório no Tier 2, mas as grandes emissões de metano a partir das turbinas são relatadas somente no Tier 3, raramente utilizado ([2], Vol. 4, Apêndice 3). O apêndice sobre reservatórios nas orientações de 2006 ([2] IPCC, 2006, Vol. 4, Apêndice 3) é identificado como uma atualização das orientações de boas práticas, do IPCC ([3], Apêndice 3a.3), mas nem todas as alterações representam adições: a tabela de dados sobre as emissões de ebulição desapareceu ([3], Apêndice 3a.3, p. 3.290, Tabela 2A.3.4 versus [2], Vol. 4, Apêndice 3, p. Ap.3.5, Tabela 2A.2).

A reunião-chave que resultou nesta seção das orientações foi descrita da seguinte maneira por um dos participantes: “a nossa última reunião (Sydney [Austrália], em dezembro passado) foi muito difícil. Conclusão política: Emissões de CO2 devem permanecer no corpo principal das orientações de 2006 do IPCC, mas o CH4 será num anexo…as emissões de bolhas e desgaseificação só são consideradas, respectivamente, sob as abordagens dos Níveis 2 e 3. O perito da Hydro-Quebec argumenta que nós não temos conhecimento suficiente para emissões difusivas de CH4… ” [4].

O apêndice (“anexo”) às diretrizes de 2006 do IPCC fornece um valor padrão (“default”) para o fluxo de difusão de metano a partir de superfícies reservatórios tropicais ([2], Vol. 4, Apêndice 3, p. Ap.3.5). Isso é calculado como o valor mediano de uma série de medições publicadas para diferentes reservatórios. A mediana é usada em vez da média, porque a distribuição de valores é altamente distorcida.

A mediana é frequentemente usada em vez da média como uma forma de minimizar o efeito de valores “outlier” (valores fora da faixa esperada) que são o resultado de erros de medição. No entanto, a distribuição desigual dos valores de fluxo de metano não é o resultado de erro de medição, mas sim uma característica do próprio sistema. Na maioria dos dias, a taxa de emissão será modesta, mas menos frequentemente haverá grandes explosões de emissão.

Uma situação similar aplica-se aos dados de diferentes reservatórios. Sendo que o objetivo do valor padrão do IPCC é para a estimativa de um total anual de emissões, a métrica necessária não é aproximada melhor pela mediana, mas sim pela média. Usando uma mediana efetivamente descarta o efeito dos reservatórios de alta emissão (i.e., casos como Balbina, mesmo se eles tivessem sido incluídos), mas isto não pode ser feito sem enviesar o resultado.

O apêndice das diretrizes do IPCC de 2006 ([2], Vol. 4, Apêndice 3, p. Ap3.5) cita os seguintes documentos como base para seu valor padrão para a difusão de CH4 das superfícies de reservatórios nos trópicos úmidos [ou seja, Tier 1]: [5-12]. Não há valores padrão fornecidos para ebulição [ou seja, Tier 2], mas o apêndice afirma que “informações úteis podem ser obtidas das seguintes referências”: [5, 6, 13-22] ([2], Vol. 4, Apêndice 2, p. Ap2.2). Nem as referências bibliográficas nem os valores padrão são dados para desgaseificação nas turbinas [ou seja, Tier 3], embora um conselho muito bom e amplamente ignorado é dado que “concentrações de CH4 a montante e a jusante das barragens seriam necessárias para estimar as emissões a partir da desgasificação” ([2], Vol. 4, Apêndice 3, p. Ap3.5). Observe-se que nenhum dos documentos listados acima foi usado no relatório especial do IPCC (ver a Tabela 1 na Parte 2 desta série) [23].

 

NOTAS

[1] UNFCCC (United Nations Framework Convention on Climate Change). 2012. Report of the Conference of the Parties on its seventeenth session, held in Durban from 28 November to 11 de dezembro de 2011 [Disponível em: http://unfccc.int/resource/docs/2011/cop17/eng/09a02.pdf].

[2] IPCC (Intergovernmental Panel on Climate Change). 2006. 2006 IPCC Guidelines for National Greenhouse Gas Inventories. Eggleston, H.S., Buendia, L., Miwa, K., Ngara, T., Tanabe, K. (Eds.), Institute for Global Environmental Strategies (IGES), Kanagawa, Japão. [Disponível em: http://www.ipcc-nggip.iges.or.jp/public/2006gl/index.html].

