Política

Amazônia Real ganha Prêmio do Público The Bobs 2016

02/05/2016 23:37

A agência de jornalismo independente sediada em Manaus foi a única iniciativa brasileira entre os 18 ganhadores do concurso promovido pela Deutsche Welle, que reconhece o trabalho de jornalistas na internet.  (Foto: Jan Röhl/DW)

 

A Deutsche Welle (DW), empresa de comunicação internacional da Alemanha, anunciou nesta segunda-feira (02/05) em Berlim os vencedores do concurso de ativismo online The Bobs 2016. Entre os 18 ganhadores – blogueiros, ativistas e jornalistas – que se engajam na internet pela liberdade de expressão e defesa dos direitos humanos, o site da agência de jornalismo independente Amazônia Real foi o vencedor do Prêmio do Público para a língua portuguesa, destacando-se como a única iniciativa brasileira entre os vencedores.

De acordo com nota divulgada pela DW, das 2.300 iniciativas inscritas para concorrer ao Prêmio The Bobs 2016, 126 foram nomeadas para a votação online. Um júri internacional composto por especialistas de internet de 14 regiões linguísticas escolheu, em reunião de dois dias na capital alemã, os vencedores das quatro categorias principais da competição.

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O jurado para a língua portuguesa foi o jornalista e ativista brasileiro Maurício Santoro, professor de Relações Internacionais na Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj).

Na categoria Jornalismo Cidadão, o premiado deste ano foi o documentário bengalês Razor’s Edge (“Fio da Navalha”, em tradução livre). O aplicativo de smartphone persa Gershad foi o homenageado na categoria Tech pro Bem. Na categoria Arte e Cultura, o prêmio de 2016 foi para o trabalho da iniciativa alemã Zentrum für politische Schönheit (Centro de Beleza Política). O site indiano Stop Acid Attacks (“Parem os ataques com ácido”) é o vencedor da categoria Mudança Social.

Além dos Prêmios do Júri nas quatro categorias internacionais, a DW concedeu o Prêmio do Público, escolhido por meio de votação online para definir o melhor site em cada um dos 14 idiomas do concurso.

Segundo os organizadores, o repertório dos projetos inscritos por usuários de todo o mundo variou de contas do Instagram a aplicativos de smartphones e páginas do Facebook, mostrando o grande espectro do ativismo online. Neste ano, foram computados mais de 100 mil votos.

premio do publico portugues

 

O vencedor para a língua portuguesa foi o site da agência Amazônia Real. Segundo a DW, a iniciativa preenche uma lacuna de informações sobre a Amazônia – incluindo política, economia, meio ambiente e povos indígenas. Veja os ganhadores do Prêmio do Público para os outros 13 idiomas aqui.

A Deutsche Welle organiza o concurso The Bobs desde 2004. O prêmio é o único concurso internacional que reconhece, para além das fronteiras linguísticas e culturais, produções criativas e corajosas na web, apontando, assim, de forma competente, um caminho através da imensa variedade de ofertas na rede.

As línguas do concurso são: alemão, árabe, bengali, chinês, espanhol, francês, híndi, indonésio, inglês, persa, português, russo, turco e ucraniano.

Entre os vencedores do Bobs nos últimos anos estão Yoani Sánchez (Cuba), Lina Bem Mhenni (Tunísia), Ushahidi (Quênia), a Sunlight Foundation (EUA), Li Chengpeng (China), eAlaa Abd El-Fattah (Egito).

 

O novo jornalismo brasileiro

As jornalistas Elaíze Farias e Kátia Brasil. (Foto: Alberto César Araújo/AmReal)

As jornalistas Elaíze Farias e Kátia Brasil. (Foto: Alberto César Araújo/AmReal)

Criada e dirigida pelas jornalistas Elaíze Farias e Kátia Brasil, a agência de jornalismo independente Amazônia Real foi fundada em 21 de outubro de 2013 com a missão de dar voz às populações da região amazônica que não têm acesso à mídia. Leia mais aqui.

As reportagens valorizam as demandas de grupos sociais como povos indígenas, povos tradicionais, ribeirinhos, imigrantes, defensores de direitos humanos, além de garantir espaço para temas socioambientais, direitos territoriais e biodiversidade, entre outros.

A linha editorial da Amazônia Real é pautada no jornalismo investigativo e de qualidade como instrumentos da Comunicação Social, do interesse público e da justiça social, em defesa da liberdade de expressão, da liberdade de imprensa e dos direitos humanos.

A repercussão das reportagens do site, com textos profundos e contextualizados, transformou a agência numa referência no debate sobre o jornalismo independente na internet e no chamado “novo modelo jornalismo empreendedor” brasileiro, em que os próprios repórteres são os administradores do negócio.

