Economia e Negócios

Profissão jornalista: Empresas é que estão em crise e não o jornalismo, diz pesquisadora

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09/05/2016 12:57

A jornalista Mirna Feitoza diz que, enquanto prática cultural e humana, nunca o jornalismo esteve tão fértil. (Foto: Alberto César Araújo/Amreal)

 

A professora e pesquisadora do Departamento de Comunicação da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), jornalista Mirna Feitoza, considera que as demissões constantes nas redações atingem o processo de produção da notícia. E neste processo, segundo ela, o que fica comprometido é a reportagem, pois demanda tempo e condições para o repórter ir a campo em busca de histórias relevantes.

“O jornalismo hoje é refém das assessorias de imprensa. ‘Ouvir o outro lado’, hoje, significa entrar em contato com a assessoria de imprensa e divulgar uma nota oficial. Não há mais fontes que informem os bastidores da notícia”, observou a professora, em entrevista concedida à Amazônia Real.

Mirna Feitoza conta, no entanto, que são as empresas jornalísticas tradicionais que estão em crise, e não o jornalismo, que, segundo ela, está cada vez mais fértil.

“Esse modelo está se esgotando, assim como a indústria e a sociedade de consumo. Por outro lado, o jornalismo, enquanto prática cultural e humana, nunca esteve tão fértil. São várias as iniciativas jornalísticas que surgem a partir de coletivos de ativistas e de jornalistas empreendedores que passam a impactar a opinião pública”, destaca.

Mirna Feitoza é jornalista graduada em Comunicação Social pela Ufam e é doutora em Comunicação e Semiótica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC/SP). Na Ufam, ministra disciplinas relacionadas às teorias e práticas jornalísticas e às teorias, metodologias e epistemologias da comunicação. Desde 2013, ela coordena o projeto experimental LabF5, o Laboratório de Jornalismo Digital da Ufam, vinculado à disciplina Webjornalismo. Desenvolve também pesquisas na área de Comunicação, atuando em temas como processos da comunicação midiática. Trabalhou em veículos como o jornal Folha de S. Paulo e  TV Cultura, em Manaus. É co-organizadora, junto com Lúcia Santaella, do livro “Mapa do Jogo. A Diversidade Cultural dos Games”, vencedor do Prêmio Jabuti (3º lugar). Leia a entrevista abaixo:

 

Amazônia Real – Quais são os reflexos das demissões nas redações na sala de aula?

Mirna Feitoza – Antes de tudo, a questão que você propõe está inserida num contexto muito mais amplo, pois não se refere apenas às redações e à sala de aula, tampouco se restringe ao jornalismo. No limite, estamos diante da crise do capitalismo industrial e da sociedade de consumo, na qual estão inseridas as empresas jornalísticas tradicionais. Neste sentido, a crise é das empresas responsáveis pelos veículos de imprensa tradicionais, cujo modelo de negócios está baseado na produção industrial em larga escala, portanto, padronizada e massificada, tendo a publicidade como fonte de renda. Esse modelo está se esgotando, assim como a indústria e a sociedade de consumo. Por outro lado, o jornalismo, enquanto prática cultural e humana, nunca esteve tão fértil. São várias as iniciativas jornalísticas que surgem a partir de coletivos de ativistas e de jornalistas empreendedores que passam a impactar a opinião pública. Este é o ponto: a matéria-prima do jornalismo não depende mais da exploração das empresas jornalísticas; a notícia se descolou das empresas jornalísticas e também chega à opinião pública. Isto, sim, é transformador, pois pressupõe também uma mudança profunda na cultura: a forma como nos comunicamos mudou drasticamente com os meios e redes digitais. Neste sentido, a crise no jornalismo é inventiva, desafiadora e muito inquietante. A universidade, enquanto espaço social dedicado à formação profissional a partir daquilo que já sabemos, e da produção de novos conhecimentos frente às novas realidades que nos atingem, também é afetada por esse cenário.

