Economia e Negócios

Profissão jornalista: as demissões em massa nas redações da Amazônia Legal

(Foto ilustrativa)
09/05/2016 12:43

Baixos salários, atrasos na remuneração, sobrecarga de horário, assédio moral e demissões. Esses são temas das pautas que os jornalistas costumam desenvolver no dia a dia quando vão apurar a violação dos direitos trabalhistas contra algumas categorias profissionais. Mas hoje vamos mudar para o outro lado da notícia: a reportagem é sobre as demissões em massa no jornalismo, profissão que presta um serviço essencial à sociedade e que vem enfrentando um desrespeito profissional histórico no país.

Como é estar do lado de quem perdeu a única fonte de renda? Para o jornalista é difícil falar. Desde o ano de 2013, as empresas de comunicação intensificaram nas redações as demissões em massa, também chamadas pelos próprios jornalistas de “passaralhos”. Os empresários alegam que a recessão econômica do país ameaça as receitas vindas da publicidade e coloca seus negócios em risco de falência, além da transição dos jornais impressos para a internet.  

A alternativa das empresas de comunicação é cortar os custos, e essa contenção de gastos tem como alvo preferencial a mão de obra, resultando nas demissões de repórteres, coordenadores de pauta, redatores, revisores e editores, repórteres fotográficos, diagramadores, entre outras funções da profissão de jornalista. E isso está ocorrendo diariamente nos jornais, emissoras de televisão e rádio, nas empresas digitais e nas assessorias de imprensa privadas e públicas há três anos. Leia aqui reportagens da Agência Pública e do Observatório da Imprensa sobre as demissões nacionais.

Nos nove estados que formam a Amazônia Legal, a situação não é diferente das de outras regiões do Brasil. Mas até então não havia a informação precisa da realidade das demissões dos jornalistas no chamado “Brasil profundo”, expressão comumente adotada pelo jornalismo tradicional para se referir às regiões distantes das grandes metrópoles brasileiras.

Para termos um quadro sobre as demissões em massa nos estados do Acre, Amapá, Amazonas, Maranhão, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins, a agência de jornalismo independente Amazônia Real apresenta a partir desta segunda-feira (09/05) uma série de reportagens com jornalistas demitidos, sindicalistas, professores de universidades, empresários e com jornalistas que estão se reinventando na profissão. A agência também divulga o primeiro levantamento sobre os cortes nas redações desta região.

Os dados sobre as demissões de jornalistas foram levantados a partir de informações do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), do Ministério do Trabalho e Previdência Social. O órgão faz o registro permanente de admissões e dispensas de empregados sob o regime da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT).  Segundo o ministério, o cadastro é utilizado pelo Programa de Seguro-Desemprego para conferir os dados referentes aos vínculos trabalhistas, além de outros programas sociais.

No Brasil, segundo o Caged, existem 64 mil profissionais com registro emitido pelo Ministério do Trabalho e Previdência Social. Nos nove estados da Amazônia Legal, eles são cerca de 5.900 jornalistas ativos. Para chegar a esse número, o Caged cruza seus dados com os da Relação Anual de Informações Sociais (Rais), que é um instrumento de coleta de dados da atividade trabalhista a partir do CNPJ (Cadastro Nacional de Pessoas Jurídicas) e da CLT.  

Conforme a estatística oficial, de 2013 a 2015 foram demitidos 2.794 jornalistas das redações da região amazônica. Nesse período, segundo o Caged, foram admitidos pelas empresas 2.561 profissionais, o que significa que o mercado é rotativo, mas o saldo é negativo: 233 jornalistas permaneceram sem o trabalho formal.

O Mato Grosso foi o estado que mais demitiu: 687 profissionais, seguido do Amazonas (670), Pará (457), Maranhão (283), Rondônia (278), Tocantins (187), Roraima (103), Amapá (85) e Acre (44). Veja o infográfico abaixo:

 

Mapa-jornalistas-Demitidos-Ministerio-Trabalho

Dos nove estados pesquisados, a Amazônia Real obteve acesso dos registros de demissões apenas dos Sindicatos dos Jornalistas Profissionais do Acre, Amazonas, Mato Grosso e Pará. Os demais foram procurados, mas não atenderam às solicitações da reportagem para participarem do levantamento. O sindicato de Rondônia fez um panorama da situação no estado.

Com base nos dados das homologações das rescisões contratuais feitas pelos sindicatos, o Amazonas foi o que mais demitiu jornalistas no período de 2013 a 2015: 141 profissionais. Logo atrás está o Mato Grosso, com 135 demissões.

O sindicato do Pará divulgou os dados apenas do ano de 2015, que apresentam 79 desligamentos. No Acre, o sindicato informou as demissões nos anos de 2014 e 2015, totalizando 19 jornalistas fora das redações.   

Diferente do Caged, os sindicatos só fazem homologações dos desligamentos dos jornalistas contratados com mais de um ano de carteira assinada. Os sindicatos divulgam os nomes das empresas que demitiram os profissionais, já o Ministério do Trabalho, não.

Por estes motivos não foi possível cruzar os dados das demissões registradas pelos sindicatos com os do Caged, pois o ministério mantém sob sigilo os nomes das empresas. Isto pode significar que o número de demitidos informado pelos sindicatos pode ser maior do que o registrado, tendo em vista que muitos profissionais foram dispensados com menos de um ano de contratação. E outros foram demitidos sem que as homologações tenham sido realizadas nos sindicatos. Ainda não há dados precisos sobre o total das demissões registradas nesse ano de 2016, mas elas continuam ocorrendo.

As reportagens da série Profissão jornalista: as demissões em massa nas redações da Amazônia Legal foram produzidas pelos jornalistas Ana Aranda, Andrezza Trajano, Elaíze Farias, Freud Antunes, Keka Werneck, contou com as participações dos repórteres fotográficos Alberto César Araújo, também editor de fotografia, e Odair Leal, e da colaboração do jornalista Fábio Pontes. A coordenação da série foi da jornalista Kátia Brasil. As matérias trazem os infográficos do designer Victor Gabriel com os números das demissões do Caged e dos sindicatos nos estados do Mato Grosso, Amazonas, Acre e Pará. As reportagens serão publicadas ao longo dessa semana. 

 

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*Atualizado às 15h36 em 11/06/2016.

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