Economia e Negócios

Profissão jornalista: existe “vida” fora de redação

12/05/2016 15:16

Iniciativas inovadoras como a Agência Pública e o Vidas Contadas fazem os jornalistas experimentarem novos formatos na profissão e empreender no chamado “novo jornalismo”. (A foto acima é da Casa Pública, no Rio)

 

Elaíze Farias

Andrezza Trajano, especial para a Amazônia Real

 

A jornalista Natália Viana, uma das fundadoras da Agência Pública, uma iniciativa pioneira no jornalismo independente e sem fins lucrativos no país, junto com a também jornalista Marina Amaral, diz acreditar no “renascimento” da profissão. Ela afirma que muitos jornalistas estão em busca de novos meios para o jornalismo que sempre sonharam.

 “O que temos visto é que cada vez mais jornalistas decidem fundar seus próprios meios para fazer o jornalismo que sempre sonharam fazer – com liberdade e independência. Por isso têm surgido dezenas de sites, cooperativas, agências e grupos de jornalistas que estão experimentando novos formatos e novas formas de financiamento. Vejo que há claramente um renascimento e um entusiasmo sobre esse renascimento do jornalismo”, avalia.

Para Natália, nas novas iniciativas, o jornalista deve buscar outro caminho que não seja o do individual, e sim do coletivo.  “Mas, do ponto de vista de conjunto, desse coletivo de jornalistas que têm se arriscado a criar meios próprios, há um caminho claro: colaborar em vez de competir, apoiar uns aos outros e, coletivamente, buscar capacitação, aperfeiçoamento e apoio da sociedade. É esse o caminho que nós estamos buscando”, diz, destacando uma nova iniciativa da Agência Pública inaugurada em março, no Rio de Janeiro.

A jornalista Natália Viana durante reportagem na Amazônia (Foto: APública)

A jornalista Natália Viana durante reportagem na Amazônia (Foto: APública)

“Fundamos a Casa Pública, um centro cultural para realizar exposições de fotojornalismo, exibições de vídeos-documentários investigativos, mas também workshops, palestras, capacitação de jornalistas independentes e incubação de novas iniciativas. Nosso objetivo é fortalecer essa geração de empreendedores para que ela venha para ficar”, afirma Natália Viana. Para conhecer a Casa Pública leia aqui.

Com sede em São Paulo, a Agência Pública produz reportagens de fôlego pautadas pelo interesse público sobre as grandes questões do país, do ponto de vista da população. Visa fortalecer o direito à informação, à qualificação do debate democrático e à promoção dos direitos humanos. Aborda temas como os impactos dos megaeventos esportivos, tortura e violência dos agentes do Estado; mega investimentos na Amazônia, crise urbana e empresas, além das violações de direitos humanos. Entre as publicações de A Pública de maior relevância estão a checagem de fatos Truco!A revoada dos passaralhos e Angola: Rappers são condenados à prisão.

Agência Pública também criou “O mapa do jornalismo independente”, um projeto que mapeou as iniciativas jornalísticas independentes no Brasil. Entre os sites citados está a agência Amazônia Real, A Ponte, os Jornalistas Livres. Veja aqui o mapa interativo.

 

Um momento de reconstrução

Para quem acabou de ser demitido da redação de um veículo de comunicação e não sabe o que fazer, a jornalista brasiliense Verônica Machado dá uma dica: “Ser demitido pode ser desesperador no primeiro momento, mas é também o momento de liberdade em que você pode fazer o que quiser. Um momento de reconstrução, de fazer o novo, de chutar o pau da barraca e, ufa, ser feliz mesmo, com qualidade de vida”.

Assim como muitos jornalistas, Verônica passou pela experiência em 2013 de deixar o trabalho, porém por vontade própria. Ela decidiu dar um novo rumo à profissão, mesmo gostando do que fazia. Como repórter de um caderno especial no jornal Correio Braziliense, percebia que perdia oportunidades dentro da redação por não falar inglês. Daí, decidiu vender tudo o que tinha, mexeu na poupança, pediu dinheiro dos familiares e embarcou para o Canadá, onde estudou o idioma por seis meses.

“Essa experiência foi muito marcante para mim porque eu vivi um mundo grande demais e cultivei sonhos que não cabiam mais em uma redação ou em qualquer escritório. Decidi, ali, ser livre e correr atrás do que quero. Com isso, voltei para o Brasil, e minha mãe tinha saído do emprego. Eu precisava ajudá-la e comecei a fazer uma pós-graduação em Marketing Digital para entender como montar um negócio e realizar o sonho da minha mãe de ter um empreendimento ligado à alimentação. Ela ama cozinhar e o faz muito bem”, disse.

A jornalista Verônica Machado buscou um novo caminho (Foto: Arquivo pessoal)

A jornalista Verônica Machado buscou um novo caminho (Foto: Arquivo pessoal)

Já com a “empreitada no ar”, como ela mesma se refere, decidiu que era hora de voltar para a área de comunicação e realizar seus sonhos. “Nessa época, eu só sabia duas coisas: que voltar para a redação seria regredir, precisava inovar, e que eu não sabia do que gostava de verdade”, lembra.