No que toca ao reflexo das demissões na sala de aula, vários pontos poderiam ser destacados: o ingresso dos estudantes nas redações dos veículos tradicionais de imprensa ocorre cada vez mais cedo, nas séries iniciais do curso de jornalismo, tirando o estudante da sala de aula ainda muito prematuro, para assumir, muitas das vezes, posições que deveriam ser ocupadas por profissionais experientes. Ao mesmo tempo, conforme o estudante avança no curso ou se forma, é “reciclado” por estudantes mais novos, levando, obviamente, à frustração e ao desencantamento com a profissão, sobretudo, com os meios jornalísticos tradicionais. Por outro lado, o perfil dos estudantes que hoje ingressam na universidade mudou muito. Eles não se identificam mais com os meios jornalísticos tradicionais, sequer são audiência para esses meios. Não se trata de não ler mais jornal. Eles não assistem mais sequer à televisão. O consumo cultural deles está baseado nas plataformas digitais, nos aplicativos e na gratuidade. É outra cognição, que se vê mais motivada pelas linguagens e possibilidades dos novos meios. Neste sentido, a universidade ganha muito na experimentação dos novos meios, pois a cognição e a cultura dos estudantes já estão imbuídas. Ao mesmo tempo, a frustração e o desencantamento com os meios tradicionais também motivam os estudantes e jovens egressos a se lançarem em novos projetos. A experiência da Amazônia Real, por exemplo, tem motivado bastante os jovens estudantes e egressos a seguirem caminhos alternativos à mídia tradicional.   

 

Amazônia Real – As demissões de jornalistas comprometem a qualidade e a liberdade de expressão?

Mirna Feitoza – Sem dúvida, pois compromete todo o processo de produção da notícia. Desde a sugestão de pautas socialmente relevantes, passando pela apuração, redação, edição e publicação das notícias. O jornalismo envolve uma escala de produção, portanto, demanda tempo, processo, técnicas, meios, procedimentos e trabalho humano com muitas especialidades envolvidas nas diferentes etapas do tratamento da notícia. No processo de produção jornalística, o que está mais comprometido é a reportagem, que demanda tempo e condições para o repórter ir a campo em busca de histórias relevantes, para apurar a notícia e cultivar fontes oficiais e extraoficiais. O jornalismo hoje é refém das assessorias de imprensa. “Ouvir o outro lado”, hoje, significa entrar em contato com a assessoria de imprensa e divulgar uma nota oficial. Não há mais fontes que informem os bastidores da notícia. Há quem diga que não existe mais “furo jornalístico” por causa da rapidez da internet e das redes digitais. Já está tudo na rede. Pode ser, mas desconfio que o “furo” desapareceu porque o repórter, aquele que deve fazer a apuração e a checagem dos acontecimentos e possuir um caderninho de fontes diversificadas – oficiais e extraoficiais -, esteja em extinção. Quando muito, a reportagem é feita a distância, por telefone, e-mail, videoconferência e aplicativos como WhatsApp, ou ainda previamente produzida, com o repórter compondo o cenário do acontecimento com “sonoras” e “passagens”… Como chegar ao diferencial sem o tempo para o contato humano e a empatia entre repórter e fonte? A diminuição de posições no processo de produção jornalística, a substituição de profissionais experientes por estudantes ainda despreparados para lidar com os desafios do ofício terminam por interferir também na liberdade de expressão, pois a precariedade do processo de produção da notícia termina por promover os “constrangimentos organizacionais”, quando o jornalista é impelido a selecionar e produzir a notícia de acordo com a dinâmica interna dos processos de produção vigentes na organização jornalística. Se os processos são precários, a liberdade de expressão será igualmente prejudicada.   

 

Amazônia Real – Os alunos estão cientes como está o mercado de trabalho atual no jornalismo?