 

Os colunistas e um novo olhar da Amazônia

O geógrafo Carlos Durigan, do WCS Brasil. (FotoAmazonas: Alberto César Araújo)

O geógrafo Carlos Durigan, do WCS Brasil. (Foto: Alberto César Araújo/AmReal)

Para ampliar o debate sobre as questões amazônicas, a agência de jornalismo Amazônia Real conta com o apoio fundamental de voluntários, que formam a rede de colunistas especialistas nos temas da região. São eles: o repórter-fotográfico Alberto César Araújo, o geógrafo e ambientalista Carlos Durigan, pesquisador multidisciplinar da biodiversidade e sociodiversidade de Unidades de Conservação e Terras Indígenas do rio Negro, o jornalista e cientista político Carlos Potiara Castro, o arqueólogo Eduardo Góes Neves, um dos fundadores do primeiro projeto de arqueologia da Amazônia Central, o antropólogo João Paulo Barreto, indígena da etnia tukano e um dos fundadores do Movimento Indígena do Amazonas; o jornalista Lúcio Flávio Pinto, único brasileiro eleito entre os 100 heróis da liberdade de imprensa pela organização internacional Repórteres Sem Fronteiras, o professor e jornalista Renan Albuquerque, que desenvolve estudos relacionados a conflitos e impactos socioambientais entre índios e pessoas atingidos por barragens, o ecólogo Philip Fearnside, cientista ganhador do Prêmio Nobel da Paz pelo Painel Intergovernamental para Mudanças Climáticas (IPCC) em 2007, a advogada militante Mary Cohen, ativista de direitos humanos e defensora do meio ambiente -ela atualmente integra a Comissão Justiça e Paz da CNBB Norte2. Ainda integram o time de colunista a educadora Fátima Guedes, pesquisadora de conhecimentos tradicionais da Amazônia, a historiadora Patrícia Sampaio, que desenvolve pesquisas em história indígena no Brasil e escravidão africana na Amazônia, e do geólogo Marco Antônio Oliveira, especialista na hidrologia – cheias e secas na Amazônia Ocidental.

 

Modelo de negócio

(Foto: Alberto Cesar Araújo/mReal)

(Foto: Alberto Cesar Araújo/AmReal)

 

A agência Amazônia Real é uma organização sem fins lucrativos. A iniciativa jornalística independente foi financiada inicialmente pelas fundadoras. O modelo de sustentabilidade financeira buscou o caminho das doações de leitores também. Os anúncios da publicidade de empresas também foi uma opção de negócio, mas essa modalidade ainda está no planejamento, assim com a realização de um financiamento coletivo (crowdfunding). 

Desde o ano de 2014, a Amazônia Real desenvolve o Projeto Amazônia Real, promovendo a democratização e a liberdade de expressão na região amazônica em parceria com Fundação Ford, dos Estados Unidos. O objetivo da parceria é dar oportunidade de direitos e acesso à mídia à população amazônica, produzindo e difundindo informação na própria região, por meio dos seguintes eixos temáticos: Meio Ambiente, Povos Indígenas, Povos Tradicionais, Conflitos Agrários, Direitos Humanos e Contas Públicas.

Com este modelo de negócio foi possível disponibilizar o conteúdo do site para republicação livre garantindo o acesso à informação na região amazônica por meio da Licença Creative Commons. 

O projeto está em sua segunda fase com uma cobertura jornalística nos Estados do Amazonas, Acre, Rondônia, Roraima e Pará. Este ano a cobertura foi ampliada para o Maranhão. O objetivo é ampliar o acesso à informação às populações tradicionais e indígenas dos Estados do Amapá, Mato Grosso e Tocantins, abrangendo, dessa forma, toda a Amazônia Legal brasileira.

 

Uma ideia inspiradora

LOGO AMAZONIA REAL

 O jornalismo desenvolvido pela agência Amazônia Real chamou a atenção do meio acadêmico da Comunicação Social regional, nacional e internacional, em 2015. A iniciativa participou do estudo Empreendedores na América Latina, aprovado pelo Human Subjects Committee (Comitê para Pesquisa com Pessoas) da Universidade do Texas, em Austin, tendo como coordenador o professor Rosental Calmon Alves.

A agência também foi foco de uma reportagem do site do Centro Knight para o Jornalismo nas Américas, instituição de ensino sediado no Estado americano do Texas. A reportagem recebeu o título “Agência de notícias independente busca dar visibilidade a personagens e pautas da região amazônica”. Veja aqui.

A Amazônia Real também participou do projeto Jornalismo Digital Independente no Brasil, da estudante Daniela Lacerda, mestranda em Comunicação Social da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Também fez parte do estudo do jornalista brasileiro Fabiano Maisonnave para a Fundação Nieman Reports, da Universidade de Harvard, nos Estados Unidos. Leia o artigo de Maisonnave publicado em janeiro de 2016 aqui.

Atualmente, a Amazônia Real participa do Mapa do Jornalismo Independente, um projeto da Agência Pública, uma das pioneiras no jornalismo independente brasileiro. A ideia mapeou as iniciativas em todo o país. Leia aqui

Em 2016, recebemos a grata informação de que o trabalho da agência é tema da tese de mestrado sobre Conceitos de Jornalismo Independente, Jornalismo Investigativo e Empreendedorismo do jornalista e mestrando Gustavo Panacioni, da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), no Paraná. A proposta do mestrando é trabalhar os conceitos de jornalismo, do jornalismo investigativo e do empreendedorismo. Segundo ele, a iniciativa propõe uma abordagem diferente da dinâmica das redações hard-news.

