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Hidrelétricas e o IPCC: 13 – O horizonte de tempo

04/04/2017 17:00

O horizonte de tempo utilizado é pelo menos tão importante quanto a escolha de uma taxa de desconto, na derivação valores de GWP (sigla em inglês para Potencial de Aquecimento Global) e na contabilização das emissões dos gases de efeito estufa. O Quinto Relatório de Avaliação do IPCC deixa claro que “não há nenhum argumento científico para a seleção de 100 anos, em comparação com outras opções [1, 2]. A escolha do horizonte de tempo é um juízo de valor porque depende do peso relativo atribuído aos efeitos em momentos diferentes” ([3], p. 711-712).

Quanto mais longo o horizonte de tempo usado, maior a distorção se uma taxa de desconto zero for aplicada (como no caso dos valores atuais de GWP de 100 anos, derivados pelo IPCC). Uma maneira que estudos de contabilidade muitas vezes justificam longos horizontes de tempo sem desconto é de basear os cálculos em um ciclo de vida completo, com a suposição comum de que uma barragem será útil durante 100 anos. Deve-se notar que estes cálculos, muitas vezes, não são verdadeiramente análises de ciclo de vida devido à omissão do desmantelamento (remoção) da barragem no final do ciclo.

Para a comparação de opções de geração diferentes, tais como combustíveis fósseis e barragens, é essencial que o mesmo horizonte de tempo seja usado se um peso não-zero para o valor do tempo fosse incluído (por exemplo, através de uma taxa de desconto). A comparação de uma barragem com uma suposta vida útil de 100 anos com uma usina termelétrica com uma suposta vida de 50 anos produzirá um resultado distorcido [4].

 

NOTAS

[1] Fuglestvedt, J., Berntsen, T., Godal, O., Sausen, R., Shine, K., Skodvin, T. 2003. Metrics of climate change: Assessing radiative forcing and emission indices. Climatic Change 58: 267-331. doi: 10.1023/A:1023905326842.

[2] Shine, K.P. 2009. The global warming potential-the need for an interdisciplinary retrial. Climatic Change 96, 467-472. doi: 10.1007/s10584-009.9647-6.

[3] Myhre, G. & 37 outros. 2013. Anthropogenic and natural radiative forcing, In: Stocker, T.F., Qin, D., Plattner, G.-K., Tignor, M., Allen, S.K., Boschung, J., Nauels, A., Xia, Y., Bex, V., Midgley, P.M. (Eds,), Climate Change 2013: The Physical Science Basis. Working Group I Contribution to the IPCC Fifth Assessment Report. Cambridge University Press, Cambridge, Reino Unido, p. 661-740. [Disponível em: http://www.ipcc.ch/report/ar5/wg1/].

[4] Isto é uma tradução parcial atualizada de Fearnside, P.M. 2015. Emissions from tropical hydropower and the IPCC. Environmental Science & Policy50: 225-239. http://dx.doi.org/10.1016/j.envsci.2015.03.002. As pesquisas do autor são financiadas por: Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) (processos nº305880/2007-1, nº304020/2010-9, nº573810/2008-7, nº575853/2008-5), Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas (FAPEAM) (processo nº 708565) e Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA) (PRJ13.03).

 

A foto que ilustra esse artigo é da barragem da usina Jirau no rio Madeira, em Rondônia (PAC).

 

Leia os artigos da série: Hidrelétricas e o IPCC 

Hidrelétricas e o IPCC: 2 – Barragens nos relatórios e diretrizes 

Hidrelétricas e o IPCC: 3 – Escolha enviesada de literatura 

Hidrelétricas e o IPCC: 4 – Barragens tropicais emitem mais 

Hidrelétricas e o IPCC: 5 – Emissões de gases nos inventários nacionais 

Hidrelétricas e o IPCC: 6 – As diretrizes de 2006

Hidrelétricas e o IPCC: 7 – Reservatórios como “áreas úmidas” 

Hidrelétricas e o IPCC: 8 – Turbinas e árvores mortas ignoradas

Hidrelétricas e o IPCC: 9 – Contagem incompleta a jusante 

Hidrelétricas e o IPCC: 10 – Concentrações subestimadas de metano 

Hidrelétricas e o IPCC: 11 – Potencial de Aquecimento Global desatualizado 

Hidrelétricas e o IPCC: 12 – Ignorando o valor do tempo

 

Philip M. Fearnside é doutor pelo Departamento de Ecologia e Biologia Evolucionária da Universidade de Michigan (EUA) e pesquisador titular do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), em Manaus (AM), onde vive desde 1978. É membro da Academia Brasileira de Ciências e também coordena o INCT (Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia) dos Serviços Ambientais da Amazônia. Recebeu o Prêmio Nobel da Paz pelo Painel Intergovernamental para Mudanças Climáticas (IPCC), em 2007. Tem mais de 500 publicações científicas e mais de 200 textos de divulgação de sua autoria que estão disponíveis neste link

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