Verônica conta que sentiu necessidade de buscar o tipo de trabalho com que mais se identificava na sua área. “Todos em volta pareciam ter um talento, menos eu. E fui investigar qual seria o meu então. Antes de me formar em jornalismo, eu era atriz e era muito bom. Fui jornalista de redação e também era muito bom. Mas algo faltava para preencher mesmo o coração. Faltava propósito”, acrescenta.

Nessa fase de autoconhecimento, ela descobriu que tinha um “dom estranho”. “Eu captava a história das pessoas em uma conversa de bar, na parada de ônibus, ou até mesmo o vizinho. Descobri também que o que me deixava com respiração ofegante, coração batendo forte e com uma felicidade sem fim era ouvir e contar a história das pessoas. E que, na verdade, isso sempre fez parte da minha vida, no teatro ou no jornalismo: contar a história das pessoas. Pronto. Eu me encontrei. Só não sabia como fazer disso meu ganha-pão e também uma nova profissão”, relata.

A jornalista se “achou” quando começou a gravar vídeos curtos com histórias incríveis de pessoas comuns e colocar na internet. Nasceu o Vidas Contadas. “Eu fiz tudo: do site aos vídeos e edições. Deu muito certo. As pessoas gostaram. Mas, depois de cinco vídeos, o dinheiro da minha reserva de ‘freelas’  acabou”, diz. 

Para continuar, ela abraçou um crowdfunding, um  financiamento coletivo para start de projetos. Em 40 dias, arrecadou R$ 4 mil; o dinheiro que precisava para fazer uma série de oito vídeos para o Vidas Contadas. Verônica destaca que, se voltasse para o mercado formal, não estaria completa e deixaria seus planos de lado – por isso insistiu. “Depois do projeto maduro, descobri que o que eu faço no Vidas Contadas é jornalismo. Não é uma nova profissão. Foi o que sempre fiz de uma maneira muito própria”, enfatiza.

Logo veio o reconhecimento. A jornalista foi convidada a dar palestras em escolas e faculdades, sem custos para os participantes. Uma empresa de elenco pediu parceria com o projeto. O Centro Universitário de Brasília também se aliou ao Vidas Contadas e apoiou uma série de vídeos com histórias de jovens empreendedores. Surgiram propostas de patrocínio, que ainda estão em análise. Também é possível encomendar um “Vidas” para quem quiser ter a história contada. Empresas já a contrataram para fazer histórias reais de clientes.

“Hoje, eu vivo do Vidas Contadas. Nunca trabalhei tanto e fui tão feliz. Tenho aquela sensação de que estou no caminho certo, sem ter certeza de onde ele vai dar”, comemora.

Novas mídias da era digital

 

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Paralelo ao Vidas Contadas, Verônica Machado desenvolveu um novo projeto, o Jornalista 3.0. “Percebi meu verdadeiro propósito: ajudar jornalistas a enxergar a profissão de um jeito único, com autonomia e satisfação. Acumulei muito conhecimento nessa jornada e quero ensinar para meus colegas que é possível estar feliz na profissão em pleno momento de crise”, diz à reportagem.

Jornalista 3.0, explica, ajuda jornalistas a atualizarem a versão para a era digital e a concretizarem sonhos por meio das possibilidades da internet. Ela já escreveu quatro e-books, e, em  quatro meses, mais de 1,5 mil jornalistas que acompanham o trabalho receberam material exclusivo.

Verônica Machado também lançou um novo programa de protagonismo digital para jornalistas, chamado Realize. “Nele, eu vou ‘mentorar’ profissionais no processo de realizações de projetos na internet: de ensinar a como escolher um nome legal, a criar um site ou blog, a entender possibilidades de monetização e saber se recuperar mentalmente com as dificuldades do caminho. O programa/curso está na primeira edição e recebeu 70 participantes”, explica.

Otimista com o novo jornalismo que está surgindo, ou o Jornalismo 3.0, como conceitua, ela diz acreditar que se trata de um modelo “mais colaborativo, altruísta, com senso de comunidade, mais interessante, democrático e inteligente”. “As notícias rasas e aprofundadas não se limitam ao jornal de R$ 3,00 que compramos na padaria ou ao Jornal Nacional das 20h. Elas estão bem à mão, no celular. Entenda que uma coisa não mudou e nem vai mudar tão cedo: informação é poder. E ela está muito mais acessível. Não é o fim, colegas… É só o começo”, afirma.

E com renda até maior também. Por que não? Ela observa que, ao mesmo tempo em que são os mais dispensados dos veículos de comunicação, os jornalistas também são os mais requisitados nas agências de conteúdo. São jornalistas com talento, mas sem propósito, segundo Verônica Machado, e que o propósito tem a ver com altruísmo e ajudar alguém de verdade com informação.

“Será que esse não seria o melhor momento para repensar a função do jornalista? Proponho uma discussão. O mundo mudou muito, será que ainda dá para fazer aquele jornalismo 1.0, o do Clark Kent? Não sou dona da verdade e há muito o quê se discutir, mas nada me tira a certeza de que vamos mudar para melhor, enquanto pessoas e profissionais, apesar das lágrimas dos passaralhos”, diz Verônica Machado.

Verônica Machado durante palestra em Fortaleza (Foto: Arquivo pessoal)

Verônica Machado durante palestra em Fortaleza (Foto: Arquivo pessoal)

 

*Atualizado em 16/05/2016

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