A história da fundação e o modelo de negócio da Amazônia Real estão entre os 20 exemplos do e-book “Vida Fora da Redação”, que conta ideias inspiradoras de jornalistas que apostaram em projetos fora das redações dos grandes empreendimentos da comunicação no Brasil. Conheça o projeto aqui.

A Amazônia Real também foi citada pelo conhecido site BuzzFeed em uma lista que apontou os “13 projetos que querem mudar o jornalismo brasileiro”. A “Folha de São Paulo” destacou a criação da agência na reportagem “Microempresas jornalísticas surgem, mas modelo de negócio é desafio”, publicada em setembro de 2015.

 

As provocações ao debate sobre a Amazônia

Família do pastor Anestor Farias, na Comunidade Rumo Certo. (Foto: Alberto César Araújo/AmReal)

Família do pastor Anestor Farias, na Comunidade Rumo Certo. (Foto: Alberto César Araújo/AmReal)

A menina e a falta d´água na seca de 2010 em Tefè, no Amazonas (Foto: Alberto César Araújo)

A menina e a falta d´água na seca de 2010 em Tefè, no Amazonas (Foto: Alberto César Araújo)

As reportagens da Amazônia Real permitem a exploração de outras dinâmicas como, por exemplo, discutir com a sociedade as questões importantes da região amazônica. Em abril de 2015 foi realizado o primeiro debate com o título “O Desmatamento da Floresta Amazônica e a Crise Hídrica no Brasil”. A iniciativa contou com o apoio da Embaixada dos Estados Unidos no Brasil, do Instituto Cultural Brasil – Estados Unidos (Icbeu), dos coletivos Mídia Ninja e Conta Da Água, e do site InfoAmazônia, ambos de São Paulo.

O debate reuniu um público de cerca de cem pessoas e foi marcado pela diversidade de opiniões dos cientistas e posicionamentos da plateia, mas com um consenso: o desmatamento da Amazônia exerce influência no volume de chuvas em outras regiões do país.  

As mídias sociais

Indígenas Matís se preparando para ocupar a Funai. (Foto: Aima)

Indígenas Matís se preparando para ocupar a Funai. (Foto: Aima)

 

A Amazônia Real utiliza as redes sociais para divulgar e compartilhar suas produções, mas também como um canal de diálogo direto com personagens que vivem em áreas remotas da região, com acesso apenas pela internet por meio das plataformas  Facebook e WhatsApp. Assim foi  possível entrevistar etnias indígenas com os Matís que vivem em Atalaia do Norte, a mais de mil quilômetros de Manaus, no oeste do Amazonas.

Amazônia Real constatou um crescimento substancial do número de visitações em suas redes sociais e no website www.amazoniareal.com.br. Lembrando que esse crescimento não utilizou publicidade paga ou impulso de conteúdo em suas páginas nas redes sociais.

Desde sua entrada no ar, em 21 de outubro de 2013, o site da agência Amazônia Real já foi acessado por mais de um milhão de leitores em mais de 170 países, segundo dados de estatísticas da plataforma WordPress e Google Analytcs, o que confirma que o projeto está alcançando seu objetivo de dar acesso às questões da Amazônia a visibilidade necessária para o debate em torno de sua preservação, de sua população e de seu futuro.

Além das plataformas WordPress e Analytcs, o website da Amazônia Real está configurado com o SEO (sigla em inglês para Search Engine Optimization), que otimiza a pesquisa para potencializar e melhorar o posicionamento do site na internet.

Os leitores da Amazônia Real estão espalhados da seguinte forma pelo Brasil: 15% em Manaus (AM), 13% em São Paulo, 7% no Rio de Janeiro, 5% em Brasília, 4% em Belo Horizonte (MG), 3% em Goiânia (GO), 2% em Porto Velho (RO) e Belém (PA). Os números mostram um desafio para agência, que é o de ampliar seu número de leitores entre os Estados amazônicos.

Já pelo mundo, o website da Amazônia Real é lido em 90% no Brasil, 2% nos Estados Unidos, 1% na Índia, em Portugal, França, Espanha e menos de 1% na Inglaterra, Alemanha, Venezuela, Moçambique, Russa, Índia, entre outros.

 

A primeira premiação nacional

Em 2015, a Amazônia Real foi uma das iniciativas em jornalismo independente reconhecida no 1º.  Prêmio de Jornalismo Cidadão – Radiotube 2015, no Museu da República, no Rio de Janeiro, ficando em segundo lugar com o vídeo reportagem “Aruká, o último guerreiro Juma”, que conta a história do povo em risco de extinção do sul do Amazonas. O prêmio foi promovido pela organização não governamental Criar Brasil, que atua na produção radiofônica em todo o país há 21 anos.

Aruká alimenta com mandioca o papagaio da família (Foto: Odair Leal/AR)

Aruká alimenta com mandioca o papagaio da família (Foto: Odair Leal/AR)

 

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