Mirna Feitoza – Em minha percepção, sim, tanto porque estão no mercado desde muito cedo, quanto porque as transformações no jornalismo são temas constantes de nossas disciplinas. Atualmente, ministro duas disciplinas: Assessoria de Imprensa e Webjornalismo, e em ambas os novos desafios da atividade jornalística são trabalhados à luz dos novos cenários da profissão. É certo que precisaríamos de muito mais. Estamos também, enquanto universidade, nessa busca. É um desafio para a própria universidade. Não temos todas as respostas, mas certamente estamos nessa busca. De todo modo, seria interessante conversar com os próprios estudantes sobre isso. A expectativa deles certamente é muito grande, pois são os principais envolvidos. 

A jornalista trabalhou no jornal "Folha de S. Paulo" e na Tv Cultura, de Manaus. (Foto: Alberto César Araújo/AmReal)

A jornalista Mirna Feitoza trabalhou no jornal “Folha de S. Paulo” e na Tv Cultura, de Manaus. (Foto: Alberto César Araújo/AmReal)

 

Amazônia Real – A sala de aula de uma faculdade está atualizada sobre o que acontece “no mundo lá fora” para os que querem seguir no mercado?

Mirna Feitoza – O mundo lá fora também é o mundo aqui dentro. A universidade não está separada da sociedade e do mercado. É certo que o tempo da universidade requer o tempo da abstração, mas aquele [o tempo] e esta [a abstração] são necessários à formação para atuar profissionalmente no mercado e também para ser um cidadão crítico e transformador da realidade social, onde se inclui o próprio mercado de trabalho. Se o mercado de trabalho das redações tradicionais está esgotado, o mercado jornalístico precisa ser reinventado. Neste sentido, os desafios que estão do lado de fora da universidade, também estão do lado de dentro. Estamos imbuídos de oferecer uma educação transformadora e inclusiva, e isto diz respeito também à ampliação do mercado de trabalho e à formação profissional para atuar e transformar realidades. As duas disciplinas que ministro na graduação, Assessoria de Imprensa e Webjornalismo, sequer existiam antes do currículo de 2009. Se elas existem hoje é porque a universidade, isto é, nós, professores e acadêmicos, estamos atentos às necessidades do mercado e da vida social como um todo. Atualmente, estamos refazendo o projeto pedagógico de nosso curso de jornalismo, e, certamente, outras disciplinas serão necessárias – tanto teóricas quanto técnicas – para atender às atuais demandas, mas todas elas voltadas a oferecer uma formação acadêmica e profissional de qualidade que estejam pautadas pelo bem comum e pela ação transformadora e inclusiva das diversas instâncias em que nossos egressos estejam inseridos na sociedade.

 

Amazônia Real – Como a senhora analisa as novas iniciativas de projetos jornalísticos, especialmente os que surgiram com as possibilidades oferecidas pela internet?

Mirna Feitoza – Avalio como muito promissoras e inovadoras. Elas são o que mais me motivam hoje no jornalismo, seja como leitora, professora ou pesquisadora do jornalismo e da mídia. O jornalismo voltou a ser interessante por meio dessas iniciativas. A notícia nos chega hoje por outros canais e de uma forma muito mais personalizada, a partir dos interesses e afinidades do leitor. Até mesmo a narrativa é outra, com o jornalista sendo um participante ativo e engajado com o acontecimento que ele cobre. Para o leitor, o antigo sonho de “assinar” somente o(s) suplemento(s) com notícias de seu interesse foi realizado, com a diferença que não se paga uma assinatura para isso. É aberto, gratuito. E quando se paga alguma taxa, tal ato envolve uma relação que está para além da credibilidade: implica consciência do processo jornalístico. Enquanto isso, a mídia tradicional se tornou previsível e inteiramente alinhada com os interesses do mercado e do jogo político que a mantém; tornou-se, explicitamente, moeda de troca. Incrivelmente as assessorias de imprensa hoje assinam as matérias como responsáveis pela informação publicada. Isto é inconcebível.

 

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Comentários

  1. Jalen disse:

    A wonderful job. Super helpful innromatiof.

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