[3] IPCC (Intergovernmental Panel on Climate Change). 2003. Good Practice Guidance for Land Use, Land-Use Change and Forestry. Penman, J., Gytarsky, M., Hiraishi, T., Krug, T., Kruger, D., Pipatti, R., Buendia, L., Miwa, K., Ngara, T., Tanabe, K., Wagner, F. (Eds.), Institute for Global Environmental Strategies (IGES), Kanagawa, Japão. [Disponível em: http://www.ipcc-nggip.iges.or.jp/public/gpglulucf/gpglulucf.html].

[4] Duchemin É. 2006. Dear Patrick. Email to International Rivers 3 March 2006. [Disponível em: http://philip.inpa.gov.br/publ_livres/Dossie/Hydro-GHG/Duchemin-email-2006.pdf].

[5] Abril, G., Guérin, F., Richard, S., Delmas, R., Galy-Lacaux, C., Gosse, P., Tremblay, A., Varfalvy, L., dos Santos, M.A., Matvienko, B. 2005. Carbon dioxide and methane emissions and the carbon budget of a 10-years old tropical reservoir (Petit-Saut, French Guiana). Global Biogeochemical Cycles 19, GB 4007. doi: 10.1029/2005GB002457.

[6] de Lima, I.B.T. 2002. Emissão de Metano em Reservatórios Hidrelétricos Amazônicos através de Leis de Potência. Tese de doutorado, Universidade de São Paulo, São Paulo, SP, 108 p. [Disponível em: http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/64/64132/tde-21112002-095409/publico/teseivan.pdf].

[7] Duchemin, É., Lucotte, M., Canuel, R., Almeida Cruz, D., Pereira, H.C., Dezincourt, J., Queiroz, A.G. 2000. Comparison of greenhouse gas emissions from an old tropical reservoir and from other reservoirs worldwide. Verhandlungen Internationale Vereinigung für Theoretische und Angewandte Limnologie 27(3): 1391-1395.

[8] Galy-Lacaux, C. 1996. Modifications des Echanges de Constituants Mineurs Atmosphériques Liées à la Création d’une Retenue Hydroélectrique. Impact des Barrages sur le Bilan du Méthane dans l’Atmosphère. PhD dissertation, Université de Toulouse 3, Toulouse, França. 210 p.

[9] Galy-Lacaux, C., Delmas, R., Jambert, C., Dumestre, J.-F., Labroue, L., Richard, S., Gosse, P. 1997. Gaseous emissions and oxygen consumption in hydroelectric dams: A case study in French Guyana. Global Biogeochemical Cycles 11: 471-483. doi: 10.1029/97GB01625.

[10] Keller, M., Stallard, R.F. 1994. Methane emission by bubbling from Gatun Lake, Panama. Journal of Geophysical Research 99(D4): 8307-8319. doi: 10.1029/92JD02170.

[11] Rosa, L.P., Matvienko Sikar, B., dos Santos, M.A., Matvienko Sikar, E. 2006a. Emissões de Dióxido de Carbono e de Metano pelos Reservatórios Hidrelétricos Brasileiros. Primeiro Inventário Brasileiro de Emissões Antrópicas de Gases de Efeito Estufa: Relatórios de Referência. Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT), Brasília, DF, 118 p. [Disponível em: http://www.mct.gov.br/upd_blob/0008/8855.pdf].

[12] Therrien, J. 2004. Flux de Gaz à Effet de Serre en Milieux Aquatiques – Suivi 2003. Rapport de GENIVAR Groupe Conseil Inc. présenté à Hydro-Québec, GENIVAR Groupe Conseil Inc. Québec City, Québec, Canadá. 52 p. + anexos.

[13] Delmas, R., Richard, S., Guérin, F., Abril, G., Galy-Lacaux, C., Delon, C., Grégoire, A. 2005. Long term greenhouse gas emissions from the hydroelectric reservoir of Petit Saut (French Guiana) and potential impacts, In: Tremblay, A., Varfalvy, L., Roehm, C., Garneau, M. (Eds.), Greenhouse Gas Emissions: Fluxes and Processes. Hydroelectric Reservoirs and Natural Environments, Springer-Verlag, New York, NY, E.U.A., p. 293-312.

[14] Duchemin É. 2000. Hydroelectricity and Greenhouse Gases: Emission Evaluation and Identification of Biogeochemical Processes Responsible for their Production. Tese de doutorado, Université du Québec à Montréal, Montréal, Québec, Canadá. 321 p.

