Economia e Negócios

Profissão jornalista: demissões geram medo no Mato Grosso

09/05/2016 12:51

Clima de instabilidade na profissão impõe o silêncio entre os jornalistas. A situação confronta com os direitos da liberdade de expressão e de imprensa conquistados pela categoria. (A foto acima é ilustrativa)

 

Keka Werneck, especial para a Amazônia Real

De Cuiabá (MT) – Não importa a geração. Demissões na área de jornalismo em Mato Grosso estão a cada dia mais comuns, afetando desde profissionais que acabaram de entrar no mercado de trabalho e também os mais experientes.

O Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) do Ministério do Trabalho e Previdência Social (MTE), que registra as admissões e dispensas de empregados no país, mostra a instabilidade na profissão de jornalista. O ministério não divulga os nomes das empresas que demitiram. Veja o infográfico abaixo:

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No período de 2013 a 2015, o Caged diz que 767 jornalistas foram admitidos pelas empresas em Mato Grosso. Comparado com o número de demitidos (687), o saldo negativo foi de 80. Estes profissionais permaneceram desligados do mercado de trabalho.

O Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Mato Grosso (Sindjor-MT) disponibilizou os dados das demissões para a Amazônia Real. O registro é feito com base nas homologações das rescisões contratuais dos profissionais com mais de um ano de carteira assinada pela CLT (Consolidação das Leis do Trabalho). Por isso, há uma quantidade de dispensa de profissionais pelo Caged maior do que a registrada pelo sindicato.

Nesse período, segundo o Sindjor-MT, as emissoras de televisão foram as que mais dispensaram profissionais: a TV Centro América (afiliada Rede Globo) promoveu 15 desligamentos, seguida da TV Cidade Verde (Rede Bandeirantes) com nove, e a TV Rondon (SBT) com oito cortes na redação. No jornalismo impresso, o jornal A Gazeta demitiu nos últimos três anos nove profissionais. Veja o infográfico abaixo com as informações das demissões por empresas.

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As demissões em massa geraram outro problema no Mato Grosso: o medo de falar sobre o assunto, o que confronta com a liberdade de expressão e liberdade de imprensa, direitos dos jornalistas.

Tanto assim que uma jornalista experiente aceitou conceder uma entrevista para a reportagem da agência Amazônia Real com a condição de ser identificada apenas com as iniciais do nome A.B.S, “Melhor não dar meu nome, já está tão difícil para arrumar trabalho, que não posso assumir nada de comprometedor”, justifica a profissão.

A., que tem 42 anos, atua no jornalismo mato-grossense há 17 anos. Ela foi demitida em novembro de 2015 de uma emissora de televisão. A jornalista diz que a empresa alegou “corte de gastos”, justificativa que se tornou comum para várias demissões na imprensa brasileira. Desde então, ela tenta uma reposição no mercado, falando com amigos, mandando currículos, ficando de olho em possíveis oportunidades, mas até agora sem sucesso.

O agravante é que A.B.S. mora sozinha e é a única responsável pelas contas mensais. “A situação está complicada”, lamenta.

O jornalismo para ela é uma paixão de infância, que foi crescendo ao longo da vida e virou amor. Mas, como em um casamento do qual se esperava muito e não foi bem como o esperado, ela diz querer o “divórcio”.

“Sempre fui muito comunicativa e investigativa. Nasci para o jornalismo. Gosto muito, mas estou decepcionada. As empresas de comunicação não valorizam e não respeitam o profissional. A gente demora anos para conseguir um espaço no mercado de trabalho e nem assim tem a garantia de um mínimo de dignidade”, desabafa.

Como ela, outros tantos jornalistas de Mato Grosso falam em deixar a profissão. Para muitos, passar em um concurso público é a principal válvula de escape. “Acontece que toda vez que eles [os concursos] surgem são poucas vagas para nossa área e a disputa é grande”, reclama A.B.S.

Na vida de A.B.S., a paixão pelo jornalismo esfriou dando lugar à depressão. “É isso mesmo, jornalismo me deprime. Eu vou fazer 42 anos, eu moro sozinha, eu moro de aluguel, insisti tanto numa profissão que não me deu nada. Quer dizer, é muito frustrante. E agora, em pleno inferno astral, realmente isso me deprime.”

Ela vê relação deste cenário com as mudanças impostas pela virtualização da vida, a internet ditando regras.

“A tecnologia nos fez obsoletos, porque hoje em dia todo mundo pode ser jornalista, escrever o que quiser. Com este fácil acesso, as redes sociais, onde você divulga o que quer, e você vai além do que imagina, a gente [jornalista] perdeu a força, as peculiaridades, nossas características, a defesa de uma pauta, uma investigação bem concluída”, diz a A.B.S.

