Colunas

Hidrelétricas e o IPCC: 7 – Reservatórios como “áreas úmidas”

Usina hidrelétrica de Itaipu (Foto: Itaipubinacional)
20/02/2017 19:34

 

O IPCC classifica os reservatórios como “áreas úmidas” (“wetlands“), mas uma revisão da seção de áreas úmidas das diretrizes (“guidelines”) de 2006 do IPCC [1] realizada entre 2011 e 2013 excluiu explicitamente da revisão a parte sobre emissões de reservatórios ([2], p. O.4).

Os autores foram instruídos que: “terras alagadas (reservatórios) são especificamente excluídas sendo que a TFI [força tarefa sobre inventários nacionais de gases de efeito estufa] não considera a ciência subjacente a ser suficientemente desenvolvida” ([3], p. 3). Esta posição significa que, na prática, as emissões de hidrelétricas continuarão sendo consideradas como zero ou próximo de zero, apesar de evidências substanciais de que barragens tropicais emitem quantidades significativas de gases de efeito estufa (e.g., [4-8]). Embora as estimativas das quantidades emitidas sejam sujeitas à incerteza, como é o caso para todas as formas de emissão, a resposta apropriada é de usar os melhores dados científicos disponíveis em cada ponto no tempo.

Se uma posição conservadora é desejada para a formulação de políticas sobre mudança climática, isso significaria usar valores do lado alto das estimativas disponíveis, e não, essencialmente, atribuir um valor de zero para esta fonte.

Como o metano foi relegado a um apêndice nas diretrizes, relatar essas emissões continuará sendo algo voluntário, mesmo após estas diretrizes ter entrado em vigor em 2015 [9]. O resultado será, provavelmente, que as emissões de hidrelétricas tropicais permanecem praticamente ausentes das contas globais [10].

 

NOTAS

[1] IPCC (Intergovernmental Panel on Climate Change). 2006. 2006 IPCC Guidelines for National Greenhouse Gas Inventories. Eggleston, H.S., Buendia, L., Miwa, K., Ngara, T., Tanabe, K. (Eds.), Institute for Global Environmental Strategies (IGES), Kanagawa, Japão. [Disponível em: http://www.ipcc-nggip.iges.or.jp/public/2006gl/index.html].

[2] IPCC (Intergovernmental Panel on Climate Change). 2014. 2013 Supplement to the 2006 IPCC Guidelines for National Greenhouse Gas Inventories: Wetlands. Hiraishi, T., Krug, T., Tanabe, K., Srivastava, N., Baasansuren, J., Fukuda, M., Troxler, T.G. (Eds.), IPCC, Geneva, Suiça. 354 p. [Disponível em: http://www.ipcc-nggip.iges.or.jp/public/wetlands/pdf/Wetlands_Supplement_Entire_Report.pdf].

[3] IPCC (Intergovernmental Panel on Climate Change). 2011. IPCC Task Force on National Greenhouse Gas Inventories (TFI). TFI Interim Guidance Notes to Experts and Authors (May 2011). TFI Technical Support Unit, Institute for Global Environmental Strategies (IGES), Kanagawa, Japão. 13 p. [Disponível em: http://philip.inpa.gov.br/publ_livres/Dossie/Hydro-GHG/1106_Guidance_to_Authors.pdf].

[4] Abril, G., Guérin, F., Richard, S., Delmas, R., Galy-Lacaux, C., Gosse, P., Tremblay, A., Varfalvy, L., dos Santos, M.A., Matvienko, B. 2005. Carbon dioxide and methane emissions and the carbon budget of a 10-years old tropical reservoir (Petit-Saut, French Guiana). Global Biogeochemical Cycles 19, GB 4007. doi: 10.1029/2005GB002457.

[5] Fearnside, P.M. 2002. Greenhouse gas emissions from a hydroelectric reservoir (Brazil’s Tucuruí Dam) and the energy policy implications. Water, Air and Soil Pollution 133: 69-96. doi: 10.1023/A:1012971715668.

[6] Fearnside, P.M. 2013. Climate change and the Amazon: Tropical dams emit greenhouse gases. ReVista, Harvard Review of Latin America 12(2): 30-31.

[7] Fearnside, P.M., Pueyo, S.. 2012. Underestimating greenhouse-gas emissions from tropical dams. Nature Climate Change 2: 382–384. doi: 10.1038/nclimate1540.

[8] Kemenes, A., Forsberg, B.R., Melack, J.M. 2007. Methane release below a tropical hydroelectric dam. Geophysical Research Letters 34, L12809. doi: 10.1029/2007GL029479.55.

[9] Mäkinen, K., Khan, S. 2010. Policy considerations for greenhouse gas emissions from freshwater reservoirs. Water Alternatives 3: 91-105.

[10] Isto é uma tradução parcial atualizada de Fearnside, P.M. 2015. Emissions from tropical hydropower and the IPCC. Environmental Science & Policy50: 225-239. http://dx.doi.org/10.1016/j.envsci.2015.03.002. As pesquisas do autor são financiadas por: Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) (processos nº305880/2007-1, nº304020/2010-9, nº573810/2008-7, nº575853/2008-5), Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas (FAPEAM) (processo nº 708565) e Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA) (PRJ13.03).

 

A fotografia que ilustra esse artigo é de autoria da Usina Hidrelétrica de Itaipu/Binacional.

 

Leia os artigos da série: Hidrelétricas e o IPCC 

Hidrelétricas e o IPCC: 2 – Barragens nos relatórios e diretrizes 

Hidrelétricas e o IPCC: 3 – Escolha enviesada de literatura 

Hidrelétricas e o IPCC: 4 – Barragens tropicais emitem mais 

Hidrelétricas e o IPCC: 5 – Emissões de gases nos inventários nacionais 

Hidrelétricas e o IPCC: 6 – As diretrizes de 2006

 

Philip M. Fearnside é doutor pelo Departamento de Ecologia e Biologia Evolucionária da Universidade de Michigan (EUA) e pesquisador titular do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), em Manaus (AM), onde vive desde 1978. É membro da Academia Brasileira de Ciências e também coordena o INCT (Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia) dos Serviços Ambientais da Amazônia. Recebeu o Prêmio Nobel da Paz pelo Painel Intergovernamental para Mudanças Climáticas (IPCC), em 2007. Tem mais de 500 publicações científicas e mais de 200 textos de divulgação de sua autoria que estão disponíveis neste link

Notícias relacionadas

Deixe seu comentário

Leitores e leitoras, seus comentários são importantes para o debate livre e democrático sobre os temas publicados na agência Amazônia Real. Comunicamos, contudo, que as opiniões são de responsabilidade de vocês. Há moderação e não serão aprovados comentários com links externos ao site, ofensas pessoais, preconceituosas e racistas. Agradecemos.

Translate »