[15] Duchemin, É., Lucotte, M., Canuel, R., Chamberland, A. 1995. Production of the greenhouse gases CH4 and CO2 by hydroelectric reservoirs of the boreal region. Global Biogeochemical Cycles 9(4): 529-540. doi: 10.1029/95GB02202.

[16] Duchemin, É., Canuel, R., Ferland, P., Lucotte, M. 1999. Étude sur la production et l’émission de gaz à effet de serre par les réservoirs hydroélectriques d’Hydro-Québec et des lacs naturels (Volet 2), Scientific report, Direction principal Planification Stratégique – Hydro-Québec, 21046-99027c, Hydro-Québec, Montréal, Québec, Canadá. 48 p.

[17] Duchemin, E., Lucotte, M., Canuel, R., Soumis, N. 2006. First assessment of CH4 and CO2 emissions from shallow and deep zones of boreal reservoirs upon ice break-up. Lakes and Reservoirs, Research and Management 11: 9-19. doi: 10.1111/j.1440-1770.2005.00285.x

[18] Huttunen, J.T., Väisänen, T.S., Hellsten, S.K., Heikkinen, M., Nykänen, H., Jungner, H., Niskanen, A., Virtanen, M.O., Lindqvist, O.V., Nenonen, O.S., Martikainen, P.J. 2002. Fluxes of CH4, CO2, and N2O in hydroelectric reservoir Lokka and Porttipahta in the northern boreal zone in Finland. Global Biogeochemical Cycles 16, 1, doi:10.1029/2000GB001316.

[19] Rosa, L.P., Schaeffer, R., Santos, M.A. 1996. Are hydroelectric dams in the Brazilian Amazon significant sources of greenhouse gases? Environmental Conservation 66: 2-6. doi: 10.1017/S0376892900038194.

[20] Rosa, L.P., dos Santos, M.A., Matvienko, B., dos Santos, E.O., Sikar, E. 2004. Greenhouse gases emissions by hydroelectric reservoirs in tropical regions. Climatic Change 66: 9-21. doi: 10.1023/B:CLIM.0000043158.52222.ee.

[21] Soumis, N., Duchemin, É., Canuel, R., Lucotte, M. 2004. Greenhouse gas emissions from reservoirs of the western United States. Global Biogeochemical Cycles 18, GB3022, doi:10.1029/2003GB002197.

[22] Therrien, J. 2005. Aménagement Hydroélectrique de l’Eastmain-1 – Étude des Gaz à Effet de Serre en Milieux Aquatiques 2003-2004. Rapport de GENIVAR Groupe Conseil Inc. à la Société d’énergie de la Baie James. GENIVAR Groupe Conseil Inc. Québec City, Québec, Canadá, 48 p. + anexos.

[23] Isto é uma tradução parcial atualizada de Fearnside, P.M. 2015. Emissions from tropical hydropower and the IPCC. Environmental Science & Policy50: 225-239. http://dx.doi.org/10.1016/j.envsci.2015.03.002. As pesquisas do autor são financiadas por: Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) (processos nº305880/2007-1, nº304020/2010-9, nº573810/2008-7, nº575853/2008-5), Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas (FAPEAM) (processo nº 708565) e Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA) (PRJ13.03).

 

A fotografia que ilustra esse artigo é da Usina Hidrelétrica Jirau, em Rondônia (Foto:  Lunae Parracho/Greenpeace)

 

Leia os artigos da série: Hidrelétricas e o IPCC 

Hidrelétricas e o IPCC: 2 – Barragens nos relatórios e diretrizes 

Hidrelétricas e o IPCC: 3 – Escolha enviesada de literatura 

Hidrelétricas e o IPCC: 4 – Barragens tropicais emitem mais 

Hidrelétricas e o IPCC: 5 – Emissões de gases nos inventários nacionais

 

Philip M. Fearnside é doutor pelo Departamento de Ecologia e Biologia Evolucionária da Universidade de Michigan (EUA) e pesquisador titular do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), em Manaus (AM), onde vive desde 1978. É membro da Academia Brasileira de Ciências e também coordena o INCT (Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia) dos Serviços Ambientais da Amazônia. Recebeu o Prêmio Nobel da Paz pelo Painel Intergovernamental para Mudanças Climáticas (IPCC), em 2007. Tem mais de 500 publicações científicas e mais de 200 textos de divulgação de sua autoria que estão disponíveis neste link

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