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Fim de semana em Pindorama

RIO AMAZONAS_ALBERTO CESAR ARAUJO_AMREAL
22/03/2016 12:45

CARLOS AUGUSTO DA SILVA

EDUARDO GÓES NEVES

 

“Urucurituba” quer dizer em nheengatu, uma língua Tupi-Guarani, “lugar onde tem urucuri”. Urucuri, Attalea phalerata, é uma palmeira comum na Amazônia e no cerrado, que costuma ocorrer em locais de solos mais férteis e também sobre área de sítios arqueológicos. A correlação com os sítios ocorre porque a presença humana no passado contribuiu para a deposição de nutrientes no solo, derivados de restos de carvão, de ossos de peixe, de sementes, palha etc. Em muitos lugares da Amazônia, onde tem urucurizal, tem também sítio arqueológico.

Urucurituba é também um município do Estado do Amazonas, localizado a cerca de 208 km de Manaus, às margens do rio Amazonas. É lá que vive o professor José Alberto Neves, aposentado da rede pública do Amazonas, na qual ensinou por muitos anos. O professor José Alberto tem 77 anos e está bem conservado. No último domingo, dia 06 de março, desceu com facilidade a alta escadaria de madeira para pegar o barco no porto da cidade. É um homem reservado, de poucas palavras, mas de sorriso aberto. Sua casa amarela, localizada numa esquina, tem um belo jardim com plantas floridas e frutíferas. Atrás do jardim, há duas portas; a da direita tem acima uma placa onde se lê: PINDORAMA … É de lá que ele sai, sempre contente, quando vamos lhe visitar.

 

A razão de nossas idas a Urucurituba é, além de visitá-lo, visitar a maravilhosa coleção arqueológica que guarda no Centro Pindorama. Conhecida por nós como Coleção José Alberto Neves, é, sem dúvida, a melhor coleção arqueológica de objetos inteiros do Amazonas. A história de como ela se formou se confunde com a própria história da vida do professor e também da cidade de Urucurituba.

 

Hoje assentada sobre um barranco alto na margem direita do rio Amazonas, próximo à entrada do Paraná do Ramos, Urucurituba não existia até 1973. Antes deste ano o município se chamava Augusto Montenegro e tinha sua sede num local de várzea que era periodicamente alagada pelo rio Amazonas. Por conta das constantes cheias, moradores de Augusto Montenegro se organizaram e, com o apoio do Governo do Estado, identificaram um novo local para sede o município, que, em 1976, mudou de nome e localização. Quem anda hoje pelas ruas largas, com traçado reto, da cidade, não imagina que, durante sua abertura, máquinas arrebentavam vasos arqueológicos de cerâmica, conforme testemunha o próprio professor José Alberto e também Carlos Augusto da Silva, em seu doutorado recentemente defendido na Universidade Federal do Amazonas.  Ainda hoje é possível visitar áreas, na zona urbana, onde se veem fragmentos cerâmicos aflorando.

Foi para resgatar tais peças de sua destruição inexorável que o professor José Alberto Neves começou a formar sua coleção. Essa iniciativa não é incomum no interior da Amazônia, onde é quase uma regra que cidades modernas estejam assentadas sobre sítios arqueológicos: Santarém, Tefé, Gurupá, Manacapuru, São Gabriel da Cachoeira, São Paulo de Olivença, Óbidos, Silves, Novo Airão, Borba … a lista é imensa e vai além. Em essas e outras cidades é comum que moradores reúnam peças arqueológicas encontradas em seus quintais, pelos campos de futebol, doadas por amigos e até passadas de uma geração a outra. A legislação brasileira proíbe que particulares realizem escavações, e guardem coleções arqueológicas sem autorização do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). O comércio de peças é expressamente proibido por leis, mas a maioria desses cidadãos desconhece as leis do patrimônio e sabe, também, que se não recolherem e guardarem as peças elas poderão destruir-se com o tempo.

A grande diferença da coleção José Alberto Neves é o carinho com que foi feita e é hoje guardada. A ela o professor dedica três cômodos de sua casa, em uma área de cerca de 50 m2, com climatização, onde as peças são dispostas em vitrines que as protegem. Os materiais são divididos por categorias desenvolvidas pelo próprio professor Alberto, mas que refletem quase que exatamente as categorias classificatórias desenvolvidas pelos arqueólogos. Isto é maravilhoso, porque do conjunto de peças inteiras e fragmentos ali guardados, cerca de 3.500, percebe-se que a região de Uricurituba, localizada próxima à junção dos rios Madeira e Amazonas, os dois maiores da Amazônia, foi palco de diferentes ocupações humanas no passado. A diversidade cultural antiga da região é, sem dúvida, notável.

 

De acordo com o professor José Alberto, apesar do crescimento urbano de Urucurituba, há ainda na cidade contextos arqueológicos bem preservados que demandariam escavações controladas. No entorno da cidade, junto aos lagos do Arrozal e Tabocal há grandes áreas com terras pretas onde avistam-se, literalmente, milhares de fragmentos cerâmicos na superfície.

 

Em meio ao quadro disseminado de destruição de sítios arqueológicos que se vê hoje na Amazônia, a história da coleção José Alberto Neves pode ser um ponto luminoso. A superintendência do Iphan de Manaus tem tomado iniciativas para o devido registro da coleção, bem como para sua vinculação a alguma instituição de pesquisa que promova estudos adicionais e também sua divulgação através de exposições e outras ações educativas. Se bem-sucedidas, tais iniciativas representarão o coroamento de uma bela trajetória, que nos orgulha a todos que estudamos o passado da Amazônia.

 

Veja a galeria de fotos:

Viagem a Urucurituba

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Partida do barco. (Foto Alberto César Araújo/AmReal)

 

 

Carlos Augusto da Silva é cientista social e arqueólogo, com Mestrado em Ciências do Ambiente e Doutorado em Sociedade e Cultura na Amazônia pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM), instituição onde é servidor público desde 1976. Na última década tem participado de projetos de pesquisa arqueológica na Bacia Amazônica.

Eduardo Góes Neves é arqueólogo, graduado em História pela Universidade de São Paulo (USP) e doutor em arqueologia pela Universidade de Indiana, nos Estados Unidos. Coordena o Laboratório de Arqueologia dos Trópicos e é professor do Museu de Arqueologia e Etnologia da USP. Coordenou, de 1995 a 2010, o Projeto Amazônia Central em Iranduba, no Amazonas. Trabalhou também no Pará e Amapá. Atualmente realiza pesquisas no médio rio Solimões, no Amazonas, no alto rio Madeira e no médio Guaporé, em Rondônia.

 

Leia também:  O “Dr. Tijolo” que mudou a história da arqueologia da Amazônia

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