Economia e Negócios

Profissão jornalista: o recomeço de um repórter experiente no Acre

11/05/2016 15:34

 

Por Freud Antunes, especial para a Amazônia Real

Rio Branco (AC) – Com 30 anos de profissão, sendo que a metade de sua vida dedicada ao telejornalismo, Gerson Rondon, 53 anos, começou o ano de 2016 desempregado. Ele está entre os 44 jornalistas que foram demitidos entre 2013 e 2015 das redações do estado do Acre, segundo o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), do Ministério do Trabalho e Previdência Social.

No Acre há uma média de 126 jornalistas ativos no mercado de trabalho. Conforme os dados do Caged, nos últimos três anos houve um saldo positivo entre as admissões (65) e as demissões (44) no Acre. Veja o infográfico dos desligamentos: 

mapa do acre jornalistas

 

O jornalista Gerson Rondon trabalhou na TV Rio Branco, afiliada do SBT, de junho de 2014 a novembro de 2015, quando foi demitido. Nem mesmo os anos de experiência e o reconhecimento estadual garantiram ao profissional a estabilidade como repórter de televisão.

Em 2013, ele ganhou uma menção honrosa do Prêmio de Jornalismo José Chalub Leite, promovido pelo Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Acre (Sinjac), com uma série de reportagens sobre os costumes e a cultura dos índios Ashaninka pela TV Acre (Rede Amazônica/Globo).

Rondon iniciou a carreira nos anos 1990. Também trabalhou na TV Centro América, em Cuiabá (MT), na TV Norte, em Porto Velho (RO), afiliada da Rede Amazônica (retransmissora da Globo), e foi repórter da TV Gazeta, afiliada da Rede Record.

Segundo Gerson Rondon, ao demiti-lo da TV Rio Branco os diretores alegaram problemas financeiros devido à crise econômica por que passa o país, além da redução dos anúncios da publicidade veiculados na emissora. A empresa também edita o jornal O Rio Branco, um dos mais tradicionais da capital e que até o fim da década de 1980 fazia parte do grupo Diários Associados.

“A TV já enfrentava problemas financeiros, mas de gestão, e é claro que resulta nisso. Mas o motivo maior é decorrente da situação do país. A gente vê que todos os setores estão afetados”, disse Rondon.

O jornalista disse que a empresa ainda não pagou todas as verbas rescisórias dele e de mais oito colegas, desrespeitando um Termo de Ajuste de Conduta assinado com o Ministério Público do Trabalho.

“A empresa se comprometeu a não atrasar o pagamento. Esnoba até a Justiça do Trabalho ao afirmar que, se levássemos o caso para a Justiça, seria apenas mais uma ação [contra eles], e que já tinham multas de até R$ 600 mil, por isso nada resolveria”, disse Rondon.

O jornalista Gerson Rondon (Fotos de Odair Leal/AmReal)

O jornalista Gerson Rondon (Fotos de Odair Leal/AmReal)

 

Apesar da crise no jornalismo do Acre, o jornalista tem otimismo com o empreendedorismo na profissão.

“Enquanto profissional, a gente vê que a situação não é animadora, mas temos que lutar, de alguma forma temos que trabalhar, daí nossa forma de empreender, criar um mecanismo de subsistência com o objetivo de viabilizar logo uma nova renda. Enfim, na luta pela sobrevivência, estou tocando um projeto em parceria com um colega repórter-cinematográfico numa emissora pequena na região metropolitana de Rio Branco”, disse Gerson Rondon.

Nesta quinta-feira (12/05), o Departamento de Recursos Humanos da TV Rio Branco respondeu aos questionamentos da Amazônia Real sobre os atrasos nos pagamentos dos salários e rescisões de nove profissionais. Em contatos feitos anteriormente, a emissora não atendeu aos pedidos de informação da reportagem. Na ocasião, a empresa nem mesmo delegou alguém para falar. Na resposta, a TV Rio Branco confirma que não pagou as indenizações trabalhistas dos funcionários demitidos, entre eles, cinco jornalistas e um cinegrafista. E culpou “a crise econômica” pelo atraso. A empresa diz que até a próxima segunda-feira (16/05) pagará a verba rescisória dos profissionais, inclusive a do jornalista Gerson Rondon. A TV Rio Branco afirma, ainda, que não pagou os salários do mês de abril dos funcionários atualmente contratados, mas promete pagar a remuneração até sexta-feira (13/05).

 

Empresas estão deficitárias, diz sindicato

O Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Acre (Sinjac) disponibilizou para o levantamento da Amazônia Real apenas as demissões das homologações realizadas entre os anos de 2014 e 2015m.  O sindicato diz que não teve acesso aos dados das empresas do ano de 2013.  Esse ano, segundo a entidade, 14 jornalistas já foram demitidos. Veja o infográfico o levantamento com os nomes das empresas:

infografico-acre 

 

O presidente do Sinjac, Victor Augusto, disse que o quadro econômico atual do país agravou a situação deficitária das empresas de comunicação que já não apresentavam uma boa gestão no Acre.

“O sindicato avançou nas negociações salariais e melhorias para a categoria, mas nos deparamos com as dificuldades e justificativas de que as empresas não teriam como manter todo do quadro devido aos atrasos no repasse do governo estadual e executivo municipal, principais clientes”, afirma o sindicalista.

A reportagem da Amazônia Real apurou que o governo do Acre tem uma verba anual para investir em mídia nos jornais e na propaganda institucional da ordem de R$ 14 milhões.

Victor Augusto disse que a redução da quantidade de profissionais nas redações dos jornais do Acre resulta em uma maior sobrecarga de trabalho. A média de jornalistas contratados nas redações das emissoras de TV varia de cinco a sete por empresa, e nas de jornais impressos de sete a nove profissionais. O salário médio de um repórter é de R$ 2.254,00 (o piso). Já um editor tem média salarial de R$ 3.254,00.

“Além das redações já serem extremamente enxutas, as demissões acabaram sobrecarregando os jornalistas [que permaneceram empregados]”, revelou o presidente do Sinjac.

 

Atualizado às 20h00 de 12/05/2016 com a resposta da TV Rio Branco.

 

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