 

Sobrevivendo do trabalho de freelancer

O jornalista William Belter (Foto: Arquivo pessoal)

O jornalista William Belter (Foto: Arquivo pessoal)

Em Mato Grosso existem cerca de 1.200 jornalistas com registro profissional, segundo o Ministério do Trabalho. O órgão chega a esse número cruzando os dados do Caged com a Relação Anual de Informações Sociais (Rais), que é um instrumento de coleta de dados da atividade trabalhista no país.

Willian Belter, 24 anos, ainda nem bem transitou pela profissão e já está agoniado. Dos dois trabalhos que teve como jornalista em Cuiabá após se formar em janeiro de 2015 – ou seja, há pouco mais de um ano – ele pediu demissão de um, e do outro foi demitido. Mas se sente igualmente repelido dos dois. Do primeiro, por questões éticas; do segundo, por problemas financeiros alegados pela empresa.

Belter diz que vê reflexos da crise [da economia brasileira] no jornalismo, por exemplo, “no baixo piso salarial”, que em Mato Grosso é de R$ 1.600,50. Ele ainda aponta uma “prostituição” na relação entre alguns jornalistas e suas fontes, na falta de oportunidade para os recém-formados, na legislação da profissão, que, em sua visão, é frágil de forma geral.

As demissões, no entanto, são apenas um problema de uma lista grande de fatores que aprofundam a crise no jornalismo, conforme o diretor do Sindicato dos Jornalistas de Mato Grosso (Sindjor-MT), Jonas da Silva, que atua no mercado de trabalho como assessor parlamentar. Para ele, salários não atrativos, jornadas excessivas de trabalho e falta de estrutura nas empresas de comunicação são fatores a comprometer o jornalismo e o conteúdo jornalístico no estado, aprofundando uma crise que se agravou com a chegada da internet.

Jonas da Silva, diretor do Sindjor-MT (Foto: Arquivo pessoal)

Jonas da Silva, diretor do Sindjor-MT (Foto: Arquivo pessoal)

 

“Apesar de todo o aparato de fontes de informação hoje e subsídios da tecnologia, boa parte dos jornalistas de Mato Grosso parece ter abdicado do direito de apurar, pesquisar, confrontar dados. Ou seja, de fazer boas reportagens. Falta também o benefício da dúvida, de leitura de cenário, conjuntura, cruzamentos de informações e dados. Claro que no hard news isso não é possível toda hora. Mas, duas vezes por semana, cairia bem”, analisa o sindicalista.

Para Jornas da Silva, “jornalismo é uma profissão importante porque ela fundamenta a opinião pública, indica situações para formação do cidadão, é utilidade pública, é essencial para a democracia. Costuma-se comparar jornalismo à própria sobrevivência dos cidadãos, ou à condição de ditar o ritmo cotidiano das pessoas”.

 

A primeira repórter de rua desistiu

A jornalista Laura Lucena (Foto: Arquivo pessoal)

A jornalista Laura Lucena (Foto: Arquivo pessoal)

A jornalista Laura Lucena, de 56 anos, foi a primeira repórter de rua de Mato Grosso. Na Cuiabá do final dos anos 1970, ela, ainda menina, acreditava no jornalismo com a esperança de ser essa uma profissão transformadora. Quase 30 anos depois, mudou-se da capital para a mística Chapada dos Guimarães, onde vive para a família.

“Eu estava trabalhando em um jornal em que era editora e a gente ficava três, quatro meses sem receber e aí de repente eles vinham com uma proposta de dividir e parcelar o salário. Esse é um dos motivos que me mantêm afastada de redação. Estou em casa, cuidando do meu pai, cuidando dos cachorros, faço faxina, e, nesta crise do jornalismo, nem cogito em voltar, sigo vivendo de aluguel de uma casa que tenho na capital e gastando pouco”, diz a jornalista.

Quando começou, diz ela, o salário não era bom e mal dava para pagar aluguel e comer. “Mas a gente tinha uma sensação de respeito. Aonde a gente chegava e falava que era jornalista, as pessoas se manifestavam com respeito por nós, mas hoje isso não existe mais”, lamenta Laura Lucena.

 

Laura Lucena entrevistando Dante de Oliveira (1952-2006), autor da emenda das Direjas Já.  (Foto: Arquivo pessoal)

Laura Lucena entrevistando Dante de Oliveira (1952-2006), autor da emenda das Direjas Já. (Foto: Arquivo pessoal)

 

 

 

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